
Por Clarissa Londero
Do Brasil de Fato
O Festival do Trabalhador e da Trabalhadora, marcado para o 1º de Maio, se aproxima, e nossa reportagem buscou entender com os agricultores e líderes do campo quais seriam as reivindicações dessa categoria caso a atenção se voltasse prioritariamente para os trabalhadores rurais. Para os/as entrevistados/as, muitas das dificuldades enfrentadas por quem atua na agricultura familiar decorrem do esquecimento e da invisibilidade dessas pessoas, bem como dos direitos relacionados à terra.
Sebastião Pinheiro é agrônomo e militante de movimentos sociais no campo há mais de 50 anos. Ele já atuou em diversos locais do mundo para capacitação de agricultores e, segundo ele, apenas dois países abordam a legislação trabalhista sob a perspectiva rural e da agricultura: México e China. Contudo, conforme o agrônomo, a cultura do trabalho no campo no Brasil é influenciada por uma visão eurocêntrica e colonial, herdando raízes feudais em que “a terra pertencia ao nobre e o agricultor vivia em servidão”.
De acordo com ele, há uma ocultação do trabalho do agricultor pelo capital. “Devido à terra, ao clima, à dependência da natureza, ele [o agricultor] exerce uma função que vai além da econômica. É ele quem alimenta a humanidade, e não a indústria de alimentos, como se costuma afirmar. Todos os produtos, sejam eles carne, alface ou milho, precisam da transformação do sol no solo através do esforço e da organização do trabalho árduo que o agricultor realiza. Precisamos que todos compreendam o que é o alimento e quem realmente o produz.”

Além das questões políticas e econômicas, existe um estigma social que invisibiliza e marginaliza o agricultor. Muitas vezes vistos como ignorantes e com pouca educação, os camponeses não conseguem encontrar espaço para se expressar na sociedade. Para Leia Chitto, camponesa e integrante da direção estadual do Movimento das Pequenas e Pequenos Agricultores (MPA), a situação do campo está empobrecida, envelhecida e esquecida, o que agrava ainda mais a migração dos jovens para as cidades em busca de melhores oportunidades.
Segundo ela, a realidade atual do campo gera uma perda de autoestima, “um fenômeno que é bastante visível aqui nas comunidades e nos territórios, especialmente entre as mulheres. Quando se perde a autoestima, a vontade de produzir, organizar a propriedade ou participar de qualquer atividade se esvai”.
Quando questionada sobre como reverter essa realidade, Leia enfatiza a necessidade de políticas públicas voltadas ao pequeno agricultor, que podem ter um grande impacto no campo. “Programas de incentivo, acesso e também divulgação da importância e do valor do trabalho da agricultura familiar poderiam aumentar a visibilidade e reconhecimento dessas pessoas e suas produções”, destaca a liderança do MPA. “O poder público deve começar a agir no município, lembrando que é necessário criar acessos, estradas e garantir água. Sem esses recursos, o agricultor não terá estímulo para produzir”, complementa.

Por outro lado, as demandas trazidas pelos sindicatos urbanos também impactam o trabalhador rural e estão ligadas aos direitos defendidos pelos movimentos rurais. Lara Rodrigues, integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirma que “nos contemplamos mutuamente, pois estamos interligados. Hoje somos trabalhadores rurais, mas nem sempre nossos filhos ou familiares também o são. Assim, estamos unidos nessas reivindicações, especialmente na redução da jornada de trabalho. Quando a privatização dos órgãos públicos é discutida, o trabalhador e a trabalhadora rural também estão incluídos, pois compreendemos o impacto que a privatização pode ter, especialmente no sistema de saúde.”
Jornadas de trabalho do camponês
Uma das principais reivindicações do movimento sindical no 1º de Maio é a respeito das jornadas de trabalho. A escala 6×1, por exemplo, está na pauta que requer a redução da jornada. No entanto, para o trabalhador rural, essa jornada sempre foi de 7×0 e por toda a vida, como afirma Lara Rodrigues. “Sabemos que o trabalho na agricultura começa muito cedo, pois está intimamente ligado à estrutura familiar.”
Sebastião Pinheiro retrata a realidade social com base em suas experiências com famílias agricultoras, afirmando que “o agricultor trabalha 365 dias por ano, sem folga, a vida toda. Ele trabalha 24 horas desde os 5 anos até a morte. Isso envolve crianças, homens, mulheres e idosos”.
Assim, as lideranças dos movimentos rurais solicitam melhorias nas condições de trabalho, uma vez que as jornadas são longas no campo. O acesso a crédito para implementos e maquinários pode facilitar a vida do agricultor e tornar suas jornadas de trabalho mais leves. Por exemplo, “um motor para bombear água que elimine a necessidade de buscar água, ou uma irrigação que dispense a necessidade de molhar manualmente as verduras”, explica Leia Chitto.

A liderança do MST, Lara Rodrigues, propõe a redução das jornadas de trabalho através do cooperativismo. Ao realizar os trabalhos no campo de maneira coletiva e cooperada, é possível alternar as escalas de cuidado com as produções. “Por exemplo, em uma localidade onde as pessoas ordenham vacas, que é uma tarefa que precisa ser feita diariamente. Um companheiro nosso diz que até no dia do seu casamento você precisa tirar leite. Com um trabalho coletivo, podemos melhorar as condições de vida, reduzindo a carga exaustiva, permitindo folgas e até viagens”, explica ela. Entre as propostas do movimento, está a construção de cadeias produtivas e o trabalho cooperativo como formas de redução das jornadas.
Feminicídio e o fortalecimento das mulheres no campo
Outra questão abordada pelo Festival do Trabalhador e da Trabalhadora é o combate ao feminicídio. Nesse sentido, as realidades urbana e rural se entrelaçam, evidenciando a necessidade de empoderar as mulheres e combater a masculinidade tóxica.
No campo, “a violência contra a mulher é uma realidade, não apenas por parte do parceiro, mas também pela comunidade e pela sociedade. Isso ocorre em todo o território, em nosso cotidiano e nas relações que estabelecemos diariamente”, ressalta Leia Chitto, uma liderança feminina em sua região. Ela observa que o aumento de políticas públicas voltadas para as mulheres tem incentivado a realização de projetos e fortalecido a autonomia delas, tanto individualmente quanto em grupo.

Com base nas experiências adquiridas no México, Sebastião Pinheiro ressalta que esse país é um exemplo de cultura social. “No México, há 10 mil anos, as mulheres possuíam uma parcela de terra que não pertencia à comunidade, sendo administrada apenas por elas para suas necessidades, sem a necessidade de pedir permissão a ninguém. Apesar das mudanças na realidade atual, essa cultura de valorização da mulher na terra ainda persiste”, destaca.
O MST, como movimento popular, também promove discussões sobre feminismo, incentivando esse debate entre os homens, como relata Lara. “Fazemos essa discussão sobre patriarcado e masculinidade tóxica. O movimento há anos realiza esses debates sobre questões de gênero e a importância da participação das mulheres. Essa é uma questão central na construção de uma nova sociedade, pois não existe uma nova sociedade sem a construção de um feminismo”, afirma a líder.

Pautas específicas do trabalhador rural
Para melhorar as condições de trabalho dos agricultores familiares, tanto o MST quanto o MPA afirmam que é essencial aumentar as políticas públicas direcionadas à produção no campo e à melhoria das condições básicas da população. Isso abrange desde financiamento para maquinários, incentivo a cooperativas, melhorias de acesso, campanhas de valorização, cuidados básicos com moradia, suporte psicológico e espaços de lazer. Apenas com políticas públicas será possível elevar a qualidade de vida do agricultor e da agricultora e fortalecer a permanência dos jovens no campo, afirmam as lideranças.
Leia Chitto destaca que a diversificação da produção é um dos pilares fundamentais para aprimorar as condições da agricultura familiar. Ao permitir que os trabalhadores rurais tenham maior variedade em suas produções, cria-se uma situação de vida em que o agricultor não depende das multinacionais e não fica tão vulnerável às catástrofes climáticas.
“Aqui [Vale do Taquari] a população depende fortemente do tabaco, e as multinacionais controlam os preços. Se ocorrer uma guerra, como a atual, o preço despenca e o agricultor se torna refém disso. Precisamos de políticas públicas que incentivem a diversificação e promovam associações e cooperativas”, complementa. Além disso, a diversificação gera mais segurança para as famílias, assim como uma maior participação de mulheres, jovens e idosos, que podem colaborar com o processamento das colheitas, produzindo geléias, compotas, pães, entre outros.

Além disso, a liderança do MPA ressalta que a política habitacional é extremamente necessária no campo, pois “muitas famílias carecem de uma casa digna para residir. Não devemos pensar que isso é apenas um problema dos centros urbanos, pois não é”, enfatiza. Assim como o campo precisa de mais formação e aprofundamento nos estudos sobre agricultura e agroecologia para atualizar os conhecimentos dos produtores, complementa.
Democracia, soberania e direitos da terra

Ao ampliarmos nossa compreensão sobre a vida do agricultor, percebemos a conexão cultural com a terra. Sebastião Pinheiro argumenta que o esquecimento do agricultor está profundamente relacionado à posse da terra e à produção de alimentos, pois “as terras mais férteis geram mais riqueza”. Ao restringir o acesso à terra pela população, não há autonomia, liberdade e muito menos visibilidade, enfatiza o agrônomo. “Tudo isso está interligado à construção da sociedade, e é a partir da dominação e exploração que se torna invisíveis as pautas essenciais para a população. Sabemos que a conexão com a terra e a valorização da terra são direitos fundamentais e essenciais para a vida”, ressalta.
O MST, que historicamente se vincula à luta pelo acesso à terra, promove esse debate desde sua criação. Lara Rodrigues afirma que “este é o nosso pilar de luta, a terra no sentido de democratização, para que seja um patrimônio da sociedade nacional, e não um recurso a ser explorado por terceiros em busca de lucro”. Segundo ela, é imprescindível que exista um programa de reforma agrária popular para que a terra não permaneça nas mãos da produção de