Negar vistos a representantes palestinos é negar a essência da ONU como espaço de diálogo, inclusão e busca pela justiça internacional


A recente decisão do governo dos Estados Unidos de negar vistos a autoridades palestinas, às vésperas da crucial Assembleia Geral da ONU, é mais do que um ato de política externa. É um ataque direto à própria essência da comunidade internacional. Ao usar sua posição como nação anfitriã da Organização das Nações Unidas de forma seletiva e punitiva, os EUA não apenas traem o espírito que rege a cooperação global, mas demonstram, de maneira inequívoca, que perderam as condições morais, cognitivas e geopolíticas para liderar ou mesmo sediar este fórum fundamental.

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A atitude do governo norte-americano, comunicada friamente pelo Departamento de Estado, revela uma dissonância alarmante. Enquanto o mundo se mobiliza para discutir a crise humanitária em Gaza e as reivindicações históricas do povo palestino, Washington decide fechar suas portas. A justificativa, que acusa as lideranças palestinas de “não repudiar consistentemente atos de violência”, é uma cortina de fumaça. A real intenção é silenciar uma voz dissidente, impedir que a causa palestina ganhe força no palco diplomático mais importante do mundo.

O cinismo da Casa Branca atinge seu auge quando se observa o contraste. Enquanto autoridades palestinas que buscam justiça no Tribunal Penal Internacional e no Tribunal Internacional de Justiça são barradas, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também procurado pelo TPI, é esperado em Nova York sem qualquer restrição. Essa dupla moral escancara a lógica unilateral que domina a política externa dos EUA. Para Washington, a lei e a ordem internacional só se aplicam quando convêm a seus interesses, nunca quando os expõem ou contrariam.

Esta não é a primeira vez que os EUA utilizam sua posição de anfitrião para fins políticos. A história já registrou a recusa de entrada a Yasser Arafat em 1988 e a Omar al-Bashir em 2013. No entanto, o contexto atual é particularmente grave. As acusações da Autoridade Palestina e da OLP de crimes de guerra e genocídio cometidos por Israel em Gaza — respaldadas por especialistas da ONU — colocam a diplomacia internacional à prova. A tentativa de impedir a participação palestina em um debate que pode ser decisivo para seu futuro e para a paz no Oriente Médio é, em última análise, uma tentativa de sabotar a busca por justiça e a responsabilização de um de seus principais aliados.

A negação de vistos a representantes legítimos da Palestina é um sintoma claro de uma doença mais profunda: a incapacidade dos EUA de se desvencilhar de seus próprios preconceitos e interesses para agir em nome do bem comum global. A postura de “responsabilizar” a Palestina, ao mesmo tempo em que ignora as violações sistemáticas de direitos humanos e as acusações de genocídio em Gaza, é uma afronta à lógica e à moralidade. Washington não está promovendo a paz; está, na verdade, validando a violência e a injustiça ao calar as vítimas.

O tempo da complacência internacional acabou. Não se pode aceitar que a sede da maior organização global de paz e cooperação seja refém dos caprichos políticos e da seletividade de um único país. A comunidade internacional deve reagir a este ato de prepotência. Não basta lamentar; é preciso agir. A única resposta à altura da atitude norte-americana é transferir a sede da Organização das Nações Unidas para outro país, de preferência na Ásia, onde o multilateralismo e a busca por um novo equilíbrio geopolítico ganham cada vez mais força. Cidades como Xangai ou Pequim seriam excelentes opções, não apenas por sua importância crescente no cenário global, mas por simbolizarem uma nova era, longe da hegemonia e da moralidade seletiva do Ocidente.

Mudar a sede da ONU não seria um mero ato simbólico. Seria um ato definitivo de que o mundo não aceita mais ser pautado pela arrogância e pelo desrespeito de uma potência que perdeu seu rumo ético. Seria a reafirmação de que a ONU é uma organização de todos os povos, e não uma extensão da política externa dos Estados Unidos. O mundo clama por uma liderança que não use o direito de anfitrião para silenciar os oprimidos. O mundo clama por uma sede que seja, de fato, a casa de todas as nações, e não apenas daquelas que convêm a Washington.

Com informações da equipe da Al Jazeera*

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Last Update: 30/08/2025