Delegado suspeito de vender dados a contrabandistas recebeu R$ 770 mil, diz PF

José Navas Júnior
O delegado da PF, José Navas Júnior. Foto: Reprodução/Redes Sociais

A Polícia Federal cruzou 60 transferências recebidas pelo delegado José Navas Júnior com acessos suspeitos a inquéritos sigilosos. A hipótese investigada é que informações internas tenham sido repassadas a empresários ligados ao contrabando de cigarros em troca de vantagens financeiras.

Os detalhes constam de documentos da Operação Sinon obtidos pelo Estadão. Entre 2022 e 2025, o empresário Luis Gustavo Tenuta Araujo, ex-sócio do delegado, transferiu R$ 770.806,99 para contas de Navas. A corporação investiga a origem dos valores e sua possível relação com o vazamento de dados.

Navas e Tenuta tiveram participações de 35% na Fórmula de Treinamento Serviços Educacionais Ltda., encerrada formalmente em abril de 2023. Um diagrama incorporado à investigação reúne vínculos societários e operações financeiras envolvendo o delegado, sua mulher, antigos sócios e diferentes empresas. A existência dessas relações, isoladamente, não comprova atividade criminosa.

A apuração começou após uma denúncia anônima indicar que uma quadrilha havia recebido informações antecipadas sobre uma ação da PF realizada em Serra, no Espírito Santo, em agosto de 2023. A operação fechou uma fábrica clandestina de cigarros onde foram encontrados trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Outro episódio ocorreu em 14 de novembro de 2023, data da Operação Illusio. Navas fez 13 pesquisas no ePol pelos termos “illusio”, “ilusio” e “operação ilusio”. Sete consultas ocorreram antes das 6h, a primeira às 2h26. Segundo os investigadores, o delegado não integrava a equipe responsável nem tinha acesso autorizado ao inquérito.

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Diagrama da investigação da PF reúne vínculos societários, financeiros e pessoais de José Navas Júnior com pessoas e empresas analisadas na Operação Sinon. Foto: Reprodução/Estadão

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras reúne 65 comunicações e 35 operações consideradas suspeitas envolvendo o delegado e empresários investigados. A análise aponta depósitos em espécie sem origem esclarecida, valores acima do perfil econômico declarado e possíveis operações fracionadas. Ilka dos Santos Alvares, mulher de Navas, recebeu R$ 134.487,99 em 101 transferências interbancárias, movimentações que também estão sob apuração.

A PF pediu a prisão do delegado, mas o juiz Alexandre Sormani, da 1ª Vara Federal de Marília, rejeitou a medida. Navas foi afastado por 120 dias, teve as credenciais bloqueadas e precisou entregar a arma funcional e os passaportes. A Justiça também limitou o bloqueio de seus bens a R$ 248.138,99 e o de Tenuta a R$ 635.260. Durante a operação, foram apreendidos R$ 358 mil em espécie.

Navas não respondeu ao pedido de manifestação do Estadão. A investigação apura, em tese, violação de sigilo funcional, corrupção passiva e ativa, associação criminosa e embaraço à investigação de organização criminosa. Os fatos ainda não foram julgados e não há condenação dos envolvidos.

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