As mulheres representam 34,9% das candidaturas registradas para as eleições de 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O percentual é o maior da série histórica iniciada em 1998, mas o avanço ainda está longe de se traduzir em representação equivalente no Congresso. Em 2022, quando as candidaturas femininas chegaram a 33,8%, as mulheres ocuparam 17,7% das cadeiras da Câmara dos Deputados. A eleição deste ano ainda definirá se essa distância será reduzida.
A trajetória dos últimos quase 30 anos revela uma mudança importante, mas também expõe os limites desse processo. Em 1998, as mulheres correspondiam a 12,5% das candidaturas. O índice passou para 14,3% em 2002 e 14,5% em 2006, antes de saltar para 22,4% em 2010. Em 2014, chegou a 31,1%; depois, avançou lentamente para 31,6% em 2018, 33,8% em 2022 e, agora, 34,9%.
Políticas de emancipação ampliam o espaço das mulheres
Um marco importante dessa trajetória veio em 2009, quando uma mudança na legislação eleitoral passou a obrigar os partidos a preencher pelo menos 30% de suas candidaturas com mulheres. Na eleição seguinte, em 2010, a participação feminina saltou de 14,5% para 22,4%. Para a secretária nacional de Mulheres do PCdoB, Flávia Calé, a alteração ajuda a explicar o salto: “Essa é uma lei de 2009 que impacta esse crescimento em 2010”, avaliou.
Mas a dirigente relaciona esse avanço também a mudanças nas condições de vida das mulheres a partir das políticas de Estado implementadas nos governos Lula. Ela cita o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, a ampliação da participação feminina no mercado de trabalho, a valorização salarial, a conquista de direitos pelas trabalhadoras domésticas e a expansão do acesso à educação e ao ensino superior.
Na avaliação de Flávia, esse conjunto de medidas ampliou as condições para que as mulheres conquistassem maior autonomia e ocupassem novos espaços na sociedade. “Isso tudo são medidas que foram garantindo às mulheres melhores condições”, afirmou. Ela também relaciona o avanço educacional a mudanças mais amplas: “O aumento da escolaridade também das mulheres, o maior ingresso e participação na educação, então no ensino superior, fez com que tivéssemos mudanças estruturais na sociedade brasileira.”
É a partir dessa perspectiva que ela associa as transformações sociais à participação política. “Então isso tem correlação direta com políticas públicas voltadas à emancipação das mulheres”, disse.
Da candidatura à cadeira no Parlamento
O crescimento das candidaturas, porém, não se converteu na mesma proporção em assentos no Parlamento. A série histórica das eleições para a Câmara mostra que as mulheres eram 5,6% dos deputados federais eleitos em 1998, com 29 cadeiras. Em 2002, passaram a 42 deputadas, ou 8,2% da Casa. O número chegou a 45 em 2006 e permaneceu em 8,8% em 2010.
Em 2014, foram 51 deputadas, equivalentes a 9,9% da Câmara. O salto mais significativo veio em 2018, quando 77 mulheres foram eleitas, elevando a participação feminina para 15% das cadeiras. Em 2022, o número chegou a 91 deputadas, ou 17,7% do Parlamento.
O contraste ajuda a dimensionar o desafio colocado para 2026: embora as mulheres já representem mais de um terço das candidaturas, ainda não alcançaram nem um quinto da Câmara.
Para Flávia, o avanço não deve se limitar ao aumento das candidaturas. O objetivo é que a presença das mulheres entre as eleitas também se aproxime de sua participação na sociedade. “O ideal é que a gente chegue nesses 52%, não só de candidaturas registradas, mas também de mulheres eleitas”, afirmou
A desigualdade aparece ainda mais quando se observa quem ocupa os principais cargos em disputa. Nas eleições deste ano, as mulheres representam 42,6% das candidaturas a vice-governador, mas apenas 16,8% das candidaturas a governador. Na disputa pela Presidência, são apenas duas mulheres entre os 13 nomes registrados.
A distância entre estar na lista de candidatos e chegar ao Parlamento coloca em primeiro plano uma questão que vai além da quantidade de mulheres lançadas pelos partidos: quais delas recebem estrutura, recursos e condições efetivas para transformar a candidatura em mandato.
No PCdoB, mulheres ocupam mais espaço na estratégia eleitoral
É nesse ponto que Flávia apresenta a experiência do PCdoB como exemplo de uma política partidária voltada à ampliação da presença feminina. Segundo ela, 44,5% das candidaturas registradas pelo partido em 2026 são de mulheres.
A estratégia, afirma, não se limita ao cumprimento da cota eleitoral. Envolve formação política, renovação dos quadros e projeção de novas lideranças. A dirigente cita candidaturas como as de Giovana Mondardo, em Santa Catarina; Olívia Santana, na Bahia; Jô Oliveira, na Paraíba; e Lívia Macedo, em Minas Gerais, além de nomes com trajetória consolidada, como Perpétua Almeida, Jandira Feghali e Alice Portugal.
“Não só lançar candidatas mulheres, mas eleger mulheres”, resumiu Flávia.
A preocupação com a renovação aparece associada a uma trajetória que, segundo ela, já garantiu às mulheres presença expressiva nas bancadas do partido. O desafio agora é combinar essa experiência com a formação de novas lideranças capazes de disputar e ocupar espaços no Congresso.
“Temos também um processo de renovação política entre mulheres que é uma preciosidade e um grande esforço do PCdoB: não só lançar candidatas mulheres, mas eleger mulheres e, nesse processo, projetar novas lideranças femininas no país”, afirmou.
Financiamento como estratégia para ampliar a representação
A estratégia se estende ao financiamento eleitoral. Para as eleições deste ano, o PCdoB estabeleceu critérios próprios para a distribuição do Fundo Eleitoral, de modo que a parcela destinada às candidaturas femininas acompanhe a proporção de mulheres entre as candidaturas do partido, respeitado o mínimo legal de 30%.
Na avaliação de Flávia, a distribuição dos recursos acompanha a presença construída pelas mulheres dentro da legenda e contempla candidaturas com possibilidade concreta de eleição. “O fundo eleitoral acaba expressando também essa grande proporção de mulheres”, afirmou.
A questão do financiamento é central porque a presença formal nas listas não garante, por si só, uma disputa em condições equivalentes. Recursos, estrutura de campanha e tempo de exposição interferem diretamente na capacidade de uma candidatura alcançar o eleitorado e transformar presença eleitoral em representação parlamentar.
Quando a política também se torna um lugar de medo
Se ampliar candidaturas e garantir recursos são condições para aumentar a presença feminina, Flávia aponta outro obstáculo decisivo: a violência política de gênero.
A dirigente relaciona ameaças, intimidação e ataques nas redes sociais a um ambiente que pode afastar mulheres da disputa eleitoral e pressionar aquelas que já ocupam espaços de poder. As agressões, afirma, podem atingir também familiares e produzir efeitos sobre a saúde mental de quem decide entrar na política.
“Ela é um fator que tem como horizonte amedrontar mulheres, fazer com que o espaço da política não seja seguro e que intimide a participação feminina.”
Flávia amplia o problema para além dos ataques direcionados às candidatas. Ela relaciona a violência política à violência contra as mulheres nas redes, à violência doméstica e ao feminicídio e chama atenção para o ambiente de ameaças que pode se formar em torno de mulheres que ocupam posições públicas.
Nas redes sociais, ela também aponta a atuação de setores da extrema direita e a tentativa, segundo sua avaliação, de transformar o ódio contra as mulheres em instrumento político. Para a dirigente, conter esse processo é indispensável para que a participação feminina avance.
“Então é acabar com a violência contra as mulheres de todas as ordens”, afirmou. “Isso aqui é uma coisa fundamental para a gente avançar.”
O enfrentamento da violência, porém, não aparece isolado de outras mudanças necessárias. Flávia defende também medidas de emancipação econômica, igualdade salarial, valorização do trabalho feminino e ampliação dos direitos relacionados ao trabalho reprodutivo, como licença-maternidade remunerada e garantia de emprego após o retorno.
A eleição de 2026 recoloca, assim, uma questão que vai além da quantidade de mulheres inscritas na disputa. O salto de 12,5% para 34,9% das candidaturas em quase três décadas mostra que houve avanço, mas os 17,7% de cadeiras ocupadas por mulheres na Câmara em 2022 revelam o tamanho do caminho que ainda separa presença eleitoral de poder político.
Para que essa distância diminua, a disputa não termina no registro da candidatura. Passa pelas condições materiais que permitem às mulheres participar, pelo acesso efetivo aos recursos de campanha, pela construção de lideranças e, cada vez mais, pela capacidade de enfrentar a violência que tenta mantê-las fora da política.