O Brasil encerrou o ano de 2024 com o menor nível de pobreza já registrado desde o início da série histórica do indicador, em 2012: 8,6 milhões de pessoas deixaram a pobreza entre 2023 e 2024, enquanto a pobreza extrema recuou de 4,4% para 3,5% no mesmo período.
A Síntese de Indicadores Sociais (SIS) divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) reafirma uma tendência de melhora iniciada após o choque inflacionário e de renda provocado pela pandemia — mas o relatório também acende alertas importantes: a redução não atinge os brasileiros de maneira homogênea e as velhas desigualdades seguem profundamente enraizadas.
Melhora consistente, mas frágil
Os dados do IBGE mostram que a taxa de pobreza no país caiu de 27,3% em 2023 para 23,1% em 2024 — o menor patamar já registrado pelo instituto, enquanto a extrema pobreza também apresenta recuo contínuo desde 2022.
A combinação entre recomposição do mercado de trabalho, programas de transferência de renda fortalecidos e alta formalização em alguns setores ajudou a criar um colchão de proteção.
Entretanto, o estudo destaca que, se os benefícios sociais fossem removidos, a pobreza geral subiria para 28,7% e a extrema pobreza saltaria para 10%.
Ou seja: a forte influência dos programas sociais nos indicadores — especialmente o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e as aposentadorias — deixa claro que a melhora não é espontânea: ela depende de política pública ativa e contínua.
O relatório do IBGE, ao destacar o impacto dos programas, envia um recado direto aos formuladores de políticas: retirar o suporte prematuramente pode levar o país de volta aos piores níveis já observados, como em 2021, quando a pobreza atingiu 36,8% da população.
Desigualdades raciais, de gênero e ocupacionais
Mesmo com os avanços, os dados reiteram que a pobreza não é distribuída de forma igual no território brasileiro.
Entre pessoas pretas e pardas, a pobreza atinge 25,8% e 29,8%, respectivamente. Entre pessoas brancas, o índice cai para 15,1%.
Mulheres seguem mais atingidas que homens, tanto na pobreza absoluta quanto na extrema, enquanto os trabalhadores mais vulneráveis — sem carteira assinada, informais, diaristas, e empregados domésticos — continuam entre os mais afetados.
Na agropecuária e nos serviços domésticos, as taxas de pobreza alcançam os níveis mais altos do país.
Um piso social mais forte, mas ainda distante do ideal
A trajetória de queda é positiva e mostra que o Brasil está reconstruindo seu piso de proteção. No entanto, a desigualdade estrutural permanece como elemento central da agenda pública. A melhora nos indicadores é real, mas ainda frágil — e depende de manutenção de renda, mercado de trabalho aquecido e políticas permanentes de redistribuição.
No fim das contas, o que os dados do IBGE mostram é que o país anda, mas continua carregando históricos diferentes para grupos diferentes. E sem política pública, o avanço perde fôlego.