Não existe “deepfake do bem”, diz Carmén Lúcia ao rejeitar vídeos de IA nas eleições

Cármen Lúcia gesticula enquanto fala com microfone de lapela
Cármen Lúcia fala com microfone de lapela e gesticula diante de um painel colorido. Foto: Reprodução

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia rejeitou a tese de que possa existir um “deepfake do bem” e afirmou que vídeos criados por inteligência artificial podem alterar o comportamento do eleitor mesmo quando recebem autorização da pessoa retratada. Ela abordou o tema em entrevista ao podcast “A Máquina”, do Café da Manhã.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgará uma ação do PT contra um vídeo de inteligência artificial no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro manifesta apoio ao candidato Flávio Bolsonaro. A convenção do PL exibiu a peça, e a defesa de Flávio argumenta que não houve má intenção. Sem opinar diretamente sobre o processo, Cármen afirmou: “Isto é falso, foi criado por uma máquina para passar uma mensagem”.

Relatora da resolução de 2024 do TSE que proibiu deepfakes nas eleições, a ministra sustentou que a autorização para usar imagem e voz não transforma a simulação em um acontecimento verdadeiro. “No deepfake, mesmo positivo, é falso, porque você não está dizendo aquilo”, disse. Para ela, o conteúdo permanece artificial ainda que reproduza uma mensagem aceita pela pessoa imitada.

Cármen comparou esses vídeos à fotografia de Tancredo Neves sentado em uma poltrona e cercado por médicos no hospital de Brasília, em março de 1985. A imagem, autorizada pelo presidente eleito, buscava tranquilizar a população sobre seu estado de saúde. Tancredo morreu 27 dias depois, antes de tomar posse. “Aquilo era falso, para o povo ficar em paz. Causou algum mal? Não. Foi uma montagem? Foi. Aquilo enganou, de alguma forma”, afirmou.

Vídeo de IA de Jair Bolsonaro durante convenção de Flávio. Foto: reprodução

Regras para chatbots e confiança nas urnas

A resolução eleitoral também impede que chatbots como ChatGPT, Gemini e Claude recomendem votos ou organizem candidatos em um ranking. Cármen argumentou que esse tipo de classificação pode interferir na formação da escolha: “Não pode [ranquear], porque aí, de novo, estamos fazendo máquinas substituírem a vontade das pessoas”.

Sobre novas campanhas contra as urnas eletrônicas, a ministra disse estar menos preocupada do que em 2021 e 2022. Ela afirmou que houve uma queda na confiança no sistema, mas que o movimento perdeu força. “Ditador não gosta de povo, e quem não tem voto, não gosta de urna, nem de eleição”, declarou.

Interferência externa e código de ética do STF

Ao tratar de possíveis tentativas estrangeiras de influenciar a eleição, Cármen citou o princípio constitucional da independência dos povos e observou que o Brasil possui um eleitorado de quase 158 milhões de pessoas. Segundo a ministra, interferências externas podem produzir efeito contrário entre brasileiros que já enfrentaram períodos antidemocráticos e restrições ao direito de voto.

A ministra também comentou a desaprovação de 40% ao STF registrada pelo Datafolha em maio e defendeu que o Judiciário identifique as causas da desconfiança. Cármen relata a elaboração do código de ética solicitado pelo presidente da Corte, Edson Fachin, para reunir regras aplicáveis aos ministros e explicitar que eles se submetem à lei. Ela deve entregar um rascunho depois da eleição.

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