A rotina de trabalho nas empresas brasileiras segue em transição. Modelos 100% presenciais e totalmente remotos perdem espaço, enquanto o regime híbrido se consolida como prática comum no mercado.
De acordo com a 4ª edição da pesquisa O Cenário do RH no Brasil, realizada pela ABRH Brasil em parceria com a Umanni, 46,2% das empresas adotam o modelo híbrido, praticamente empatado com as que mantêm regime totalmente presencial (46,6%). Apenas 7,3% operam exclusivamente em home office. Os dados, divulgados em 2025, refletem o cenário de 2024.
Um estudo da Muvita Coworking, feito na região do ABC paulista, confirma a tendência. Entre os entrevistados, 33,8% já trabalham em modelo híbrido. Desse grupo, 60% pretendem manter esse formato ao longo do ano. A presença física nos escritórios varia entre uma e três vezes por semana.
Empresas buscam produtividade sem abrir mão de flexibilidade
A adoção do trabalho híbrido tem impacto direto na produtividade e no bem-estar dos funcionários. A redução do tempo gasto com deslocamentos e a possibilidade de uma rotina mais equilibrada aparecem entre os principais fatores positivos.
Segundo Renata Bottura, cofundadora da Muvita Coworking e especialista em ambientes de trabalho flexíveis, o modelo híbrido representa um ponto de equilíbrio entre desempenho e qualidade de vida. “A experiência recente com o home office mostrou que a flexibilidade aumenta o bem-estar, mas também revelou limites, principalmente na construção de cultura organizacional”, afirma.
Para ela, o desafio das empresas está em manter uma cultura forte mesmo com menos convivência presencial. “Sem uma base clara de valores e objetivos, o risco de perda de engajamento e desalinhamento estratégico é alto”, diz Bottura.
Coworkings ganham espaço como apoio à nova rotina de trabalho
Com o crescimento do regime híbrido, os coworkings passaram a ocupar papel relevante na estrutura de trabalho das empresas. Para profissionais que enfrentam limitações em casa ou moram longe do escritório, esses espaços oferecem uma alternativa com infraestrutura completa e ambiente propício à produtividade.
Além de internet rápida, salas de reunião e áreas colaborativas, os coworkings criam oportunidades de networking e troca de experiências. “Muitos profissionais não se adaptaram ao home office, mas também não querem enfrentar longos deslocamentos. O coworking próximo de casa se torna uma solução prática e viável”, avalia Bottura.
Empresas que incentivam o uso desses espaços observam aumento na satisfação da equipe e maior facilidade na retenção de talentos. Bottura explica que o movimento é parte de uma estratégia mais ampla. “As companhias começam a entender que oferecer estrutura fora do escritório tradicional também é uma forma de cuidar da experiência do trabalhador.”
Impactos vão além do ambiente corporativo e chegam às cidades
O avanço do modelo híbrido afeta o cotidiano das grandes cidades. Mudanças nos padrões de deslocamento já alteram o fluxo no transporte público e no trânsito em horários antes considerados de pico.
Ao mesmo tempo, bairros residenciais mais afastados começam a registrar aumento na circulação de pessoas durante o dia. A demanda por cafés, restaurantes e espaços de trabalho compartilhados cresce, estimulando o comércio local.
O mercado imobiliário corporativo também sente os efeitos. Escritórios tradicionais passam por reestruturação, com mais foco em espaços flexíveis, salas moduláveis e áreas compartilhadas que possam ser usadas por diferentes equipes em revezamento.
Modelo híbrido exige nova postura de empresas e profissionais
Para operar bem nesse novo cenário, empresas precisam adotar métricas de produtividade baseadas em entregas, não em controle de presença. Isso exige mudanças na cultura de gestão e na forma como o desempenho é avaliado.
Segundo Bottura, a liderança tem papel decisivo nessa transição. “Ainda vemos gestores que tratam o home office como um benefício, quando na verdade o modelo híbrido é uma solução de gestão. É isso que garante mais agilidade e foco em resultados.”
Do lado dos profissionais, o desafio está em desenvolver competências como organização, gestão de tempo e comunicação eficaz em múltiplos canais. A capacidade de se adaptar a ambientes híbridos passou a ser diferencial competitivo.
Modelos rígidos, sejam totalmente presenciais ou remotos, tendem a perder espaço. A flexibilidade do híbrido responde às demandas atuais de agilidade, desempenho e qualidade de vida — com os coworkings desempenhando papel cada vez mais relevante nessa estrutura.