Cerimedo frequentou Casa Rosada após Milei dizer que relação havia acabado

Fernando Cerimedo e Javier Milei, presidente da Argentina. Reprodução

O ex-assessor de Javier Milei, Fernando Cerimedo, manteve contatos com integrantes do governo argentino mesmo depois das eleições de 2023, que levaram o líder da La Libertad Avanza à Presidência. Registros oficiais obtidos pelo jornal La Nación mostram que Cerimedo entrou pelo menos 13 vezes na Casa Rosada desde a posse de Milei.

O dado contrasta com uma declaração feita pelo próprio presidente argentino. Ao ser questionado sobre o ex-estrategista, Milei afirmou que a relação entre os dois havia terminado em 2023.

“É alguém que não faz parte do espaço e que não tem vínculo conosco de nenhum tipo. Deixamos de nos relacionar em 2023”, disse Milei à Rádio Mitre.

Os registros, porém, mostram que Cerimedo continuou frequentando a sede do governo até 5 de junho de 2024. A primeira entrada registrada depois da posse de Milei ocorreu em 11 de dezembro de 2023, um dia depois de o presidente assumir o cargo.

A planilha oficial registra quem entrou na Casa Rosada, a data da visita e a autoridade que autorizou o acesso. Segundo o levantamento do La Nación, quem mais autorizou as visitas de Cerimedo foi o então ministro do Interior, Lisandro Catalán.

Em outras ocasiões, a autorização aparece em nome de “Menem”, sem especificação do primeiro nome. Também há uma entrada autorizada pelo ex-chefe de Gabinete Guillermo Francos e outra pelo assessor presidencial Santiago Caputo. O “Menem” mencionado na planilha seria Eduardo “Lule” Menem, aliado próximo de Karina Milei.

Cerimedo continuou próximo de integrantes do governo

A relação do consultor com o universo libertário também não terminou dentro da Casa Rosada. Em dezembro de 2024, Cerimedo participou da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Buenos Aires, onde voltou a circular entre integrantes do governo e aliados de Milei.

Ele manteve proximidade com figuras ligadas a Santiago Caputo, entre elas Daniel Parisini, conhecido como Gordo Dan, e Juan Pablo Carreira, o Juan Doe.

O afastamento público do governo ocorreu depois do escândalo envolvendo a Agência Nacional de Deficiência (Andis) e denúncias de supostos pagamentos de propina.

Segundo a ex-companheira de Cerimedo, Nadia Beller, ele teria contado a ela que ele e sua esposa, Natalia Basil, que trabalhava no órgão, participaram do vazamento de áudios nos quais Diego Spagnuolo, então dirigente da Andis, falava sobre supostas propinas.

Nadia Beller, ex-mulher de Fernando Cerimedo e vítima de tentativa de assassinato. Reprodução

Milei compartilhou teoria de “operação política”

Depois que Cerimedo foi acusado na Bolívia de ser o suposto autor intelectual do ataque a tiros contra Beller, Milei passou a se distanciar publicamente do ex-assessor.

Na quinta-feira, porém, o presidente argentino compartilhou mensagens nas redes sociais que questionavam o ataque e sugeriam a existência de uma suposta “operação” política.

Entre as publicações compartilhadas estavam mensagens da deputada libertária Lilia Lemoine e do influenciador Franco Iván Jeremías Antunes Puchol, conhecido como Fran Fijap, que classificou o ataque contra Beller como uma “opereta”.

A versão também coincide com a estratégia da defesa de Cerimedo. Sua advogada afirmou que o episódio teria sido um “show”, levantando a hipótese de “autoatentado”.

Beller, entretanto, apresentou à imprensa um relatório médico da Clínica de Las Américas que registrou múltiplos ferimentos provocados por projéteis de arma de fogo, incluindo lesões na mama direita, braço direito, pescoço e ombro esquerdo, além de uma fratura exposta no úmero direito.

O documento também confirmou que Beller está grávida. Segundo ela, o pai da criança é Cerimedo.

Justiça boliviana decreta prisão preventiva

A situação do ex-assessor de Milei se agravou na Justiça boliviana. Cerimedo teve decretados 180 dias de prisão preventiva, acusado de tentar matar Beller.

A decisão foi tomada pelo juiz Wilson Espada, que rejeitou questionamentos da defesa sobre a prisão e autorizou o uso de mensagens encontradas no celular do acusado como elementos da investigação.

Para os promotores, Cerimedo seria, “com probabilidade”, o autor intelectual e mediato de feminicídio em grau de tentativa.

Segundo a acusação, elementos materiais e telemáticos reunidos durante a investigação indicariam que ele teria planejado e coordenado o ataque, convencendo Beller a ir ao Swissotel Santa Cruz de la Sierra sob a promessa de que receberia proteção.

Os investigadores sustentam ainda que Cerimedo teria se aproveitado da relação com Beller e da condição de pai do filho que ela está esperando para facilitar e dirigir remotamente a emboscada.

O caso agora coloca sob escrutínio não apenas as acusações contra Cerimedo, mas também a distância entre o discurso de Milei — de que o vínculo com o ex-assessor havia terminado em 2023 — e os registros oficiais que mostram 13 entradas de Cerimedo na Casa Rosada até 2024.

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