Os conservadores e a extrema-direita avançam na Alemanha. O resultado da votação para o Parlamento alemão, segundo pesquisas de boca de urna divulgadas na tarde deste domingo 23, passa longe de ser imprevisível.
A derrocada paulatina do governo do social-democrata Olaf Scholz abriu espaço para a volta da União Democrata Cristã (CDU), agora mais conservadora, ao poder. E a intensificação da presença da Alternativa para a Alemanha (AfD)- apoiada por ideólogos como o empresário Elon Musk – no imaginário político da complexa sociedade alemã vinha se mostrando latente.
A eleição que serviu para definir o Parlamento alemão é apenas um passo no processo de composição do poder a governar o país europeu. Agora, lideranças e interlocutores terão que negociar para formar uma maioria capaz de conceber e dar estabilidade ao futuro governo. O nome mais provável para substituir Scholz é o Friedrich Merz, um longínquo quadro da CDU que ficou mais forte no partido ao radicalizar com a ex-chanceler Angela Merkel.
Imigração e crise econômica: esteira para o discurso conservador
As siglas vitoriosas – a UCD teve cerca de 29% dos votos, enquanto a AfD levou cerca de 20% da votação – conseguiram captar parte significativa do eleitorado alemão pelo manejo que fizeram do discurso contra as condições sociais e econômicas do país.
A campanha foi intensamente marcada por temas como imigração e crise econômica. Antecipada em sete meses por conta do colapso da coalizão de três partidos que sustentavam o governo Scholz, a eleição aconteceu no momento em que a Alemanha corre o risco de enfrentar a pior crise desde a sua reunificação, em 1990.
Há vários fatores que explicam o estado atual da economia alemã. Um deles é o leque de problemas que o corte de fornecimento de gás natural da Rússia para a Europa trouxe para a principal economia do continente. Ao tratar desse ponto, em específico, a opinião pública na Alemanha se voltou contra a decisão de Merkel, ainda em 2011, de reduzir o uso de energia nuclear e ampliar o fornecimento das fontes russas. Agora, com o bloqueio forçado pela guerra entre Rússia e Ucrânia, os preços do gás e da eletricidade gerada a partir do gás disparam.
Outra dor de cabeça para o setor produtivo alemão é a acentuada queda da produção industrial. Antes conhecida como a “locomotiva da Europa”, a indústria alemã viu a sua produção cair em 16% na comparação com o seu pico, em 2017, segundo a Federação das Indústrias Alemãs (BDI, na sigla em alemão). Só no setor de energia intensiva, a queda é de cerca de 25%.
Com isso, o PIB alemão vem tendo desempenhos tímidos nos últimos anos: crescimentos de 0,3% e 0,1% em 2024 (este, segundo estimativas). O pouco investimento em infraestrutura digital e a alta carga burocrática ajudaram a estancar a indústria do país.
Se esses já são motivos suficientes para uma insatisfação social generalizada, a Alemanha também tem que lidar com um tema sempre espinhoso na Europa: a imigração. Mais uma vez, Merkel voltou a ser cobrada, quando a opinião pública do lembrou (com amargor) a sua decisão de abrir as portas da Alemanha para os refugiados da guerra na Síria, em 2015, dando um passo contrário àquele dado por outras potências europeias.
De lá para cá, milhões de pessoas chegaram ao país, batendo recordes. Sem ‘boas-vindas’, porém. A aceitação da sociedade alemã em relação aos imigrantes, de um modo geral, caiu. Para medir esse fenômeno, o país possui um Índice de Aceitação da Imigração, elaborado pelo instituto de pesquisas Gallup. Para se ter uma idéia, o índice era de 7,1 em 2016. Já em 2023, o valor caiu para 6,4.
Direita mais conservadora
A chegada da CDU ao poder não é nenhuma novidade, já que a sigla é uma das mais tradicionais da política alemã. Agora, porém, o fato da vitória ter sido conquistada por Merz diz muito sobre a mudança de perfil do partido, majoritariamente. Ao contrário de Merkel, Merz é um franco opositor da política de fronteiras mais abertas, assim como já criticou o fechamento de usinas nucleares promovido pela ex-chanceler.
Esse discurso não é tão purista. Ciente do crescimento da AfD, Merz fez uma campanha ciente de que a aproximação explícita com a extrema-direita seria um risco, mas, diante das circunstâncias, tentou agradar parte do eleitorado fazendo acenos a um programa pouco simpático à imigração.
Ele já prometeu restringir benefícios e transferências de renda para pessoas que pedem asilo à Alemanha. Já para aqueles que têm asilo, a CDU não quer permitir que tragam as suas famílias para dentro das fronteiras do país.
Sóbrio e dono de uma oratória polida, Merz se viu na iminência de chegar ao poder com a derrocada do governo Scholz. Foi essa a oportunidade que o representante viu para, em janeiro deste ano, apresentar uma moção não vinculativa sobre regras de imigração mais rígidas.
Extrema-direita: do impensável à segunda maior força do Parlamento
Não é de agora que a extrema-direita vem se fortalecendo na Europa. Exemplos vindos da Hungria, dos Países Baixos e da Itália são alguns dos mais importantes. Na Alemanha, a questão é especialmente sensível, dado os horrores do Holocausto promovido por Adolf Hitler na II Guerra Mundial e as décadas de trabalho para fortalecimento da memória contra o nazismo.
Entretanto, os rumos da mudança que levaram o país a colocar abaixo o Muro de Berlim em 1989 foram dando voltas mais imprevisíveis nas últimas décadas, guiados pelas demandas de novas gerações.
Liderada pela deputada Alice Weidel, uma ex-analista de investimentos que tenta dar uma nova marca à sisudez da extrema-direita, a AfD chegou a mais de um quinto dos votos no pleito deste domingo 23. A votação é duas vezes maior do que a obtida na eleição de 2021, segundo as projeções, sendo a mais expressiva da extrema-direita desde o fim da II Guerra.
Não é de espantar, assim, que as manchetes dos principais jornais alemães contem a história da eleição deste ano tendo como carro-chefe o desempenho da AfD, tanto quanto a vitória da CDU e a queda dos social-democratas.
Em termos de comparação, a AfD não passou dos 5% dos votos na sua primeira empreitada eleitoral rumo ao Parlamento, em 2013. Em 2017, a sigla saltou para 12% dos votos, mas a subida foi interrompida em 2021. Agora, o que se nota é que a eleição anterior foi mais uma exceção do que regra na trajetória da extrema-direita alemã.