Da Redação
Presidentes acertam envio de missão brasileira à Turquia, celebram ratificação do acordo para a indústria de defesa e criam Conselho Estratégico bilateral; aproximação abre caminho para pesquisa, desenvolvimento e produção conjunta de equipamentos militares e reforça estratégia brasileira de ampliar autonomia tecnológica
O Presidente Lula e o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, deram nesta segunda-feira (24) um novo passo para aprofundar uma relação que pode ganhar importância estratégica para os dois países. Em conversa telefônica, os presidentes celebraram a ratificação parlamentar do Acordo de Cooperação em Indústria de Defesa, acertaram o envio de uma delegação brasileira à Turquia e decidiram criar um Conselho Estratégico bilateral, em nível de vice-presidentes, destinado a formular um roteiro mais amplo para o aprofundamento das relações entre Brasília e Ancara.
A iniciativa vai muito além de uma eventual compra de armamentos. O acordo firmado originalmente pelos dois governos em 2022 prevê cooperação em pesquisa, desenvolvimento, produção e modernização conjunta de equipamentos, sistemas e materiais militares, além de intercâmbio técnico e científico, aquisição e manutenção de produtos de defesa, projetos realizados nos territórios dos dois países e parcerias entre empresas e instituições militares. O texto contempla inclusive a possibilidade de comercialização conjunta de determinados produtos para terceiros países, respeitadas as normas internacionais aplicáveis.
Esse desenho ajuda a explicar por que Lula enfatizou durante o telefonema que o Brasil pretende ampliar os investimentos na área de defesa e estimular diretamente parcerias entre empresas brasileiras e turcas. Os dois presidentes decidiram enviar à Turquia uma delegação brasileira chefiada pelos ministros da Defesa e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A composição da missão é significativa: ao colocar Defesa e Desenvolvimento Industrial na mesma delegação, o governo sinaliza que enxerga a política de defesa também como instrumento de desenvolvimento tecnológico e produtivo.
A aproximação encontra uma Turquia que construiu nas últimas décadas uma indústria militar cada vez mais relevante e buscou diminuir sua dependência externa em áreas sensíveis. Para o Brasil, a experiência turca desperta interesse justamente porque o país também possui uma base industrial de defesa importante, mas enfrenta problemas históricos de continuidade orçamentária, escala produtiva, domínio tecnológico e manutenção de programas estratégicos de longo prazo.
Nesse sentido, uma parceria bem estruturada pode ser mais importante para o Brasil quando envolve transferência e desenvolvimento de tecnologia do que quando se limita à importação de sistemas acabados. O próprio acordo estabelece mecanismos de proteção à propriedade intelectual e prevê intercâmbio de conhecimento, desenvolvimento, produção, aquisição, manutenção e suporte técnico e logístico. Trata-se, portanto, de uma arquitetura potencialmente capaz de aproximar empresas e centros tecnológicos dos dois países.
A relação não surgiu agora. Lula e Erdogan já vinham discutindo a retomada da cooperação em defesa desde 2023, depois de um período em que Brasília considerava a parceria pouco explorada. Em novembro de 2024, durante encontro no Rio de Janeiro por ocasião do G20, Erdogan voltou a propor cooperação nas áreas de defesa e aviação civil e sugeriu a criação de um conselho de alto nível para aprofundar as relações bilaterais. A decisão anunciada nesta segunda-feira transforma parte dessas conversas anteriores em uma estrutura institucional concreta.
O momento internacional torna esse movimento ainda mais relevante. A ordem mundial atravessa uma acelerada recomposição das alianças militares e das cadeias industriais de defesa. Guerras prolongadas, expansão dos gastos militares, disputa tecnológica entre grandes potências e dificuldades de abastecimento demonstraram que países excessivamente dependentes de fornecedores estrangeiros podem encontrar limitações severas justamente quando mais necessitam de equipamentos, munições, peças e sistemas estratégicos.
Para um país com as dimensões territoriais do Brasil, isso possui consequências diretas. São mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres, uma extensa costa atlântica, enorme espaço aéreo, recursos naturais estratégicos, infraestrutura energética, Amazônia, reservas minerais e uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo. Uma política de defesa compatível com essa realidade não pode depender exclusivamente da aquisição episódica de equipamentos estrangeiros. Precisa preservar conhecimento, engenharia, capacidade industrial e autonomia de manutenção dentro do território nacional.
É nesse ponto que a cooperação com países intermediários do sistema internacional ganha significado especial. Brasil e Turquia possuem diferenças importantes de política externa e de inserção militar — a Turquia integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte, enquanto o Brasil mantém tradição de não participação em alianças militares dessa natureza. Isso, porém, não impede cooperação industrial bilateral. Ao contrário, diversificar parceiros pode diminuir a dependência brasileira de um único centro tecnológico e ampliar sua margem de negociação internacional.
A aproximação ocorre ainda num momento em que o próprio governo Lula voltou a colocar a reconstrução da capacidade de defesa brasileira no centro do debate nacional. Programas estratégicos como o submarino nuclear Álvaro Alberto, as fragatas da classe Tamandaré e os caças Gripen envolvem não apenas necessidades militares, mas cadeias industriais, engenharia avançada, formação de pessoal e domínio de tecnologias sensíveis. Em 2025, o programa nuclear da Marinha chegou pela primeira vez ao topo dos gastos militares brasileiros, refletindo a prioridade concedida ao projeto.
Por isso, a discussão sobre defesa não pode ser reduzida à ideia simplista de militarização. Existe uma diferença fundamental entre participar de uma corrida armamentista subordinada às grandes potências e construir capacidade autônoma de defesa. Para o Brasil, essa diferença passa pelo domínio tecnológico. Países que não controlam sistemas de comunicação, sensores, propulsão, ciberdefesa, munições, aeronaves, veículos, radares e outras tecnologias estratégicas ficam sujeitos às decisões políticas de seus fornecedores.
A Turquia é particularmente interessante nesse contexto porque desenvolveu uma política industrial de defesa orientada justamente para reduzir vulnerabilidades externas. Isso não significa que o Brasil deva copiar seu modelo, muito menos reproduzir automaticamente sua doutrina militar. Significa que existe espaço para identificar complementaridades industriais capazes de fortalecer empresas brasileiras e ampliar a capacidade tecnológica nacional.
A decisão de criar um Conselho Estratégico mostra também que Lula e Erdogan pretendem colocar a relação num patamar mais amplo. O órgão deverá funcionar no nível das vice-presidências e elaborar um caminho para aprofundar a cooperação bilateral. Isso permite que defesa seja articulada com indústria, comércio, energia, ciência e tecnologia, áreas nas quais os dois governos já manifestaram interesse em ampliar relações.
Há ainda uma dimensão geopolítica que merece atenção. A Turquia ocupa uma posição singular entre Europa, Ásia, Mediterrâneo, Cáucaso e Oriente Médio e procura há anos exercer política externa com margem própria de manobra. O Brasil, por sua vez, aposta numa inserção internacional baseada em autonomia, diversificação de parceiros, fortalecimento dos BRICS, integração sul-americana e defesa de uma ordem internacional menos concentrada. Os dois países não possuem interesses idênticos, mas compartilham a condição de potências regionais que procuram ampliar sua capacidade de decisão num sistema internacional dominado por grandes centros de poder.
Essa convergência também apareceu na conversa desta segunda-feira. Lula e Erdogan lamentaram a persistência das guerras e defenderam intensificação do diálogo em busca de soluções para os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio. Erdogan convidou ainda Lula para participar da COP31, que será realizada em novembro, em Antália. O presidente brasileiro aceitou o convite e manifestou expectativa de encontrar novamente o líder turco durante a conferência climática.
A combinação de defesa e clima pode parecer contraditória, mas revela duas dimensões centrais da atual disputa internacional. A transição energética aumenta a importância de minerais, tecnologia, infraestrutura e cadeias industriais, enquanto a deterioração do ambiente geopolítico leva governos a reconsiderar sua vulnerabilidade estratégica. Para países como o Brasil, desenvolvimento sustentável e soberania precisam caminhar juntos: não basta possuir recursos naturais se as tecnologias capazes de transformá-los em produtos de alto valor agregado permanecerem integralmente no exterior.
É também por isso que os resultados concretos da aproximação com a Turquia precisarão ser acompanhados. O acordo cria possibilidades, mas não garante automaticamente transferência tecnológica, produção nacional ou fortalecimento das empresas brasileiras. Essas consequências dependerão dos projetos escolhidos, das condições negociadas, da participação efetiva da indústria nacional e da capacidade do Estado brasileiro de manter investimentos de longo prazo.
A missão que viajará à Turquia deverá começar a transformar a arquitetura diplomática em projetos concretos. A partir daí será possível avaliar quais segmentos interessam aos dois países, que empresas poderão cooperar, quais tecnologias estarão envolvidas e quanto da produção poderá ocorrer no Brasil.
O passo dado nesta segunda-feira é, entretanto, politicamente relevante. Brasil e Turquia estão deixando uma cooperação genérica em defesa para construir mecanismos permanentes capazes de aproximar governos, indústrias e centros tecnológicos. Em uma ordem internacional cada vez mais instável, essa diversificação pode ampliar a autonomia brasileira justamente quando soberania tecnológica e capacidade industrial voltaram a ser elementos centrais do poder dos Estados.
Para o Brasil, o melhor acordo será aquele que não transforme o país apenas em comprador de equipamentos turcos, mas em parceiro capaz de pesquisar, desenvolver, produzir e eventualmente exportar tecnologias conjuntamente. Se essa orientação prevalecer, a aproximação Lula-Erdogan poderá representar algo maior do que um novo capítulo das relações bilaterais: poderá integrar o esforço brasileiro de reconstrução de uma indústria de defesa compatível com o tamanho, os recursos e as ambições soberanas do país.