O risco da conivência midiática com o bolsonarismo

por Gustavo Tapioca

O desabafo da jornalista Mariluce Moura é um chamado à lucidez. O bolsonarismo não é “um lado” legítimo na democracia, mas uma arma apontada contra ela. Ao insistir em tratá-lo como mera divergência política, a mídia hegemônica repete erros históricos que já custaram caro à humanidade.

Na mesma página em que Juca Kfouri advertia sobre o risco da conivência midiática com o bolsonarismo, o diretor de opinião da Folha de S. Paulo (FSP), Gustavo Patu, defendia o oposto. Segundo ele, o jornal acerta em dar espaço ao discurso bolsonarista, porque “sem ouvir todos os lados, jornalismo seria bolha”.

É justamente aí que está o erro trágico. Como lembrou Mariluce Moura em seu texto publicado no Facebook ao comentar o artigo de Kfouri: não se trata de “ouvir todos os lados” indistintamente. O que está em risco não é uma diferença legítima de opinião sobre política econômica, tributária ou ambiental.

O bolsonarismo não é um partido dentro das regras democráticas — é um projeto permanente de erosão das instituições, de ataque ao Judiciário, de ódio às minorias, de submissão da soberania nacional a interesses externos, de conspiração continuada a tentar contra o Estado Democrático de Direito, de afronta permanmente à Democracia.

Transformá-lo em “um lado” legítimo significa naturalizar a violência e a ameaça de golpe. É um falso equilíbrio que, longe de fortalecer a democracia, mina suas bases. É o mesmo equívoco que a imprensa europeia dos anos 1930 cometeu ao tratar Hitler e Mussolini como vozes legítimas de um debate civilizado, até que fosse tarde demais.

Ecos dos anos de chumbo

O desabafo de Mariluce carrega um peso histórico singular. Não é apenas a memória coletiva da ditadura que se manifesta. É também a memória pessoal de quem sofreu na própria pele os horrores daquele período. Em 1972, grávida de dois meses, Mariluce foi sequestrada em frente ao Elevador Lacerda, em Salvador, e presa pela repressão junto com o marido, o militante Gildo Lacerda.

Permaneceu seis meses encarcerada e saiu com vida marcada pelas sombras daquele tempo. Gildo não teve a mesma sorte. Foi barbaramente assassinado sob tortura. Mais uma das centenas de vítimas da engrenagem criminosa da ditadura militar de 1964-1985.

É a partir dessa experiência que ela olha para o presente. Ao evocar as ameaças atuais, não fala em abstrações. Suas palavras são atravessadas pela memória de um Estado que perseguiu, mutilou e matou para sustentar um projeto autoritário, sempre em aliança com interesses estrangeiros. Daí a força de seu alerta. Ela sabe do que fala.

A atualização da velha ingerência

Mariluce lembra ainda a estreita ligação entre o imperialismo estadunidense e a ditadura brasileira, evidência histórica que hoje ressurge em novas formas. A submissão de setores da extrema-direita brasileira aos ditames de Donald Trump e seus aliados repete o velho padrão. Elites locais funcionando como correias de transmissão de interesses externos, enquanto minam a democracia e a soberania nacional.

O fantasma dos anos de chumbo, portanto, não é passado remoto. Ele se reatualiza em práticas contemporâneas de guerra híbrida, fake news e cooperação internacional entre grupos de extrema-direita.

O faz-de-conta da mídia

A denúncia de Mariluce e de Juca Kfouri vai além da Folha. Ela atinge toda a mídia hegemônica que insiste em chamar de “pluralidade” a concessão de espaço a vozes que trabalham, dia após dia, pela destruição da democracia. Não é liberdade de expressão quando se defende a censura, a violência e o golpe de Estado. Não é jornalismo quando se dá microfone ao negacionismo, ao ódio, à mentira sistemática, a chantagem.

Trata-se de cumplicidade, mesmo que travestida de virtude profissional. Ao legitimar os golpistas como “interlocutores válidos”, a imprensa se torna parte da engrenagem que fragiliza a democracia e abre caminho para a barbárie.

Um chamado à resistência democrática

O texto de Mariluce traz  um advertência.   Precisamos de clareza, inteligência e união para defender a democracia. Mas ela mesma reconhece o ceticismo em relação à eficácia desse chamado. Afinal, quantas vezes a história já mostrou que alertas foram ignorados até que fosse tarde demais?

Seja nos anos 1930 na Europa, seja em 1964 no Brasil, sempre houve quem dissesse “é só mais um lado”. Sempre houve quem confundisse pluralidade com conivência. E sempre houve quem pagasse caro pela ilusão da neutralidade.

O momento exige romper esse ciclo. Exige que jornalistas, intelectuais e cidadãos compreendam que a democracia não se defende passivamente. É preciso nomear o bolsonarismo pelo que ele é: uma ameaça fascista estrutural, não um interlocutor democrático.

Abrir os olhos é o primeiro passo diz Mariluce ao concordar com Juca Kfouri no artigo por ele publicado no sábado, 23, na FSP. O segundo passo é recusar o faz-de-conta que normaliza o fascismo sob a capa de liberdade de expressão. O terceiro é agir coletivamente, sem ingenuidade, para preservar aquilo que ainda temos: a chance de impedir que a história se repita, como tentou o 8 de janeiro — o dia que não acabou, anunciando que outras tentativas viriam, como já ocorreram e que vão cotinuar a se repetir.

Pouco antes do ponto final do artigo “Abre os olhos, Folha“, Juca Kfouri responde com um NÃO enfático e definitivo à pergunta “a Folha acerta em dar voz ao Bolsonarismo?”. E lembrou de um ensinamento de Millor Fernandes:

“Quem se curva diante dos opressores mostra o traseiro para os oprimidos”. 

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As três vítimas da ditadura militar citadas no artigo acima:

Mariluce Moura, 74 anos, é jornalista, pesquisadora e professora doutora aposentada da UFBA (reintegrada pela Comissão da Anistia em 2015, 40 anos após a demissão por perseguição política da ditadura). É autora de “A revolta das vísceras  e outros textos”,  e está à frente do projeto do documentário “Operação Cacau”, já  em curso,  sobre o assassinato de Gildo Macedo Lacerda, seu marido, e de outros seis militantes da Ação Popular (APML),  entre outubro de 1973 e fevereiro de 1974.

Tessa Moura Lacerda, a menininha que sobreviveu à tortura protegida no útero da Mariluce tem hoje, 51 anos, é professora doutora de filosofia  da Universidade  de São Paulo (USP). É especialista em Filosofia Moderna, com estudos aprofundados sobre Leibniz. Autora de “Pela memória de um paí[s]: Gildo Macedo Lacerda,  presente ” (Aretê,  2023) e de “A filosofia expressiva de Leibniz ” (Edusp, 2025). É mãe de Nara, Alice e Fabiano, netas e neto de Mariluce.

Gildo Macedo Lacerda, preso em Salvador em 22 de outubro de 1973, foi transportado para Recife três dias depois, torturado e assassinado no QG do IV Exército.  Morreu aos 24 anos, em 28 de outubro de 1973, data em que  completaria um ano de casamento com Mariluce. O corpo de Gildo jamais foi devolvido à família.


Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Last Update: 29/08/2025