Não existe caminho igual entre homens e mulheres. Nós percorremos sempre um trajeto mais árduo e carregado de preconceitos. Segundo o IBGE, mesmo representando 51,8% da população brasileira, ocupamos apenas 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 16% no Senado. Nossos salários são, em média, 22% menores que os dos homens, e nossa competência é constantemente questionada. A luta feminista não é um capricho: é um movimento por justiça, que avança lentamente contra um sistema patriarcal que nos silencia e nos descarta. Na véspera do 8 de Março, trago uma reflexão urgente sobre mulheres, poder e saúde pública.

A substituição de Nísia Trindade no Ministério da Saúde não é um fato isolado. Ela é a terceira mulher trocada no alto escalão do governo, somando-se aos ataques misóginos contra a primeira-dama Janja e ao caso de assédio sofrido pela ministra Anielle Franco.

Quero reiterar para a ministra Nísia Trindade o papel fundamental dela na defesa da saúde pública e no enfrentamento às pressões políticas. É direito do presidente Lula fazer trocas de seus ministérios, mas não pode ser o direito que as mulheres sejam colocadas em primeiro plano quando se fala de mudanças de gestão. Eu quero dizer, em alto e bom som, que nós mulheres não vamos recuar. Todo Governo tem o direito de montar sua equipe, mas deve respeitar a parcela de mais de 50% da população composta de mulheres.

Portanto, fica aqui o reconhecimento, a solidariedade, a amizade e principalmente o respeito pela sua pessoa por aceitar essa grandiosa missão para recuperar a credibilidade da gestão da saúde pública no nosso país.

Quero ressaltar o papel que o Ministério da Saúde teve aqui nos últimos anos, sobretudo na reconstrução da política pública, na defesa do SUS e na valorização das categorias que estão na linha de frente, como os enfermeiros e as enfermeiras, que tiveram, no Governo Lula, o piso nacional da enfermagem respeitado. Os 5.569 Municípios deste País podem dizer que o Governo Federal esteve presente, atuando, com a volta do Mais Médicos, com a volta da Farmácia Popular, como foi dito no pronunciamento do Presidente Lula.

A sub-representação feminina na política não é acidental. É fruto de um sistema eleitoral que favorece candidatos homens, com maior acesso a recursos e redes de influência. Enquanto isso, as mulheres enfrentam violência política, assédio e a cruel descrença em sua capacidade de liderar. O resultado? Um déficit democrático: como podem as instituições representar a sociedade se metade da população é invisibilizada?

A solução está na Lei de Paridade de Gênero nas Eleições, que garante a igualdade de candidaturas entre homens e mulheres. Países como França e México já adotaram medidas similares, elevando a participação feminina em seus parlamentos para mais de 40%. No Brasil, essa lei não é apenas justa: é estratégica. Estudos do Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (PNUD) mostram que a presença de mulheres no legislativo fortalece políticas públicas em saúde, educação e combate à violência doméstica — áreas vitais para o desenvolvimento nacional.

Defender a paridade de gênero não é pedir privilégios, mas exigir o cumprimento de um princípio constitucional: a igualdade. Se somos maioria na população, devemos ser maioria nas candidaturas, nas cadeiras parlamentares e nos ministérios. A sub-representação feminina corrompe a essência da democracia, pois distorce a voz das ruas e perpetua políticas que ignoram nossas necessidades.

A aprovação da Lei de Paridade não é um gesto simbólico. É um passo concreto para desmontar estruturas seculares de exclusão. Mulheres no poder significam políticas para mães solo, vítimas de violência, profissionais subvalorizadas. Significam um SUS mais forte, escolas mais inclusivas, cidades mais seguras.

Àqueles que resistem à proposta, pergunto: têm medo de quê? De um Congresso que espelhe a sociedade? De um governo que escute todas as vozes? O Brasil não pode mais esperar. Chega de hesitar: é hora de ter coragem legislativa para transformar a política em um espaço onde todas e todos possam, finalmente, caminhar com igualdade.

Paridade já! Por um Brasil onde nenhuma mulher precise, no futuro, escrever artigos como este.

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Last Update: 28/02/2025