Operação Carbono Oculto desmonta os mitos econômicos do Lavajatismo
Por Luís Eduardo Fernandes

Os primeiros resultados da Operação Carbono Oculto são expressivos, mas, como em qualquer grande ação, exigem prudência na avaliação de seus efeitos e desdobramentos. Até aqui, a operação já alcança 350 pessoas e empresas em oito estados (SP, ES, GO, MS, MT, PR, RJ e SC), com tributos sonegados que ultrapassam R$ 7,5 bilhões.
Os alvos são suspeitos de fraude fiscal, lavagem de dinheiro, estelionato, adulteração de combustíveis, crimes ambientais e contra a ordem econômica. Segundo a Receita Federal, cerca de mil postos ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, gerando autuações de R$ 890 milhões.
As irregularidades abrangem toda a cadeia de combustíveis — importação, produção, distribuição e comercialização — além da ocultação de patrimônio. Uma fintech que funcionava como banco paralelo movimentou sozinha R$ 46 bilhões fora do radar oficial. A facção também administrava ao menos 40 fundos de investimento, somando R$ 30 bilhões em patrimônio.
Mais do que descrever esses números e possíveis desdobramentos, este texto propõe uma reflexão: o contraste entre o combate ao crime organizado revelado pela Operação Carbono Oculto e a lógica lavajatista que ainda marca instituições, mídia e a vida política nacional.
O lavajatismo: quando o inimigo é o Estado, a política e o servidor público
Para além de intenções políticas ou de ganhos pessoais, ao tratarem Lula e o PT como chefes de uma “organização criminosa”, os agentes da Lava Jato expressavam uma visão específica de combate à corrupção e ao crime organizado. Uma visão marcada por seletividade: o setor financeiro — peça-chave na lavagem de dinheiro de propinas e no financiamento ilegal de campanhas — foi um dos poucos poupados pela operação.
Sustentamos que o lavajatismo bebeu, de forma acrítica, em teorias importadas da academia estadunidense, como a “escolha pública” e o “rent-seeking”, ambas em sintonia com o ultraliberalismo.
A teoria da escolha pública, formulada entre os anos 1940 e 1960, transfere para a política o individualismo metodológico da economia neoclássica. Parte do pressuposto de um indivíduo egoísta, orientado pelo cálculo racional de maximizar benefícios e reduzir riscos. Nessa lógica, o mercado autorregulado é visto como ápice da evolução social, enquanto o Estado aparece como fonte de distorções.
Autores como Anthony Downs (1957) e Mancur Olson (1965) aplicaram esse raciocínio a eleições e sindicatos. Downs comparava partidos a grandes empresas em disputa por consumidores-eleitores. Olson, ao analisar sindicatos, concluiu que ações coletivas só se sustentariam mediante incentivos materiais ou coerção. Em sua visão, a democracia liberal favorece pequenos grupos poderosos, enquanto a maioria permanece dispersa.
Essa leitura ganha força nos anos 1970, no contexto de crítica ao pacto fordista-keynesiano e de reestruturação imperialista nas periferias. Olson, Tullock (1967) e Krueger (1974) argumentavam que a arena política se reduzia a uma disputa por rendas do Estado: salários, subsídios, monopólios e direitos sociais. Krueger, então economista-chefe do Banco Mundial, denunciava políticas protecionistas em países subdesenvolvidos como fontes de “corrupção estrutural” e de ineficiência de mercado.
Assim, segundo essa concepção, o problema da corrupção e do “crime organizado” não estariam nos mercados, mas no próprio Estado. A conclusão é clara: combater a corrupção significaria atacar monopólios públicos, limitar intervenções estatais e impor reformas liberalizantes. Essa lógica se materializou, especialmente na periferia do capitalismo, no Consenso de Washington: abertura comercial, privatizações, desregulamentação do trabalho e do sistema financeiro.
Em outras palavras, o lavajatismo não foi apenas uma operação judicial: foi a tradução local de uma ideologia que transforma o Estado, a política e o servidor público nos verdadeiros inimigos.
Capitalismo, neoliberalismo e crime organizado: uma anomalia?
Até mesmo no mainstream, já se reconhece a dimensão de “policrise” do capitalismo contemporâneo. O Relatório Global de Riscos 2023, publicado pelo Fórum Econômico Mundial (organizador do encontro de Davos), usou o termo para descrever a interligação entre crises econômicas, sociais, ambientais e políticas.
A chamada “globalização” reorganizou a economia em escala mundial, com empresas cada vez mais desterritorializadas. A financeirização representa o auge desse processo: máxima liberdade para os capitais, formação de conglomerados gigantes e concentração de poder em poucos pólos, ao tentar manter a hegemonia do norte global. Em linhas gerais:
- Wall Street e a City londrina controlam a gestão dos ativos globais;
- China e Ásia se tornaram o grande centro da produção;
- Paraísos fiscais concentram a apropriação dos resultados.
Esse tripé garante o domínio imperialista do norte global: exploração, apropriação e expropriação de riquezas. A sobreacumulação de capitais na esfera financeira torna lavagem de dinheiro e sonegação de impostos peças centrais para manter a rentabilidade e acelerar a rotação do capital.
O tráfico de armas, drogas, pessoas, a biopirataria e a grilagem de terras indígenas, camponesas e quilombolas deixaram de ser práticas ilegais dispersas: tornaram-se atividades conglomeradas e transnacionais, articuladas diretamente ao sistema financeiro. Fintechs e criptomoedas, sob o manto da inovação, operam como plataformas centrais para a lavagem de capitais e a multiplicação de lucros. Não se trata de mera infiltração, mas de uma simbiose estrutural entre crime organizado e finanças globais.
O “crime organizado” de hoje, como exemplifica o PCC, opera como um oligopólio transnacionalizado. Não atua apenas para ocultar recursos, mas para multiplicá-los. Esse poder econômico retroalimenta sua influência no sistema político e no sistema de justiça.
Aqui cabe o uso da metáfora de Marx e Engels contra os hegelianos de esquerda: é a base econômica que condiciona a superestrutura jurídica e política. O crime organizado, no capitalismo, é uma atividade econômica. E ao se oligopolizar, transnacionalizar e financeirizar, molda diretamente o poder estatal.
No Brasil, o quadro é agravado pela dependência estrutural: desindustrialização, reprimarização, precarização do trabalho, queda da complexidade produtiva e domínio da acumulação predominantemente financeira.
Assim, a luta contra o crime organizado não pode ser reduzida a operações policiais espetaculares ou a narrativas moralistas. Trata-se, antes, de enfrentar as bases materiais que o alimentam: a financeirização, a dependência e a fragilidade do desenvolvimento nacional. O lavajatismo, ao criminalizar a política e demonizar o Estado enquanto absolve o sistema financeiro, cumpre o papel oposto: naturaliza a ordem vigente e abre caminho para a consolidação dos verdadeiros oligopólios criminosos, aqueles que operam no coração do capitalismo financeirizado.
Luís Eduardo Fernandes é professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro “A Internacional da Lava Jato” (2024).
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