O líder do Governo na Câmara dos Deputados, o deputado José Guimarães (PT-CE), publicou um artigo intitulado A política externa do governo Lula na reconstrução do Brasil, defendendo a tese de que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, teria transformado a 19ª Reunião de Cúpula de chefes de Estado, realizada no Rio de Janeiro, num fórum de debates e decisões de alto nível, sobre os problemas emergenciais da humanidade.
“As pautas de cúpulas anteriores, centradas no sistema financeiro, deram lugar a debates, decisões e compromissos dos chefes de Estados, de investir no desenvolvimento sustentável e enfrentar os desafios das mudanças climáticas, erradicar a fome e a pobreza, promover a justiça social, ambiental, e a paz entre as nações.”
É digno de nota que poucos dias após se reunirem no Rio de Janeiro, os mesmos amigos dedicados a darem as mãos pela “paz entre as nações” se engalfinharam para discutir um tema como o clima. Em Baku, capital do Azerbaijão, ao tratarem da conta da tal “transição energética” e aí sim, uma questão política, ficou evidente a inutilidade da 19ª Cúpula do G20 e também, que petistas como Guimarães e a própria diplomacia brasileira estão em um estado de alienação com a realidade do mundo que beira a patologia.
O que se desenha para o planeta, cada vez mais, longe de um acordo de alto nível entre as nações, é uma guerra de grandes proporções, a maior desde a Segunda Grande Guerra, entre os países desenvolvidos e os países atrasados, dos quais Rússia, China e Irã são os mais destacados. Em “tempos de guerra”, como destacou o almirante holandês e presidente do comitê militar da OTAN Rob Bauer, onde a crise imperialista empurra o mundo para um ponto de inflexão histórica, nada mais desprovido de razão do que falar em “paz entre as nações”. Guimarães, no entanto, continua:
“Sob a liderança do Presidente Lula, o Brasil demonstrou sua importância política na geopolítica internacional ao lado dos mais desenvolvidos países do mundo. Momento em que nossa diplomacia foi reconhecida pela capacidade política, eficiência na condução dos trabalhos, na mobilização das assessorias dos respectivos países membros e convidados, e de comparecimento do maior número de chefes de Estado em cúpulas do G20, desde sua criação. Prestígio esse que ficará na moldura da nossa história.”
A política externa de Lula, em especial sua atuação no G20, não é outra coisa senão uma tentativa de embelezar a criminosa política imperialista. O presidente brasileiro tem utilizado o seu prestígio como líder popular para reabilitar figuras políticas falidas como Joe Biden, Emmanuel Macron, Keir Starmer, Olaf Scholz e outros representantes dos países imperialistas.
Esses líderes, atolados em crises internas e com popularidade em frangalhos, se apresentam como grandes democratas e defensores de causas nobres, enquanto patrocinam guerras, destruição ambiental e exploração de países atrasados, uma mentira para a qual a capitulação de Lula é fundamental.
Longe de afirmar a relevância política do Brasil no cenário internacional, o que a política externa de Lula conseguiu, sobretudo no G20, foi demonstrar a total submissão do País ao imperialismo. Essa postura não o alinha com as nações oprimidas, mas o transforma em um instrumento de opressão contra nossos vizinhos e aliados potenciais.
O artigo do deputado José Guimarães evidencia esse descompasso entre a realidade e a fantasia que vive a direção petista. Ao declarar que o Brasil “demonstrou sua importância política” ao lado dos países mais desenvolvidos do mundo, o parlamentar ignora que esses mesmos países, na prática, veem o Brasil apenas como uma peça útil no tabuleiro de suas disputas hegemônicas.
O G20 foi um espetáculo vazio. Nenhuma resolução concreta foi tomada para lidar com a luta política necessária para enfrentar os desafios que ele menciona, em especial a erradicação da pobreza. Tudo não passou de retórica oca, enquanto, dias depois, os próprios participantes do encontro expuseram suas contradições na COP29.
A declaração final de Guimarães, enaltecendo a “moldura da história” da diplomacia brasileira sob Lula, não é apenas oportunista, mas profundamente alienada. Num momento em que o mundo caminha para um conflito de proporções inéditas desde a Segunda Guerra Mundial, com a escalada de tensões entre países desenvolvidos e nações atrasadas como Rússia e China, a política externa de Lula enfraquece o Brasil e o bloco dos países oprimidos. Em vez de construir uma aliança sólida com parceiros históricos, Lula se associou aos algozes da humanidade. A moldura da história que Guimarães celebra será, na verdade, uma crônica de submissão e fracasso estratégico para o Brasil.