A revista britânica The Economist, considerada a “bíblia do liberalismo”, estampa Jair Bolsonaro na capa de sua edição desta semana, retratando-o como um extremista e comparando-o ao “viking do Capitólio”, símbolo da invasão trumpista de 2021 nos Estados Unidos. 

Às vésperas do julgamento do ex-presidente por tentativa de golpe, marcado para terça-feira (2) no Supremo Tribunal Federal (STF), a publicação afirma que “o Brasil oferece uma lição de democracia para uma América que está se tornando mais corrupta, protecionista e autoritária” sob Donald Trump.

A reportagem, intitulada “A história não contada da estranha e selvagem tentativa de golpe de Bolsonaro”, dedica dezenas de páginas à trajetória do ex-presidente até o colapso de 8 de janeiro de 2023. 

Bolsonaro é descrito como o “Trump dos trópicos”, um líder que se recusou a aceitar a derrota eleitoral, “incitou seus apoiadores a se rebelarem” e estimulou diretamente a ofensiva contra as instituições. 

Para a revista, o julgamento em curso é um “teste histórico”. “Ao contrário dos Estados Unidos, onde Trump não foi responsabilizado pela invasão do Capitólio, o Brasil está levando a julgamento um ex-presidente que conspirou contra a ordem constitucional”, diz a matéria.

O retrato visual escolhido pela revista — Bolsonaro fundido à imagem de Jacob Chansley, o extremista que entrou no Congresso norte-americano com chapéu de chifres — sublinha o paralelo entre os movimentos de extrema direita nos dois países. 

“Os métodos e a retórica são semelhantes”, descreve o texto, destacando a negação de resultados eleitorais, o uso de redes sociais para inflamar apoiadores e a crença em soluções autoritárias.

Segundo a Economist, a ofensiva contra a democracia “não começou no dia da invasão a Brasília, mas meses antes”, nos acampamentos em frente a quartéis do Exército. O maior deles, em Brasília, chegou a reunir mais de cinco mil pessoas e tinha como objetivo pressionar militares a anular a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

Na tarde de 8 de janeiro de 2023, a cena se transformou em marcha golpista. Vestidos de verde e amarelo, milhares depredaram o Congresso, o Palácio do Planalto e, sobretudo, o Supremo Tribunal Federal. Cadeiras foram incendiadas e a placa com o nome de Alexandre de Moraes foi exibida como troféu. A revista enfatiza: “o golpe fracassou por incompetência, não por intenção”.

Para a publicação, o episódio mostrou “o quanto o país esteve à beira do caos”. O colapso, insiste, não resultou da falta de articulação, mas da incapacidade dos conspiradores de sustentar a ruptura diante da reação institucional e social.

Militares, agronegócio e planos de assassinato

Um dos trechos mais fortes da reportagem revela que “um ex-general de quatro estrelas conspirou para anular o resultado da eleição; assassinos planejaram matar o verdadeiro vencedor”. A chamada “Operação Adaga Verde e Amarela” previa atentados contra Lula, Moraes e Alckmin, com armas pesadas e até veneno. “Sua neutralização abalaria toda a chapa vencedora”, afirmavam os golpistas.

O plano contou com financiamento de empresários do agronegócio, que repassaram cerca de R$ 100 mil. Parte do valor chegou a militares das forças especiais conhecidos como “kids pretos”, já integrados ao governo Bolsonaro. 

Dois deles se deslocaram a Brasília para vigiar Moraes. Em um dos computadores dos pistoleiros, havia até planilha sobre como convocar novas eleições após “neutralizar” o ministro.

Para a Economist, os detalhes desmontam a tese de que o 8 de janeiro foi desorganização popular. “Mostram que havia logística, financiamento e participação militar”, observa a revista, sublinhando que o fracasso decorreu da falta de adesão da cúpula das Forças Armadas, não de ausência de intenção golpista.

O decreto golpista e o lobby religioso

Enquanto a trama avançava, advogados próximos a Bolsonaro redigiram um decreto de estado de emergência, concedendo-lhe poderes extraordinários e criando um “gabinete de crise” dominado por militares. Um rascunho de discurso foi preparado, recheado de jargões jurídicos e referências a Tomás de Aquino.

A conspiração contou também com apoio religioso. O padre José de Oliveira e Silva enviou mensagens pedindo orações para que generais tivessem “coragem de salvar o Brasil”. Em comunicações privadas, pressionava Bolsonaro em termos vulgares a agir. Apesar da pressão, os comandantes do Exército e da Aeronáutica se recusaram a aderir, o que minou o plano.

O assassinato de Moraes chegou a ser tentado em 15 de dezembro de 2022, mas a operação foi abortada quando o ministro não voltou para casa e não havia respaldo militar para sustentar a ruptura. Para a revista, “o fato de não haver convulsão social e de as Forças Armadas não concordarem com o plano foram os fatores que o impediram de ser executado”.

Bolsonaro em queda e Eduardo no lobby internacional

Com o fracasso do golpe, Bolsonaro se isolou e fugiu para a Flórida. Sem imunidade, passou a responder a mais de uma dezena de investigações, do uso da TV estatal para difundir mentiras até a rede de espionagem contra jornalistas e órgãos públicos. Em junho de 2023, o TSE o tornou inelegível por oito anos.

Mauro Cid firmou acordo de delação premiada e se tornou peça-chave da acusação. Ainda que tenha omitido fatos, suas mensagens recuperadas confirmam a participação de militares de elite e de empresários do agro, além de evidências do aval de Bolsonaro.

Paralelamente, Eduardo Bolsonaro assumiu o papel de articulador externo. Em entrevista à Economist, disse esperar tornar Moraes “uma pessoa tóxica” ao convencer Trump a sancioná-lo por suposta ameaça à liberdade de expressão. Pouco depois, os EUA suspenderam vistos de ministros do STF, impuseram sanções a Moraes e aplicaram tarifas de 50% contra o Brasil, justificadas como reação à “caça às bruxas” contra Bolsonaro.

A publicação ressalta: “muitos brasileiros acreditam que Eduardo sacrificou o bem do país pelos interesses da família”.

A Economist conclui que o julgamento de Bolsonaro “será um divisor de águas”. Ele e sete de seus principais aliados — incluindo Heleno, Braga Netto e Ramagem — enfrentam a possibilidade de décadas de prisão. “As evidências parecem um flashback do passado turbulento do Brasil”, diz o texto.

O risco, porém, não desapareceu. A extrema direita aposta agora em conquistar cadeiras no Senado para tentar “impeachment de Alexandre de Moraes e neutralizar os tribunais”. A revista alerta que a ameaça pode vir “gradual, não violenta e plausivelmente legal”, como em Rússia, Hungria ou El Salvador.

Para a publicação, o Brasil é hoje o “adulto democrático do continente”, capaz de julgar um ex-presidente por conspirar contra a democracia. Mas também é campo de batalha em que a extrema direita testa novas formas de sobrevivência política. “O golpe fracassou por incompetência”, sintetiza a Economist, “mas o projeto autoritário segue vivo”.

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Last Update: 29/08/2025