Operação contra o PCC expõe rastro de desinformação: como vídeo sobre Pix abriu brecha para o crime e forçou recuo do governo


Em meio a mandados de busca e apreensão, celulares apreendidos e servidores lacrados, um recado ecoou com força durante o anúncio da Operação Carbono Oculto: o Brasil perdeu uma batalha contra o crime organizado não nas ruas, mas nas redes sociais. O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, fez uma revelação contundente nesta quinta-feira: uma norma técnica, criada para fortalecer o combate ao crime e aumentar a transparência nas fintechs, foi derrubada por uma onda de desinformação que ganhou corpo com um único vídeo — o do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que viralizou em janeiro com a falsa alegação de que o governo Lula iria “taxar o Pix”.

O episódio, que à época gerou alarde nacional e até boicote ao sistema de pagamentos instantâneos, agora retorna com um novo contexto: o de uma investigação que mostra como a desinformação abriu espaço para que facções como o PCC usassem fintechs como canais de lavagem de dinheiro e expansão de seus negócios ilícitos.

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“Publicamos essa instrução em setembro do ano passado, para valer a partir de janeiro. O que aconteceu em janeiro todos nós sabemos. A Receita Federal recebeu o maior ataque da história dela, de mentiras, de fake news, dizendo mentirosamente que aquela instrução normativa tratava de tributação de meios de pagamento”, afirmou Barreirinhas durante coletiva de imprensa que detalhou as ações da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta contra redes de fintechs suspeitas de atuar como braços financeiros do Primeiro Comando da Capital (PCC).

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), em vídeo com críticas ao governo que viralizou nas redes sociais (YouTube Nikolas Ferreira/Reprodução)
Operação contra PCC mostra impacto da mentira digital / Reprodução

A norma em questão não falava em impostos, mas em transparência. Seu objetivo era simples, porém crucial: estender às fintechs as mesmas obrigações já cumpridas há mais de duas décadas por bancos e outras instituições financeiras — como o envio de informações sobre operações suspeitas, identificação de beneficiários reais e prevenção à lavagem de dinheiro. “Depois de muito debate com o sistema financeiro, com as instituições financeiras, fizemos o óbvio: publicamos uma instrução normativa estendendo às fintechs as mesmas obrigações de transparência, as mesmas obrigações de prestação de informações que todas as instituições financeiras têm há mais de 20 anos no Brasil”, explicou o secretário.

Mas o “óbvio” esbarrou na máquina da desinformação. O vídeo de Nikolas Ferreira, que alcançou centenas de milhões de visualizações, retratava a medida como um ataque aos brasileiros, sugerindo que o governo queria fiscalizar cada transação via Pix para cobrar impostos. A narrativa, falsa, foi amplificada por políticos, influenciadores e perfis anônimos nas redes sociais. O resultado foi imediato: medo entre comerciantes, confusão no setor e, pior, o início de um boicote ao próprio Pix — um dos maiores avanços da infraestrutura financeira brasileira.

“Essas fake news foram tão fortes, que apesar de todo o esforço da Receita Federal, nós não conseguimos segui essas mentiras, por conta da força de quem as impulsionava, o que já estava, inclusive, prejudicando o uso dos meios de pagamento instantâneo. Nós tivemos que dar um passo atrás e revogar essa instrução normativa. E as operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras, com essas fake news”, disse Barreirinhas, com um tom que misturava frustração e indignação.

A revogação da norma, oficializada pelo presidente Lula em 15 de janeiro, foi uma decisão política dura, mas considerada inevitável diante da pressão popular gerada pela campanha de desinformação. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a gravar vídeos e dar entrevistas para tentar esclarecer que não havia intenção de tributar o Pix. “Não queremos que a oposição continue levando desinformação sobre o Pix. Os estragos causados por inescrupulosos no caso Pix, incluindo senador e deputado, está feito”, afirmou Haddad na época.

Agora, com as provas da Operação Carbono Oculto, os danos se tornam ainda mais claros. As fintechs investigadas atuavam como verdadeiras “portas giratórias” para o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e até financiamento de estruturas criminosas no sistema prisional. Sem a fiscalização prevista na norma revogada, muitas dessas empresas operaram no limite — ou além dele — sem que o Estado pudesse acompanhar seus movimentos com a mesma eficácia.

O que parecia ser apenas mais um episódio de guerra política nas redes sociais revela-se, agora, como um rombo real na segurança financeira do país. Enquanto políticos se beneficiavam do engajamento gerado por um boato, o crime organizado aproveitava o vácuo regulatório para fortalecer suas operações.

Barreirinhas não citou nomes diretamente, mas a crítica ao papel de certos atores políticos foi evidente. “As operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras”, repetiu, quase como um lembrete: por trás de cada compartilhamento irresponsável, pode haver um crime que escapa, um recurso roubado da sociedade, uma vida afetada indiretamente pelo descaso com a verdade.

O governo promete agora enviar ao Congresso uma medida provisória que restabeleça o controle sobre as fintechs, mas com maior amparo legal e diálogo com o setor. Dessa vez, a expectativa é que a iniciativa não seja derrubada por um vídeo. Mas o alerta já foi dado: no Brasil contemporâneo, uma mentira bem produzida pode paralisar uma política pública, beneficiar o crime e colocar em risco a credibilidade de um sistema inteiro.

O Pix, criado para simplificar a vida dos brasileiros, virou refém da desonestidade intelectual. E enquanto a Receita Federal tenta recuperar o tempo perdido, o país precisa enfrentar uma pergunta incômoda: quantas outras políticas importantes já foram enterradas não por falta de vontade, mas por falta de verdade?

Com informações da Veja*

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Last Update: 30/08/2025