A guerra de agressão imperialista iniciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã já provoca uma perda de ao menos US$650 bilhões para a economia mundial em 2026, valor equivalente a todo o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina.
A estimativa é da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), que prevê que os efeitos do conflito continuarão afetando o crescimento global em 2027.
Cinco meses depois do início da guerra, a conta da decisão de Washington aparece no crescimento, na inflação e nos preços da energia em diferentes partes do mundo.
A BDI calcula que o conflito retirou pelo menos 0,5 ponto percentual do crescimento mundial somente neste ano. No cenário mais negativo considerado pela entidade, a perda chega a 0,75 ponto percentual. Meio ponto percentual de crescimento corresponde a cerca de US$ 650 bilhões, segundo a federação.
Sem a guerra, a recuperação da demanda e o aumento dos investimentos em inteligência artificial levariam a economia mundial a crescer entre 3,3% e 3,4% em 2026, acima dos 3,2% registrados no ano passado. Com o conflito, a BDI projeta expansão de apenas 3%.
O relatório classifica o impacto econômico da guerra como um “choque estagflacionário”, combinação de crescimento mais fraco com inflação mais elevada. O conflito deve acrescentar mais de um ponto percentual à inflação mundial, levando a alta dos preços para mais de 4,5% neste ano.
A BDI afirma que as expectativas de recuperação da economia mundial existentes no início do ano sofreram um forte revés em fevereiro, justamente com o começo da guerra. Desde então, o conflito passou a frear o comércio mundial e a produção industrial e a reduzir investimentos e consumo.
Petróleo e gás
A alta dos preços do petróleo e do gás está entre os principais impactos da guerra sobre a economia mundial.
Os ataques, os danos à infraestrutura e as restrições às rotas marítimas afetaram a produção e o transporte de petróleo e gás, com o Estreito de Ormuz no centro das incertezas.
A própria projeção de crescimento mundial de 3% feita pela BDI depende de uma estabilização da situação no estreito. Se a guerra continuar e a passagem por Ormuz sofrer novas restrições, a entidade alerta que o crescimento será consideravelmente menor.
Entre o início de março e o começo de junho, o petróleo chegou a ser negociado entre 25% e 60% acima dos preços anteriores à guerra.
Para o conjunto de 2026, as cotações ficaram mais de 50% acima do que era esperado no ano passado. No gás, os preços chegaram a superar em 60% as projeções para este ano. Diesel e querosene ficaram entre 60% e 120% mais caros do que o previsto.
Uma disparada ainda maior só foi evitada pela redução dos estoques comerciais e pela liberação de cerca de 300 milhões de barris das reservas estratégicas.
Mesmo assim, a BDI estima que a produção mundial de petróleo permaneça cerca de 10% abaixo da necessária, déficit equivalente a aproximadamente 15 milhões de barris por dia. No gás natural liquefeito (GNL), a diferença chega a 15%.
A alta da energia espalhou o custo da guerra muito além dos países diretamente envolvidos no conflito.
Combustíveis ficaram particularmente mais caros nos países do Sudeste Asiático, seguidos por Europa e Estados Unidos. No mercado de gás, os preços subiram cerca de 10% nos EUA, 25% na Europa e 50% na Ásia.
Os efeitos também chegaram à produção industrial. Depois de crescer mais de 3% nos dois primeiros meses de 2026, a indústria mundial desacelerou para 1,1% em março, 1,3% em abril e 1% em maio na comparação anual. Na África e no Oriente Médio, a produção industrial caiu 9,8% sob o impacto da guerra.
O comércio internacional também perdeu força. A BDI aponta que a guerra atingiu diretamente rotas comerciais, fluxos de mercadorias e transportes marítimo e aéreo, além de reduzir a demanda. Organizações econômicas internacionais passaram a projetar desaceleração do crescimento do comércio mundial de cerca de 5% para pouco mais de 3% em 2026.
Conta da guerra continua em 2027
O impacto econômico da decisão de Trump não deve terminar com 2026. A BDI afirma que o crescimento mundial no próximo ano também será inferior ao que seria registrado sem a guerra.
Além das interrupções na produção e no fornecimento de petróleo, gás e derivados, a alta da energia reduziu o poder de compra nos países importadores. Juros e rendimentos dos títulos mais elevados também pesam sobre consumidores e investimentos.
A inflação mundial, que havia recuado desde o início de 2024, voltou a subir com o choque nos preços da energia e das commodities. O Fundo Monetário Internacional (FMI), citado pela BDI, projeta inflação global de 4,7% em 2026, contra 4,1% em 2025. A taxa deve recuar para 3,9% em 2027.
A guerra também pressiona as contas públicas. Segundo o relatório, o conflito deve elevar os déficits orçamentários globais em cerca de 0,25 ponto percentual neste ano, resultado da desaceleração econômica e dos gastos extraordinários relacionados à energia. As medidas adotadas pelos governos para conter o impacto da alta dos preços já correspondem a aproximadamente 0,1% do PIB mundial.