1ª Feijoada de Ogum do MST em SP reuniu agroecologia, ancestralidade e solidariedade

Evento reuniu apoiadores, artistas e povos de terreiro em SP. Foto: Marta Pereira

Por Lays Furtado
Da Página do MST

Para celebrar este importante guardião da cultura afro-brasileira e africana, o Orixá Ogum, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou neste sábado (25) a Feijoada de Ogum, no Espaço Cultural Elza Soares, localizado na capital paulista.

Foi a primeira edição do evento em São Paulo, que surgiu a partir da articulação dos Povos de Terreiro do MST, que é uma frente de atuação do Coletivo Terra, Raça e Classe do Movimento. O evento reuniu cerca de 2 mil pessoas que estiveram presentes, entre apoiadores, artistas e povos de terreiro.

A feijoada de Ogum é uma tradição dos povos de terreiro da umbanda e do candomblé, e teve sua origem no início do século XX, no Ilê Ogogunjá, na Bahia, iniciada pelo babalorixá Procópio de Ogunjá. O prato é preparado com feijão preto e diversas carnes de porco para agradecer e pedir bênçãos, simbolizando a prosperidade e a partilha. A tradição surgiu após Ogum exigir, através do oráculo de Ifá, que o babalorixá oferecesse comida a todos, não negando alimento a ninguém, especialmente aos necessitados.

Yalorixá Fabiana e Ekedi Yasmim, na partilha da feijoada de Ogum. Foto: Regina Jerônimo

A Iyalorixá do Ilê Asé Alaketu Odé Arolegi, Fabiana das Graças Souza, que também integra o MST, conta que a atividade organizada pelos militantes que também são do axé, teve início a partir do plantio agroecológico do feijão preto realizado em setembro de 2025, no Centro Agroecológico Paulo Kageyama do MST, em Jarinu, interior de São Paulo. Do total da colheita, parte do feijão foi destinado para a feijoada, e a outra parte dos grãos foi destinada à solidariedade.

“Nós nos unimos para celebrar Ogum e para combater a intolerância religiosa e unir os povos de terreiro […]. Plantamos esse feijão em uma parte de hectares destinada para este plantio, e depois colhemos 150 kg desse feijão e foi muito maravilhoso celebrar a colheita desse feijão colhido.Uma parte desses grãos vai para Cuba, para nossos companheiros cubanos, e a outra restante vai para instituições no Brasil”. – explicou a Iyalorixá Fabiana, responsável por conduzir a atividade em sua função religiosa.

O evento teve início com uma defumação do espaço cultural, seguida de um Xirê, ritual tradicional nos terreiros de Candomblé, onde se canta e dança para os Orixás; houve também uma mística realizada por militantes do Movimento. Entre as atividades, houve uma mesa de debate, onde foi destacado que os espaços dos povos de terreiro vão muito além da religião, são territórios políticos, culturais e verdadeiras tecnologias ancestrais de resistência, fundamentais no enfrentamento das opressões e na construção de novos caminhos de dignidade e transformação.

Cerca de 2 mil pessoas estiveram no evento celebrando Ogum. Foto: Marta Pereira

Após o início da programação da manhã, foi partilhada a tão esperada feijoada de Ogum, alimentando o corpo e alma daqueles que se fizeram presentes, com muita fartura, seguindo a tradição das comunidades de terreiros.

Comunhão de lutas e axé

Na mesa de debates estiveram presentes: Felipe Brito de Omolu, Babalorixá Ẹgbẹ do Ilé Odẹ Maroketu Àṣẹ Ọba e fundador da Ocupação Cultural Jeholu (SP); Andrea Barroso de Oyá, Iyalorixá do Ilé Àṣẹ Omi Ogunsade e integrante do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira – CENARAB (MG); e Fernanda Alcântara, do Coletivo Terra, Raça e Classe do MST; o debate foi mediado pela Ekedi Yasmim de Oxum (MST).

O Babalorixá Felipe Brito destacou que “[…] a terra é o lugar que nos alimenta, a terra para a matriz africana é uma divindade, ela é Nanã, é Obaluaê e toda uma gama de divindades do panteão africano, dos Orixás, Inquices e Voduns que vieram para o Brasil e que são a nossa herança africana cultural negra ancestral.”

Para Brito, há uma conexão intrínseca entre os povos de terreiro e os Sem Terra, em diversos aspectos, desde os princípios de cuidado com a natureza até a esfera de luta por direitos.

“Então a luta do MST pelo direito à terra, pela cidadania, é também a luta das matrizes africanas, são lutas que estão vinculadas, são lutas negras, são lutas dos nossos povos, são lutas contra o racismo, são lutas contra a segregação, e também pelo direito ao bem viver. Quando a matriz africana se encontra no mesmo espaço que o MST, é sim uma conjugação, uma comunhão de ideais, uma comunhão de princípios, e sobretudo, uma comunhão para a resistência, pela sociedade ampla, para uma sociedade que realmente seja inclusiva, não apenas no discurso, mas na prática do dia a dia.”

O companheiro Paulo Azarias, do Instituto Feijão de Ogum, também fez uma saudação e compartilhou a experiência que inspirou o evento; Paulo é um dos pilares do Movimento Negro Unificado (MNU), e também idealizador do Feijão de Ogum que acontece em Juiz de Fora (MG), e que este ano está em sua 23ª edição.

Apresentação do Bloco Afro Ilú Inã. Foto: Marta Pereira

Após a oferta da saborosa e solidária feijoada, que foi feita por membros da Cozinha Escola Dona Ilda Martins, a celebração seguiu com apresentações dos artistas, Brenner Paixão, Iara Rennó e do Bloco Afro Ilú Inã, fortalecendo a cultura popular e negra como expressão da diversidade e luta.

A experiência do evento trouxe expectativas para os Povos de Terreiro do Movimento, que espera que este seja o primeiro de muitos outros encontros que potencializam a diversidade cultural e religiosa em meio à militância, construindo uma articulação crescente entre os movimentos organizados pela classe trabalhadora e as comunidades de matrizes africanas pelo país, onde a agroecologia, a luta contra o racismo, por territórios e direitos, e a produção de alimentos saudáveis possam ser sementes de esperança e de práticas transformadoras.

*Editado por Fernanda Alcântara

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