
Os jornalões mobilizaram suas equipes de repórteres e editores de política, com o suporte de comentaristas de ponta, para cobrir e analisar em tempo real o debate de domingo na Bandeirantes. Nem a Cazé TV, se já fosse competitiva também nessa área, cometeria tal afronta à sua audiência.
Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos (foto) eram Mirassol, Remo e Chapecoense iniciando um Brasileirão sem Palmeiras e Flamengo. Gilberto Kassab não dormiu ao vivo por estar vendo algo enfadonho. Dormiu para recomendar aos que ainda insistiam em ficar diante da TV: não se constranjam, desistam e vão para a cama.
Estas foram as manchetes (manchetes mesmo, de alto de página) dos jornalões pouco antes do debate. Estadão: “Promovido pela Band/Estadão, primeiro debate de presidenciáveis começa”. Folha: “Sem Lula, Flávio e Zema, eleição presidencial tem debate inicial com menor quórum desde 1989”. Globo: “Lula, Flávio e Zema faltam ao primeiro debate, a partir das 20h; colunistas do Globo analisam”.
Por que, mesmo esvaziado e sem sentido, o debate continuou produzindo manchetes e prometendo análises densas e profundas? Porque os jornalões estavam certos de que algo iria acontecer num encontro com três pangarés.
Todos iriam bater em Lula. Por isso os sites das corporações continuaram induzindo seus leitores para que, mesmo quase dormindo, tentassem acompanhar a encenação. Lula sairia esfolado.
Cumpriu-se apenas em parte o objetivo de um debate de primeiro turno: juntar figuras subalternas da política para que tentem fragilizar o nome mais forte e considerado inimigo dos jornalões. Mesmo que, juntos, os três candidatos presentes sejam a soma do que os institutos chamam de margem de erro.

Mas há quem tenha argumentado o seguinte: os eleitores deles decidirão a eleição no segundo turno. É quase uma eureka. Desde a invenção da segunda rodada, quem vota em derrotados terá de fazer uma nova aposta entre os dois que sobrevivem e vão para o embate final, ou se ausentar, ou votar em branco, ou anular o voto.
Mas um debate como esse, com uma das piores audiências da história de confrontos na TV, ajuda a decidir o quê? Muito antes da internet, das redes sociais e dos grupos de tios do zap, um embate nesses moldes se presta à produção de momentos que renderão cortes. Serve para a lacração.
Quem vê um debate desde o início, que nem Kassab consegue acompanhar, para avaliar a capacidade de argumentação e o encadeamento de ideias, já sabe em quem vai votar. O resto espera os cortes de alguns segundos, com falas de impacto programadas. Lacra quem disser bobagens com maior poder de síntese.
Os três candidatos presentes no domingo na Bandeirantes foram preparados para produzir cortes contra Lula, facilitando também a vida do jornalismo das corporações. Um jornalismo cada vez mais preguiçoso e antilulista, que vive de vazamentos produzidos por servidores públicos bolsonaristas.
Os analistas do Globo chegaram ao atrevimento de dar notas para os três debatedores, a partir da premissa de que haveria um ganhador. Caiado teria vencido, com Cury de vice e Santos em último lugar. É um pódio que deprecia o próprio jornalismo.
Mas os jornalistas da grande mídia mantiveram a encenação de que o debate tinha algum valor, porque a democracia também é, principalmente em épocas eleitorais, a reunião de aberrações. Que se multiplicaram com a ascensão do bolsonarismo.
Quanto mais esdrúxulo o time do debate e quanto maior a aberração, melhor para a nova caçada lavajatista. A Bandeirantes poderia ter chamado a mulher barbada dos circos de horrores de antigamente, e o resultado seria o mesmo, se também ela decidisse atirar em Lula.