Trump e o “choque chinês” às avessas

por Maria Luiza Falcão Silva

No debate econômico internacional, o termo “choque chinês” ficou consagrado a partir dos trabalhos de David Autor, David Dorn e Gordon Hanson para descrever o impacto da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (2001). De repente, o mundo foi inundado por manufaturas baratas produzidas em larga escala. Para os Estados Unidos, isso significou fechamento de fábricas, desindustrialização do chamado Rust Belt e perdas de milhões de empregos.

O “choque chinês” não foi apenas um fenômeno comercial. Representou também a ascensão de um modelo de desenvolvimento orientado pelo Estado, que combinou proteção temporária, investimento maciço em infraestrutura, política industrial agressiva e planejamento de longo prazo. Ou seja, enquanto o Ocidente apostava no mercado como regulador quase absoluto, Pequim mostrava que uma estratégia nacional podia alterar, em poucas décadas, a hierarquia global de poder econômico.

Trump tenta inverter o jogo

É nesse contexto que podemos compreender a tentativa de Donald Trump de impor aos Estados Unidos um “choque chinês às avessas”. Sua doutrina tarifária, iniciada em 2018 contra a China, tornou-se em seu segundo mandato uma política generalizada de tarifas contra dezenas de países — do México ao Brasil, da União Europeia à Índia.

O objetivo declarado é “repatriar empregos industriais”, forçando cadeias produtivas a abandonarem a Ásia e regressarem ao território americano. Trump não esconde que deseja recriar a mística da manufatura nacional, sustentáculo do chamado american way of life. Em termos políticos, isso alimenta sua base eleitoral: trabalhadores brancos, sindicatos debilitados, pequenas cidades arruinadas pela globalização.

Assim como a China impôs ao mundo um choque de competitividade, Trump tenta impor ao próprio Estados Unidos uma transformação radical nas regras do comércio, na esperança de reviver uma industrialização que o capitalismo americano, em sua versão neoliberal, havia abandonado.

Sem planejamento, só retórica

Mas há diferenças cruciais entre o “choque chinês” e o “choque trumpista”.

  • A China apostou em salários baixos, mas não parou aí: avançou em educação, ciência e tecnologia, redes de transporte e energia sustentável de ponta. Foi expansiva e integrada ao mundo.
  • Trump, ao contrário, age de forma reativa. Não há plano nacional de inovação. O protecionismo vem acompanhado de improviso e retórica nacionalista, sem a construção de uma estratégia de Estado.
  • Enquanto a China ganhou mercados, Trump levanta barreiras que isolam os EUA, encarecem produtos e alimentam a inflação. O “choque” chinês gerou crescimento global; o trumpista pode resultar em fragmentação e estagnação.

Não é casual que setores financeiros de Wall Street e do Vale do Silício vejam com desconfiança a política tarifária de Trump. Ela ameaça elevar custos, reduzir margens de lucro e, paradoxalmente, acelerar a transferência de cadeias produtivas para terceiros países, em busca de alternativas.

Geopolítica do “choque”

No plano internacional, a estratégia de Trump é também uma arma geopolítica. Tarifas deixam de ser mero instrumento econômico de política e passam a compor o arsenal de poder dos EUA, ao lado de sanções financeiras e embargos tecnológicos. Trata-se de uma forma de punir aliados e rivais que ousam diversificar relações, recorrer ao yuan ou negociar com a Rússia.

Em certo sentido, Trump tenta replicar o “choque chinês” como ferramenta de dominação, mas com sinal invertido: em vez de integrar o mercado mundial, ele busca fragmentá-lo, submeter países a uma lógica de obediência ao dólar e à Casa Branca.

Um choque para dentro e para fora

Assim, é possível sustentar a tese: Trump tenta dar um “choque chinês” nos Estados Unidos — isto é, provocar uma reestruturação profunda via protecionismo, nacionalismo econômico e choque tarifário. Mas é um choque às avessas: onde a China abriu caminhos, Trump fecha portas.

O mais provável é que esse experimento não produza renascimento industrial sustentável, mas sim inflação, tensões comerciais e uma maior instabilidade do sistema multilateral. No curto prazo, pode render dividendos políticos; no longo prazo, tende a corroer as próprias bases da economia americana.

 O “choque chinês” foi expansivo e transformador; o “choque trumpista” é defensivo e regressivo. O primeiro reposicionou a China no centro da economia global; o segundo arrisca empurrar os Estados Unidos para uma posição de cerco permanente, em que a força substitui o consenso e o protecionismo se torna sinônimo de vulnerabilidade.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Categorized in:

Governo Lula,

Last Update: 28/08/2025