
Ex-integrantes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecida como igreja mórmon, denunciaram exploração financeira, controle social e práticas reservadas aos fiéis. Os depoimentos incluem cobranças consideradas abusivas, interferência em relações pessoais e restrições ao contato com dissidentes. Com informações de Metrópoles.
Os ex-membros também descreveram rituais secretos com simulações de penalidades violentas, incluindo o corte da garganta dos participantes. Outros relatos mencionam batismos de pessoas mortas sem consentimento familiar, discriminação contra mulheres e a associação histórica da pele escura a uma suposta “maldição”.
O professor e pesquisador Carlos Alberto Dutra Fraga Filho permaneceu ligado à igreja por cerca de dez anos. Ele começou a frequentar uma unidade no Espírito Santo em 2012 e se batizou três anos depois. Fraga Filho afirma que integrantes da instituição interferiram no processo de separação de sua esposa e que um advogado ligado à igreja determinou o fim do contato entre os dois. “Sinceramente, eu senti que a roubaram”, disse.
O pesquisador também acusa uma psicóloga contratada pelo advogado de elaborar um parecer que lhe atribuía um transtorno sem consultá-lo pessoalmente. Em junho, Fraga Filho acionou os dois profissionais na Justiça e pediu indenização por danos morais, sob alegações de fraude processual, assistência técnica fraudulenta, litigância opressiva e abuso de direito. Ele apresentou ainda representações à Ordem dos Advogados do Brasil e ao Conselho Regional de Psicologia, que mantêm apurações em andamento.

Relatos sobre dízimo e controle da comunidade
O advogado e contador Everton Alexandri, que ingressou na igreja aos sete anos por influência da família, afirmou que a instituição usa uma estratégia de atenção intensa para atrair pessoas emocionalmente vulneráveis. Segundo ele, o processo entre a aproximação e o batismo ocorre rapidamente. “É tudo muito rápido, para a pessoa não ter tempo de pensar”, declarou.
Alexandri relatou que cada integrante precisa entregar 10% da renda bruta mensal como dízimo e que a falta de pagamento impede o acesso aos templos. Ele afirmou que a igreja orienta o fiel a pagar essa contribuição antes das outras despesas. “É uma prova de fé que você dá para o grupo. Então eles te estorquem e dizem que você está devolvendo para Deus”, criticou.
O advogado também descreveu pressão para que membros se afastem de dissidentes e de pessoas externas à religião. Segundo ele, sua mãe enfrentou um comitê disciplinar após deixar a instituição e retornar posteriormente. Alexandri acrescentou que a igreja não concede o sacerdócio às mulheres e afirmou que pessoas negras só passaram a ocupá-lo na década de 1970.
A pesquisadora Vania Moore, brasileira radicada em Salt Lake City, nos Estados Unidos, associa as práticas ao modelo BITE, formulado pelo especialista em seitas Steven Hassan. O método descreve formas de controle sobre comportamento, informação, pensamento e emoção. “Você não é livre para pensar, você não é livre para escolher, você faz o que eles mandam você fazer. Eles falam que é o chamado de Deus”, afirmou Vania.