Mesmo com a leve melhora nos índices de desemprego no Brasil, a desigualdade de gênero no mercado de trabalho persiste — especialmente para as mulheres negras. De acordo com o IBGE, mais de 7,2 milhões de pessoas estavam desempregadas no país em 2024. No mesmo ano, o Dieese apontou que 3,7 milhões de mulheres continuavam sem trabalho, apesar da queda na taxa de desocupação. Elas seguem enfrentando salários menores, mesmo com qualificações equivalentes às dos homens, além de estarem mais concentradas em ocupações com baixos rendimentos: 37% das mulheres ocupadas ganham até um salário mínimo.

Diante desse cenário, uma nova iniciativa internacional chega ao Brasil para oferecer formação e trabalho remunerado no exterior: o Work in Russia. A iniciativa é voltada para mulheres de 18 a 22 anos com ensino médio completo e oferece formação profissional, trabalho remunerado (a partir de R$ 5 mil), moradia, alimentação, passagens aéreas e aulas de russo. A ação é resultado de uma parceria inédita entre a União Brasileira de Mulheres de São Paulo (UBM-SP) e o Fórum Internacional dos Municípios dos Países do BRICS (IMBRICS).

A parceria foi formalizada em 8 de fevereiro, durante a reunião de planejamento da UBM-SP, em Nazaré Paulista. “É uma excelente oportunidade de estudos, fora a experiência de conviver com outras culturas, outros povos. A única coisa negativa é o frio, mas na vida nada é fácil, né?”, comentou Claudia Rodrigues, presidente da UBM-SP.

O programa acontece na cidade de Alábuga, na República do Tartaristão, Rússia — sede da 16ª Cúpula do BRICS. A região abriga uma das Zonas Econômicas Especiais (ZES) mais modernas da Europa, com foco em indústrias de alta tecnologia e transformação química, agrícola e automotiva. Lá, as participantes trabalham em áreas como logística, hospitalidade, produção industrial e indústria alimentícia, com possibilidade de progressão na carreira.

“Uma nova profissão, um novo idioma, uma nova vida”

Em entrevista ao Portal Vermelho, Henrique Domingues, chefe adjunto do Fórum dos Municípios BRICS e embaixador do programa no Brasil, explicou que a proposta surgiu da necessidade de qualificar mão de obra para as indústrias instaladas em Aláboga. “A expectativa para as jovens brasileiras é que, minimamente, elas consigam aprender um novo idioma, que é o russo, e se formar profissionalmente em alguma das áreas do programa”, afirmou.

Henrique também destacou a preocupação com a adaptação cultural das participantes. “Mudar de país é sempre um processo difícil. Por isso, o programa inclui atividades de integração cultural, visitas a museus e aulas de russo, o que facilita a adaptação”, disse. Segundo ele, os brasileiros costumam se adaptar bem à cultura russa, e há uma comunidade brasileira na região que está bem integrada.

Além da experiência profissional e cultural, o programa oferece diversas possibilidades de continuidade: desde ser efetivada na ZES, ingressar na universidade técnica de Aláboga (que oferece cursos em robótica, automação e programação), até voltar ao Brasil com uma nova profissão e experiência internacional.

Combate à desigualdade de gênero

Um dos principais focos do programa é a equidade de gênero. “Muitas diretrizes dos BRICS tratam da desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. O Work in Russia foi criado justamente para ampliar as oportunidades profissionais para mulheres jovens, oferecendo uma posição mais justa em relação aos homens”, explicou Henrique.

Para o Brasil, os benefícios também são de longo prazo. O programa pode trazer de volta profissionais qualificadas, abrir portas para parcerias com indústrias russas e fomentar a internacionalização de empresas brasileiras. “Já iniciamos contatos com universidades, escolas técnicas e outras instituições para tornar esse processo contínuo”, completou.

Instalações de ponta e acompanhamento direto

As jovens viverão em condomínios residenciais modernos com segurança 24h e sistema de identificação facial. Segundo Domingues, que visitou as instalações, o nível estrutural é de excelência: “É a Zona Econômica Especial mais bem-sucedida de toda a Europa. As participantes demonstram domínio do idioma e têm uma relação muito positiva com os mentores”.

As primeiras brasileiras estão finalizando trâmites e devem embarcar nos próximos dias. O programa conta com o apoio do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação da Embaixada do Brasil na Rússia, reforçando a segurança e a seriedade da iniciativa.

Quem pode participar

O programa é voltado para mulheres brasileiras de 18 a 22 anos, com ensino médio completo. É necessário ter passaporte válido e disposição para aprender as 100 palavras básicas em russo exigidas na seleção. As candidatas passam por entrevistas, jogos de simulação e exames médicos. Todo o processo de documentação é orientado pela equipe de RH da Zona Econômica de Alábuga.

Após o período inicial de 6 meses, quem se destacar pode ter o contrato renovado por até 4 anos, progredindo em funções com maior responsabilidade e salário. Há ainda a possibilidade de continuar os estudos na Faculdade Politécnica de Aláboga e seguir carreira técnica ou gerencial — ou empreender, com base na formação adquirida.

O programa já é desenvolvido em países da África, América Latina e Ásia, e tem potencial de expansão. Por enquanto, segue voltado exclusivamente às mulheres. Segundo Henrique, o objetivo é garantir que a diretriz dos BRICS sobre equidade no mercado de trabalho seja realmente colocada em prática.

Inscrições

Para mais informações e cadastro, acesse: https://startworld.alabuga.ru/pt/

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Last Update: 27/03/2025