Wall Street Journal e Financial Times expuseram pressão do Pentágono e do Departamento de Energia dos EUA sobre mineradoras brasileiras por acordos bilaterais de fornecimento exclusivo de terras raras
O Brasil encontra-se no epicentro de uma complexa e acirrada disputa geopolítica, impulsionada pela crescente demanda por minerais críticos no século 21. Tais matérias-primas (lítio, nióbio, cobre, manganês, terras raras, entre outros) são indispensáveis à fabricação de componentes de alta tecnologia presentes em smartphones, em veículos elétricos e na infraestrutura que sustenta a inteligência artificial por meio de data centers.
Na segunda-feira (28), o presidente Lula antecipou que haverá um mapeamento de todas as riquezas contidas no solo e no subsolo do território nacional. “Ora, se eu nem conheço esse minério, e ele já é crítico, eu vou pegar ele para mim. Por que que eu vou deixar para outro pegar?”, questionou o petista, durante a inauguração da usina termelétrica UTE GNA II, no Porto do Açu (RJ).
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Segundo Lula, o levantamento será feito por meio de uma parceria, a partir do estabelecimento de uma “comissão ultraespecial”, dada a relevância da questão. Estima-se que o Brasil detenha até 23% das reservas conhecidas de terras raras no mundo.
Chantagens tarifárias
Às vésperas da entrada em vigor do tarifaço desproporcional determinado pelo presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, sobre produtos brasileiros, jornais como o Wall Street Journal e o Financial Times expuseram a crescente pressão do Pentágono e do Departamento de Energia dos EUA sobre mineradoras brasileiras para firmarem acordos bilaterais de fornecimento exclusivo de terras raras.
O encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, manifestou o interesse estadunidense nos minerais críticos e estratégicos brasileiros, em reunião pedida por ele com o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade privada que representa as empresas do setor.
O professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), argumentou que, nas negociações com Trump, a diplomacia brasileira não pode permitir que as chantagens tarifárias se transformem em ingerência nos assuntos internos do país.
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“A gente precisa traçar uma linha vermelha, entre o que é essa ingerência política, e isso é inaceitável, daquilo que é relação comercial”, resumiu Trevisan, quatro dias atrás, durante entrevista ao UOL.
Em vídeo publicado no YouTube, o economista marxista Richard D. Wolff, professor emérito na Universidade de Massachusetts Amherst, decifrou quem paga pelo tarifaço de Trump, a própria população estadunidense, enquanto a administração republicana bate recorde de arrecadação de impostos.
Terras raras
A demanda por elementos como terras raras deve crescer 1,5 mil por cento até 2050, conforme relatório divulgado pela Unctad, a agência de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU). Esse índice está muito acima daquilo que a produção global consegue dar conta no momento.
Os minerais críticos também são a base da transição energética global e, por conta disso, tornaram-se alvo de interesses geopolíticos bilionários, de disputas territoriais e de estratégias de poder, especialmente entre as duas maiores potências econômicas do mundo, EUA e China. O gigante asiático, principal parceiro comercial do Brasil, está presente hoje em toda a América Latina.
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Defesa da soberania nacional
Para salvaguardar o patrimônio nacional e garantir que o desenvolvimento do país seja pautado pelos próprios interesses soberanos, o Brasil desenvolve o Plano Nacional de Mineração (PNM), ferramenta estratégica que norteia as políticas de médio e longo prazo para que o setor mineral seja alicerce da transição sustentável.
No Congresso Nacional, o líder da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara, deputado federal Reginaldo Lopes (MG), propôs a criação da Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras e Minerais Críticos Estratégicos. Lopes apresentou requerimento à presidência da Casa na segunda-feira.
“Já passou da hora do poder público tratar com a devida seriedade e prioridade o debate e ações sobre o tema. A Câmara dos Deputados tem função estratégica nesta articulação, principalmente no que se refere a criação de uma legislação eficiente e atualizada sobre uma nova mineração sustentável e soberana”, publicou o parlamentar, na rede social X.
PTNacional, com informações de Ministério de Minas e Energia, Wall Street Journal, Financial Times, UOL, G1, Brasil 247 e BBC Brasil