Convivi com Walther Moreira Salles Filho, o “Waltinho”, quando preparava a biografia do pai, o banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles.
Walther teve filhos de dois casamentos. Com Helena, teve Fernando. Com Elisinha, teve Waltinho, Pedro e João. Na época, o casal Moreira Salles era dos anfitriões mais bem relacionados no grande mundo dos bilionários.
Como me contaram os filhos, a casa era uma extensão da embaixada. As recepções não eram sinal de deslumbramento, mas estratégia de negócios. Era nessas recepções que se firmavam relações sociais que, depois, transformavam-se em parcerias econômicas. E Elisinha levava a ferro e fogo seu papel de braço direito do marido.
Walther chegou a comprar um pequeno prédio, vizinho da casa, apenas para abrigar os visitantes ilustres. Aliás, o morador que mais relutou em vender o apartamento foi o radialista e compositor Antônio Maria. O prédio acolheu desde os Rollings Stones até Henry Ford II, presidente da Ford.
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Elisinha vinha de uma família de pequenos empreiteiros de Minas Gerais. No começo de carreira trabalhou como Secretária do diretor da Central do Brasil. Fato, aliás, que inspirou o primeiro grande sucesso de Waltinho, com Fernanda Montenegro, o “Central do Brasil”, mostrando sua enorme sensibilidade.
Depois, Elisinha apareceu em uma festa de debutantes, ao lado da também debutante Danuza Leão. Foi convidada para uma festa de réveillon na casa de Walther e, lá, conquistou definitivamente o banqueiro. Casaram-se na França e, mais tarde, Walther conseguiu até a anulação do seu primeiro casamento pelo Papa, em um trabalho de San Tiago Dantas, seu advogado.
Em pouco tempo, Elisinha aprendeu os rituais dos muito ricos e se tornou uma das hortenses mais conhecidas do planeta.
Nessa condição, preparou os filhos para compor uma dinastia. Aliás, o mordomo Santiago – retratado por João em um belo documentário – dizia que eles eram descendentes dos Médicis.
Foi uma vida dura. Logo após o golpe de 64, com o pai na mira dos militares, mudaram-se para a França. Passaram alguns anos até se sentirem seguros para voltar ao Brasil.
Mas a formação rigorosa continuou. Para aprender história, por exemplo, a mãe os levava para a Grécia, acompanhados por um professor.
Os meninos só conseguiram contato com o povo através de sua babá, uma gaúcha que driblava as restrições de Elisinha e levava-os para passeios nas ruas. Depois, Waltinho se aproximou das religiões afro através de um tio, irmão de Elisinha.
A partir de determinado momento, o clima na casa ficou irrespirável. Havia choques permanentes, em função do temperamento explosivo da mãe. Elisinha só ficava à vontade quando visitava a cunhada, em São Paulo, e perdiam-se em longas conversas sobre Minas Gerais. Generosa com os empregados, solidária, no ambiente social era de uma competitividade extrema.
A maneira de Waltinho fugir do clima opressivo da casa era ir até a casa do deputado Rubens Paiva e conviver com uma família normal e alegre.
Nos depoimentos que colhi dos filhos, Waltinho não conseguia falar sobre a mãe. Travava. Descrevia o pai como o sujeito sem preconceitos. Um dia, passou a namorar uma moça de vida mais livre – para os padrões da época. E o pai deu pleno apoio.
Em uma viagem ao Rio de Janeiro, cruzei com ele no avião. Sentamos no mesmo banco. Falei algo da mãe. Ele se emocionou, os olhos lacrimejaram, e apenas balbuciou:
- Coitadinha!
E mais não disse, porque a emoção não permitiu.
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