11 de setembro: dois acontecimentos, a marca da violência e do imperialismo estadunidense, por Calmon & Mendonça

11 de setembro: dois acontecimentos, a marca da violência e do imperialismo estadunidense

por Francisco Celso Calmon e Leticia Vieira de Mendonça

A mesma data reúne a memória do golpe que derrubou Salvador Allende, no Chile, e dos atentados que mataram milhares de pessoas nos Estados Unidos. Em diferentes contextos, a história revela os efeitos devastadores da violência política e do intervencionismo norte-americano.

Em 11 de Setembro de 1973, o Chile foi palco de um golpe de Estado que interrompeu o governo democrático e socialista de Salvador Allende.

Em 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos sofreram os atentados que destruíram as Torres Gêmeas, atingiram o Pentágono e provocaram a morte de quase 3 mil pessoas.

São acontecimentos distintos, com causas, agentes e dimensões próprias mas que retrata sobre o papel dos Estados Unidos na ordem internacional: de um lado, a participação de Washington na desestabilização e no apoio ao golpe contra um governo eleito; de outro, a resposta militar norte-americana aos atentados, que abriu um ciclo de guerras e devastação.

Chile, 1973: a democracia interrompida

Em 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas chilenas atacaram o Palácio de La Moneda, sede do governo, em um golpe que derrubou o presidente Salvador Allende. Durante a manhã, Allende realizou seu último discurso ao país, reafirmando a decisão de permanecer no palácio e defender o mandato para o qual havia sido eleito. Pouco depois, La Moneda foi bombardeada. Allende morreu naquele dia, e o Chile mergulhou em uma ditadura comandada por Augusto Pinochet.

Nesse golpe, houve atuação direta dos Estados Unidos. Documentos históricos e investigações oficiais estadunidenses registram que o governo de Richard Nixon e a CIA participaram de operações destinadas a impedir a posse de Allende e, posteriormente, de esforços para desestabilizar seu governo. A intervenção fazia parte da lógica da Guerra Fria, na qual Washington tratava governos socialistas ou não alinhados como ameaças aos seus interesses geopolíticos.

Entre as vítimas da repressão estavam brasileiros exilados no país. Documentos reunidos pela Comissão Nacional da Verdade registram os depoimentos de brasileiros detidos no Estádio Nacional, transformado em centro de prisão e tortura após o golpe. Brasileiros relataram terem sido torturados no local por oficiais brasileiros que, demonstravam técnicas de tortura aos militares chilenos; outros depoimentos confirmam a presença de brasileiros entre os presos e a atuação de agentes do Brasil nas interrogações.

Resultando em uma das ditaduras mais violentas que a América Latina e o mundo assistiram: repressão, perseguições, prisões, torturas, desaparecimentos forçados e assassinatos.

Estados Unidos, 2001: o atentado e a guerra permanente

Em 11 de setembro de 2001, 19 integrantes da organização extremista Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais. Dois atingiram as Torres Gêmeas, em Nova York; um atingiu o Pentágono; e o quarto caiu na Pensilvânia após a reação de passageiros e tripulantes. Os atentados mataram 2.977 vítimas, além dos sequestradores.

Sob o governo de George W. Bush, os Estados Unidos lançaram a chamada “Guerra ao Terror”, invadiram o Afeganistão e, em 2003, o Iraque. A invasão iraquiana foi realizada sem autorização do Conselho de Segurança da ONU e sob o pretexto de armas de destruição em massa que não foram encontradas. O conflito produziu destruição em larga escala, mortes de civis, deslocamentos e instabilidade que atravessaram gerações.

Teorias sustentam uma suposta participação de setores do próprio Estado dos Estados Unidos no atentado, e em virtude da trajetória sangrenta deste país, atentar contra seus próprios cidadãos é uma hipótese que, infelizmente, não há de ser descartada. E o que é historicamente demonstrável, é que Washington utilizou a tragédia como justificativa para uma política de guerras e intervenções que produziu novas ondas de destruição.

A violência sofrida pela população dos Estados Unidos não autorizava a devastação de outros povos. A resposta de Washington demonstrou, mais uma vez, como o poder militar estadunidense frequentemente transforma tragédias em fundamento para ampliar intervenções, ocupações e mecanismos de controle.

Duas datas e um país imperialista sempre envolvido

O 11 de setembro de 1973 e o de 2001 não são acontecimentos iguais. Um foi um golpe de Estado contra um governo democraticamente eleito, apoiado por uma estrutura de intervenção imperialista; o outro foi um atentado terrorista de escala internacional contra a população civil dos Estados Unidos.

A conexão entre eles está na necessidade de rejeitar a violência como instrumento de dominação e de compreender os efeitos das decisões das grandes potências. No Chile, a intervenção norte-americana contribuiu para sufocar uma experiência democrática e popular. Depois de 2001, a resposta militar dos Estados Unidos alimentou guerras que espalharam sofrimento e destruição pelo mundo.

Neste 11 de setembro, lembramos de Salvador Allende e da resistência de quem enfrentou o golpe e defendeu a democracia até o fim. Lembrar as vítimas dos atentados de 2001 é reafirmar que nenhuma população deve ser alvo de terrorismo.

E refletir sobre os dois acontecimentos é reconhecer que a paz, a soberania dos povos e a justiça internacional não podem ser subordinadas à lógica da força e do imperialismo.

Francisco Celso Calmon e Leticia Vieira de Mendonça

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