O Brasil possui a segunda maior taxa real de juros do mundo, com 9,51%, ficando atrás apenas da Turquia, que apresenta uma taxa real de 10,38%. O país manteve essa posição, mesmo após um leve corte na taxa Selic, que foi reduzida para 14,75% em março, marcando a primeira diminuição desde março de 2024. A taxa real é obtida subtraindo a inflação projetada para os próximos 12 meses da taxa nominal. Enquanto a Turquia (37%), Argentina (29%) e Rússia (15%) têm taxas básicas mais altas, em termos reais (considerando a inflação), o Brasil continua em segundo lugar na classificação.
É crucial compreender que a posição do Brasil em relação às altas taxas de juros reais, que perdura há bastante tempo, está relacionada à taxa básica de juros. No varejo, para as operações cotidianas, os juros praticados no Brasil são incomparavelmente altos em relação a outros países. De acordo com o Banco Central do Brasil (BCB), a taxa média total cobrada pelos bancos no rotativo do cartão de crédito atingiu, em fevereiro de 2026, 435,9% ao ano. A taxa do parcelado foi de 189,0% em dezembro de 2025. Não existe nada semelhante em outras partes do mundo. A taxa máxima de juros no rotativo ao ano em alguns países é: EUA (17,03%); Turquia (24,27%); Rússia (27,9%); Índia (30%). Mesmo na Argentina, que enfrenta uma crise econômica provocada por políticas neoliberais, essa taxa é inferior à do Brasil, alcançando 53,2% ao ano.
Uma das consequências mais evidentes dessas taxas exorbitantes de juros é o aumento do endividamento das famílias. Segundo a pesquisa CNC/PEIC, realizada mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) em colaboração com o Instituto Fecomércio-SP, em março, 80,4% das famílias estavam endividadas, um recorde para o mês. A inadimplência alcançou 29,6% e o comprometimento da renda foi de cerca de 29%. O cartão de crédito segue sendo a principal forma de endividamento, com 85% das famílias nessa situação apontando essa modalidade. Com taxas no rotativo de 435,9% ao ano, e levando em conta os salários da maioria dos trabalhadores, é fácil entrar em um ciclo de endividamento e extremamente difícil sair dele.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu uma meta de inflação de 3% para 2026, com um intervalo de tolerância de 1,50 ponto percentual para mais ou para menos em relação à meta. Isso significa que a inflação pode oscilar entre 1,50% e 4,50% e ainda estar dentro da meta. Os representantes do BCB afirmam que o ajuste da política monetária dependerá do retorno da inflação à meta. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é o índice oficial de inflação, está em 4,14% nos últimos 12 meses (de abril de 2025 a março de 2026), ou seja, dentro da faixa de tolerância. No entanto, o BCB continuará com a taxa de juros elevada ou poderá até aumentá-la enquanto a inflação não se alinhar ao centro da meta. Essa abordagem representa uma interpretação equivocada da legislação do Regime de Metas de Inflação. De acordo com o art. 2º do Decreto 12.079/2024, a meta é considerada descumprida “quando a inflação, medida pela variação acumulada em doze meses (…) desviar-se por seis meses consecutivos da faixa do respectivo intervalo de tolerância”.
Os membros do Copom argumentam que essa medida é necessária devido à deterioração do cenário internacional em relação à inflação, com mais fatores que podem levar a um aumento de preços. Para justificar essa hipótese, o Copom menciona a piora nas “expectativas” dos agentes econômicos. É importante esclarecer que os “agentes econômicos” referem-se a economistas com uma visão ortodoxa, geralmente ligados de forma funcional ou ideológica a grandes empresas ou ao setor financeiro. A tese defendida é que o aumento da demanda acima da capacidade de oferta — ou seja, o desequilíbrio entre oferta e demanda — resulta em um aumento de preços que pode afetar outros setores, provocando um aumento da inflação.
É vital discutir se essa tese é válida, ou seja, se a inflação no Brasil é, essencialmente, consequência de um excesso de demanda por bens e serviços. O aumento generalizado de preços (conhecido como inflação) é um fenômeno normalmente multicausal, com diversos determinantes que podem variar conforme o contexto e o tempo em que se manifesta. Por exemplo, a inflação na Argentina, que foi de 31,5% em 2025, não está relacionada a um excesso de demanda. Nesse caso, uma razão central e direta para a inflação foi a retirada de subsídios essenciais, pelo governo de Javier Milei, que afetou as tarifas de água, gás, luz, transporte público, entre outros. Como se trata de serviços essenciais, os quais ninguém pode dispensar, o impacto multiplicador dessa medida sobre o conjunto de preços é enorme. Contudo, essa não é necessariamente a razão para a inflação na Turquia (30,89% em 2025), que apresenta seus próprios determinantes.
É evidente que a redução da oferta de determinados produtos em relação à demanda eleva seus preços. Na cesta básica de alimentos, produtos que dependem do ciclo agrícola são exemplos clássicos de aumento de preços devido à menor oferta. Uma situação comum em relação a alimentos básicos é a do tomate, que pode ter um aumento de 50% em um mês e uma redução de 40% no mês seguinte, em ambos os casos devido às diferentes combinações entre oferta e demanda do produto. No entanto, esses desequilíbrios são pontuais, tanto no tempo quanto em relação ao conjunto de produtos afetados. O fato de a batata-inglesa aumentar 100% em um mês não implica que a inflação aumentará nessa mesma magnitude, pois o peso desse item na composição dos preços é relativamente modesto.
É exatamente por conta da sazonalidade dos produtos, eventos climáticos extremos e outros problemas que é aconselhável que os países implementem políticas agrícolas eficazes. O Brasil, por exemplo, conta com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), uma entidade pública que atua na gestão de políticas agrícolas e de abastecimento, desempenhando funções como garantir o abastecimento interno e mitigar as oscilações de preços decorrentes dos problemas mencionados.
O argumento básico em defesa dos juros altos para controlar a inflação é que, ao elevar o custo do dinheiro e do crédito, isso leva empresas e famílias a postponhar o consumo e os investimentos, reduzindo a demanda por bens e serviços, e, assim, diminuindo o crescimento da economia. Esse processo deveria aliviar a pressão sobre os preços. No entanto, é válido questionar: será que a maioria da população brasileira, ou pelo menos uma parte significativa, está consumindo em excesso ao ponto de que o aumento dos juros tenha um impacto substancial no consumo? Será que essa avaliação é verdadeira para o Brasil neste momento? Um país onde quase 30% da população tem sua renda atrelada ao salário mínimo e 54,3 milhões de pessoas (mais de um quarto da população) dependem do Bolsa Família para evitar a fome pode realmente ter um problema de excesso de demanda?
A taxa de investimento é um componente crucial da chamada demanda agregada de uma economia (juntamente com Consumo, Gastos do Governo e Exportações Líquidas). A taxa de investimento da economia brasileira (FBCF/PIB, no 3º trimestre de 2025) foi de 17,3%, conforme dados do IBGE. Refere-se aqui a investimentos na Formação Bruta de Capital Fixo (máquinas, equipamentos e construção civil). Para efeito de comparação, a taxa média de FBCF no mundo é de 26,2%; na Rússia, é de 21%. O investimento no Brasil é baixo mesmo em comparação à América Latina, que investe 21% do PIB em formação de capital fixo. Para evitar desequilíbrios entre oferta e demanda, seria muito mais sensato aumentar a oferta por meio do incremento dos investimentos.
É irrealista supor que em uma economia como a brasileira — dominada por grandes grupos econômicos, muitos deles estrangeiros — a relação entre preços e juros seja direta. Por exemplo, o grau de ociosidade na economia, ou seja, a capacidade produtiva não utilizada, é um fator relevante na formação de preços e, consequentemente, na definição do nível inflacionário. O Nível de Utilização da Capacidade Instalada da Indústria (Nuci) em março de 2026 foi de 82,4% (era 79,7% em novembro anterior), conforme dados da FGV (Sondagem da Indústria). Isso indica que o Brasil opera com quase 18% de ociosidade na indústria. Essa faixa é considerada adequada, pois proporciona flexibilidade para demandas sazonais e evita inflação resultante de gargalos (acima de 85%). No Brasil, a FGV e a CNI utilizam cerca de 82% como referência de “normalidade”. Contudo, em uma situação de pressão de demanda, provocada, por exemplo, por um aumento salarial significativo, essa parte ociosa da indústria poderia ser rapidamente mobilizada para aumentar a oferta de bens durante um certo período.
Outro problema é a oligopolização da economia, caracterizada pela concentração de mercado em um número reduzido de empresas que atuam em regime de cartel, onde há uma combinação, mais ou menos dissimulada, de preços. Essa é uma realidade que permeia a economia mundial, com poucas exceções, como a da China, onde a economia é fortemente controlada pelo Estado. Apesar disso, todo o debate sobre juros e inflação, que se observa na imprensa econômica dominante do Brasil, é feito com base na crença de que as variações de preços são determinadas somente pela oferta e demanda, funcionando como no capitalismo do Século XIX.
Como é bem sabido, há cerca de 150 anos, as commodities essenciais para a economia global (energia, minerais, alimentos) são controladas por grandes oligopólios ou monopólios que definem seus preços através de mecanismos especulativos e políticos. Além disso, muitos Estados nacionais mantêm empresas estatais em setores estratégicos, como o de energia, uma realidade que está se tornando evidente atualmente, com a guerra contra o Irã. A verdade é que o poder dessas grandes transnacionais, que geram lucros superiores à produção de riqueza de muitos países do mundo, é algo que a maioria das nações não consegue enfrentar isoladamente.
Todo o debate sobre inflação e juros, em um país economicamente atrasado como o Brasil, é dominado pelos interesses desses grandes grupos econômicos que operam a partir de uma estratégia global. Esses grupos exercem uma influência significativa sobre o Congresso Nacional, sobre o sistema jurídico do país, sobre a mídia, sobre os governos e, de forma muito pronunciada, sobre o Banco Central considerado “independente”.