“Nem chinês, nem americano é melhor do que nós”, afirma Lula ao anunciar supercomputador no RN

Equipamento será instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, terá investimento de R$ 1,6 bilhão e deverá colocar o Brasil entre os dez países com maior capacidade de processamento para inteligência artificial

Da Redação

O Presidente Lula anunciou a instalação de um supercomputador no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, no Rio Grande do Norte. A infraestrutura será destinada ao processamento de dados, ao desenvolvimento de inteligência artificial e ao apoio a pesquisas científicas, com aplicações previstas em áreas como saúde, agricultura, previsão climática, indústria e serviços públicos.

As informações foram apresentadas durante visita de Lula ao parque tecnológico, em cerimônia transmitida pelo canal oficial do governo federal no YouTube. O evento reuniu a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, as ministras Luciana Santos, Esther Dweck e Miriam Belchior, além de representantes de universidades, instituições de pesquisa e empresas públicas.

Durante a cerimônia, foi assinado um acordo de cooperação técnica para a implantação e a operação da infraestrutura de computação de alto desempenho. Participam do projeto o Governo do Rio Grande do Norte, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo e o Laboratório Nacional de Computação Científica.

A previsão é que o empreendimento receba aproximadamente R$ 1,6 bilhão. Segundo a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, o edital para a contratação do equipamento foi preparado pelo Laboratório Nacional de Computação Científica e integra uma das rotas tecnológicas definidas pelo Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.

O governo afirma que a capacidade prevista poderá colocar o Brasil entre os dez países com maior poder de processamento voltado à inteligência artificial. Além da aquisição da máquina, o projeto estabelece obrigações relacionadas à formação profissional, transferência de tecnologia, desenvolvimento de fornecedores nacionais e integração com universidades, empresas e centros de pesquisa.

Lula defende oportunidades para pesquisadores brasileiros

Em seu discurso, Lula relacionou o investimento à necessidade de oferecer condições para que cientistas, estudantes e profissionais de tecnologia possam trabalhar no Brasil. O presidente afirmou que a falta de infraestrutura e de oportunidades tem levado brasileiros qualificados a buscar trabalho em outros países.

“Nós estamos fazendo isso aqui para que vocês não saiam do Brasil. Vocês prestem serviço no Brasil, ganhem dinheiro aqui no Brasil. A oportunidade para vocês está aqui no Brasil”, declarou.

Ao tratar da disputa internacional pela inteligência artificial, Lula sustentou que o Brasil não deve aceitar uma posição secundária. Ele reconheceu a concentração tecnológica existente nos Estados Unidos e na China, mas afirmou que pesquisadores e estudantes brasileiros podem competir quando encontram condições adequadas.

“Nem chinês, nem americano é melhor do que nós. Nós vamos entrar nesse mercado. Nós vamos provar que os brasileiros, que os nossos acadêmicos e que a nossa juventude não devem nada a ninguém. Eles só precisam de oportunidade”, disse.

O presidente também destacou a necessidade de ampliar a formação em áreas científicas e tecnológicas. Segundo ele, o país precisa de mais engenheiros, matemáticos e profissionais capacitados para atuar na economia digital.

“Nós queremos dizer para a juventude brasileira o seguinte: nós queremos que vocês tenham a oportunidade que o pai de vocês não teve. Nós queremos que vocês tenham a oportunidade que a minha geração não teve, porque são vocês que vão construir esse país”, afirmou.

Equipamento poderá apoiar o SUS e a pesquisa de medicamentos

Luciana Santos explicou que a supercomputação permitirá analisar grandes quantidades de informações em períodos muito menores do que os exigidos pelos métodos tradicionais. A estrutura poderá ser empregada na descoberta de medicamentos, no desenvolvimento de vacinas, no estudo de doenças raras e na criação de materiais industriais.

Na área da saúde, o equipamento deverá apoiar pesquisas que envolvam a interação de milhões de moléculas com proteínas do organismo humano. Segundo a ministra, estudos que atualmente consomem anos poderão ser acelerados com o auxílio da inteligência artificial.

“Em vez de décadas de pesquisa, podemos analisar enormes quantidades de informações em muito menos tempo, e o benefício chegará à população em novos medicamentos, tratamento de doenças raras e materiais mais eficientes”, afirmou.

A infraestrutura também poderá ser utilizada para antecipar períodos de chuva e seca, aprimorar a produção agrícola, elevar a produtividade industrial e desenvolver soluções para o Sistema Único de Saúde. O processamento deverá permanecer em território nacional, reduzindo a necessidade de enviar dados estratégicos para estruturas localizadas no exterior.

“O supercomputador não serve apenas para fazer conta mais rápido. Ele serve para transformar problemas que levariam décadas para resolver em soluções para o dia a dia”, explicou Luciana Santos.

Governo diz que 60% do processamento ocorre fora do país

A ministra afirmou que cerca de 60% do processamento relacionado à inteligência brasileira é realizado fora do território nacional. Para o governo, essa dependência limita a capacidade de desenvolver modelos próprios de inteligência artificial e amplia os riscos envolvendo informações estratégicas.

Luciana citou como exemplos os dados do SUS, da Embrapa, do Instituto Butantan, da Fundação Oswaldo Cruz, das universidades, da Receita Federal e dos sistemas públicos digitais. Esses bancos de informações, segundo ela, possuem valor científico, econômico e estratégico.

“Não falta inteligência real. Falta capacidade computacional para a gente pegar essa inteligência e colocar a serviço da nossa gente”, declarou.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de R$ 23 bilhões. De acordo com a ministra, 64% desse montante já havia sido executado desde 2024. O programa contempla empresas, startups, universidades, centros de pesquisa e órgãos governamentais, com exigências de formação de profissionais nos projetos financiados.

“Isso aqui é soberania digital brasileira. O Brasil se insere nesse novo mundo não apenas como usuário, mas com a possibilidade de desenvolver suas próprias tecnologias”, disse Luciana.

Projeto prevê integração com centros do Nordeste

Embora seja instalado no Rio Grande do Norte, o supercomputador deverá atender pesquisadores e instituições de todo o país. No Nordeste, a proposta prevê integração com o Porto Digital, em Pernambuco, universidades federais, empresas de tecnologia, parques científicos e projetos de computação quântica desenvolvidos na Paraíba.

A escolha do Rio Grande do Norte foi atribuída à disponibilidade de energia renovável, à infraestrutura de conectividade e à proximidade de universidades e centros de pesquisa. Supercomputadores exigem grande quantidade de eletricidade para funcionar e também para manter seus sistemas de refrigeração.

O estado responde por parcela expressiva da geração eólica brasileira e possui condições favoráveis para a expansão da energia solar. Essa capacidade foi apresentada como uma vantagem para associar o crescimento da inteligência artificial a uma matriz energética de menor impacto ambiental.

Presidente do Conselho de Administração do Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, Ângela Maria Paiva Cruz afirmou que a instalação reconhece a capacidade científica construída pelo Rio Grande do Norte.

“A instalação do supercomputador no Rio Grande do Norte contribui para reduzir as desigualdades regionais e demonstra que a ciência brasileira se fortalece quando alcança diferentes territórios, mobiliza talentos e transforma conhecimento em oportunidades”, declarou.

Segundo ela, o equipamento deverá atrair investimentos, pesquisadores e empresas, além de ampliar a qualificação profissional e apoiar uma indústria nacional mais inovadora.

Estado também terá projeto de nuvem nacional

Durante a cerimônia, foi assinado outro acordo de cooperação, desta vez para preparar uma solução brasileira de computação em nuvem. A iniciativa reúne o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e o Serviço Federal de Processamento de Dados.

A ministra Esther Dweck explicou que a proposta pretende desenvolver capacidade nacional para operar serviços de nuvem, hoje concentrados em poucas companhias estrangeiras. O governo já iniciou um processo de transferência de dados públicos para estruturas instaladas no Brasil, mas ainda depende de tecnologias fornecidas por empresas internacionais.

“A gente quer criar uma capacidade nacional de fazer o serviço de nuvem e ter uma nuvem brasileira soberana”, afirmou.

De acordo com a ministra, a instalação física dos servidores em empresas públicas representou uma primeira etapa. O objetivo seguinte é assegurar que organizações brasileiras também tenham condições de oferecer os sistemas responsáveis pela operação desses ambientes.

Esther informou que o governo abrirá uma consulta para identificar empresas e startups brasileiras capazes de participar do desenvolvimento da solução. O poder de compra do Estado deverá ser utilizado para garantir demanda e estimular investimentos privados em uma tecnologia de alto custo.

Desenvolvimento tecnológico e redução das desigualdades

Miriam Belchior afirmou que os investimentos fazem parte de uma política mais ampla de desenvolvimento econômico. Para a ministra, o controle tecnológico tornou-se decisivo em um cenário no qual dados produzidos por compras, aplicativos de transporte e plataformas digitais geram valor que frequentemente é transferido para empresas estrangeiras.

“Nós vamos para a lógica extrativista ou vamos escolher ter solução própria? O governo está escolhendo o caminho da soberania, com parceiros, mas com a direção definida pelo Brasil”, declarou.

A ministra também ressaltou que a expansão tecnológica deve chegar a diferentes regiões. A localização do supercomputador no Rio Grande do Norte busca evitar que a economia digital reproduza a concentração de investimentos, infraestrutura e empregos especializados observada em outros setores.

Essa preocupação também apareceu no discurso do Presidente Lula. Ele recordou que indicadores de analfabetismo, mortalidade infantil, desnutrição e acesso ao ensino superior atingiram historicamente o Nordeste com maior intensidade. Para ele, a distribuição dos investimentos públicos exige decisões capazes de compensar desigualdades acumuladas.

“Não era justo que tudo fosse para a parte que já tinha mais infraestrutura, mais mão de obra qualificada e mais poder de compra. Era necessário dar oportunidade às outras regiões de ficarem iguais às melhores regiões que a gente tinha”, afirmou.

Segundo Lula, o Estado precisa participar da escolha dos locais que receberão recursos estratégicos. “Se o Estado não tomar decisão, sempre o mesmo lugar ganhará todas as oportunidades”, acrescentou.

Fátima Bezerra destaca capacidade científica do Rio Grande do Norte

A governadora Fátima Bezerra afirmou que a instalação coloca o Rio Grande do Norte no centro da produção de conhecimento tecnológico. Ela lembrou que a estruturação do Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo começou em 2019, por meio de uma cooperação entre o governo estadual, universidades e representantes do setor produtivo.

“Esse supercomputador não representa apenas capacidade de processamento. Representa soberania tecnológica, capacidade científica e segurança nacional no processamento de dados e informações estratégicas para o nosso país”, declarou.

Fátima também destacou as oportunidades para estudantes, pesquisadores, empreendedores e profissionais que iniciam carreira no setor. Segundo ela, o projeto poderá favorecer a criação de empresas, empregos especializados, pesquisas e soluções desenvolvidas no próprio estado.

A governadora atribuiu a escolha do Rio Grande do Norte às condições técnicas apresentadas pelo parque, à presença de instituições de ensino e pesquisa e à oferta de energia limpa. Para Fátima, a decisão permite que jovens permaneçam no estado e encontrem espaço para desenvolver sua formação.

“Eles não precisam sair da sua terra. Aqui mesmo vão desenvolver o talento e a inteligência deles”, afirmou.

Lula reconheceu o trabalho da governadora e disse que a chegada do equipamento representa uma homenagem à sua gestão e à população potiguar. O presidente ainda defendeu a participação das mulheres nos espaços políticos e profissionais historicamente ocupados por homens.

Congresso promete votar marco da inteligência artificial

O presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que o Congresso pretende concluir até o fim do ano a votação do marco legal da inteligência artificial. Segundo ele, a legislação deverá tratar tanto da responsabilização por usos criminosos quanto das regras para o desenvolvimento da tecnologia.

Motta disse que o Parlamento também tem atuado em temas relacionados à infraestrutura digital, citando a política de minerais críticos, o regime tributário para centros de dados e a proteção de crianças e adolescentes nas plataformas.

Para o deputado, o Nordeste reúne condições para ampliar sua participação na economia digital por causa da produção científica, da infraestrutura de conexão e da disponibilidade de energia renovável. Ele mencionou Fortaleza como ponto relevante para a entrada de cabos submarinos internacionais e destacou os polos tecnológicos de Recife, Campina Grande e Macaíba.

“Podemos ser mais que consumidores de tecnologia. Precisamos participar da construção desse novo tempo, com talento brasileiro, segurança jurídica e compromisso com a democracia”, declarou.

Ciência como parte de um projeto nacional

Ao encerrar a cerimônia, Lula inseriu o investimento em supercomputação em uma estratégia que reúne educação, ciência, defesa e desenvolvimento econômico. O presidente afirmou que o país precisa ampliar sua autonomia sem rejeitar a cooperação internacional.

“Se a gente quiser ter soberania, tem que ter conhecimento científico e tecnológico, produtividade e competência”, disse.

Lula também associou o projeto à ampliação das universidades e dos institutos federais. Segundo ele, o aumento do número de brasileiros com diploma universitário precisa ser acompanhado pela criação de empregos e estruturas que aproveitem essa qualificação.

“A gente quer deixar de ser um país subdesenvolvido ou em via de desenvolvimento para ser um país desenvolvido em todas as áreas. A gente tem condições para isso”, afirmou.

O supercomputador de Macaíba será um dos principais investimentos do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. A expectativa anunciada pelo governo é que a nova infraestrutura amplie a capacidade nacional de pesquisa, proteja informações estratégicas e permita que universidades, órgãos públicos e empresas desenvolvam tecnologias dentro do Brasil.

Artigo Anterior

Governo da Venezuela deixa libertação de Maduro fora de negociações com a oposição

Próximo Artigo

Não queremos interferência no Brasil, diz Lula em BH

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!