Para a coluna desta semana me dediquei a elaborar o conceito de Cansaço ancestral, impossível tratar das nossas questões sem teorizar as dinâmicas que as envolvem.

Cansaço ancestral é o esgotamento que não começa em nós, mas que chega até nossos corpos como herança histórica. É o peso de séculos de resistência que se acumula nos ossos, na pele, na respiração — mesmo quando não há palavras para nomeá-lo. Não se trata apenas do cansaço das tarefas, mas da sobrecarga simbólica e afetiva de quem sempre precisou resistir para existir.

É o cansaço de mães que enterraram seus filhos e seguiram. De mulheres que foram vozes quando ninguém as escutava. De lideranças que sustentaram movimentos inteiros enquanto cozinhavam para a comunidade. É o acúmulo silencioso do “seja forte”, do “dê conta”, do “não desista agora”. É estar no presente com as dores do passado ainda marcando o passo.

O cansaço ancestral não é sinônimo de fraqueza, mas de profundidade. Ele revela que nossas dores não são individuais, e que nossos corpos carregam as memórias não curadas de quem veio antes. É político, espiritual e coletivo.

E, justamente por isso, exige que o cuidado com as mulheres negras não seja protocolar, nem emergencial, tem que ser constante, radical e amoroso.

Cuidar de uma mulher negra cansada é, também, cuidar de suas ancestrais. É interromper um ciclo de abandono institucionalizado. É reconhecer que a revolução precisa de descanso, de colo, de escuta — não como luxo, mas como reparação.

“Você conseguiu fechar aquele relatório até o fim do dia?”;

“Vamos alinhar melhor seus indicadores de impacto?”

“Estou num processo de escuta ativa, tentando reconhecer meus privilégios, sabe?”

Sabemos. A pergunta é: você vai ouvir mesmo, ou só quer que a gente pareça razoável enquanto vocês aprendem com calma?

Enquanto escrevo este texto, meu corpo me alerta: os ombros travados, a lombar implorando clemência, a vista cansada e o estômago avisando que o ativismo indigesto chegou à fase crônica. Chama-se burnout, mas entre mulheres ativistas, especialmente as negras, a gente chama de rotina.

Fico pensando se deveria abrir este artigo com um aviso: “Cuidado, contém doses elevadas de cansaço feminino”. Ou quem sabe: “Essa coluna foi escrita por uma mulher preta em modo de sobrevivência”. Mas temo que parecesse dramático demais para os padrões do LinkedIn.

A verdade é que nós, mulheres que lutam, estamos cansadas. Não é um cansaço fashion, desses que se resolve com banho de ervas, retiro em Trancoso e stories sobre autocuidado com skincare vegano. É um cansaço histórico, estrutural, interseccional. Um cansaço que não se cura, apenas se adia entre uma reunião de articulação política e um dossiê sobre genocídio.

Somos treinadas para dar conta de tudo, e depois ainda nos perguntam por que estamos exaustas. Como se não fosse evidente que o burnout é o nome chique para o que o racismo estrutural e o sexismo institucional sempre fizeram com a gente: nos queimar. E não no sentido espiritual, tipo incenso de limpeza, mas no literal — em praça pública, só que agora com pauta no Google Docs e reunião no Zoom.

Porque veja bem, quando uma mulher branca, rica, de blazer bege, diz que está “burnoutada“, ela vira capa de revista de negócios. Quando uma mulher preta, periférica, ativista, ousa dizer que está cansada, vem a patrulha: “Desistiu da luta?”, “Mas você era tão combativa…”, “Você precisa ser forte!”

Forte. Essa palavra que virou sentença. Esperam que sejamos fortes o tempo inteiro. Quando apanhamos da polícia. Quando enterramos os nossos. Quando escrevemos relatório para a ONU de madrugada, depois de lavar louça. Quando nos tornamos símbolos sem querer. Quando somos as únicas numa sala cheia de ternos que só nos enxergam quando precisam de foto para o relatório de diversidade.

E é sobre isso que bell hooks nos ensinou: “No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover contra a dominação”. Escolher o amor, nesse contexto, é escolher cuidar — não como concessão, mas como direito. Amor não é só afeto, é política.

Enquanto isso, o capital — sempre ele — descobre o burnout como uma nova oportunidade de mercado. Já temos aplicativos de meditação, cafés com slogans de empatia e empresas lançando “programas de bem-estar” que consistem basicamente em um colchonete e uma palestra sobre “gratidão corporativa”.

Não há gratidão possível em um sistema que explora nossas dores e lucra com nossa resistência. A conjuntura vive nos lembrando que a luta por justiça social é importante, desde que caiba no orçamento do mês. Que maravilha: agora temos metas, planilhas e deadlines para transformar o mundo.

Mas quem nos socorre quando tudo desaba?

Quando a ativista vira paciente, a sociedade fecha os olhos. O burnout das mulheres negras não rende manchete. Não vira documentário. Não comove editorial. Ninguém mobiliza financiamento para nos ouvir. Afinal, quem se importa com o cansaço de quem nasceu para aguentar?

Importa dizer: quando escrevo sobre esse cansaço, não estou falando de uma experiência exclusivamente pessoal ou ligada a um único espaço institucional. Estou falando de uma dor coletiva, compartilhada por muitas mulheres negras ativistas, em diferentes territórios e contextos. O que tento nomear aqui é uma estrutura que atravessa nossas vidas há gerações — e que se manifesta mesmo nos ambientes que mais prezamos e defendemos. Eu, como tantas outras, sigo firme porque preciso sobreviver, sustentar, acreditar. E é justamente por amar o que faço e reconhecer sua potência que me permito falar também sobre seus limites.

Pois bem. Eu me importo. E escrevo este texto como quem lança um grito para dentro. Porque talvez seja hora de aprendermos a desobedecer também na forma como cuidamos de nós. De não aceitar que nos esvaziem enquanto fingem nos aplaudir.

Estou cansada, meu cansaço é político.

Não vou romantizar minha exaustão. Mas também não vou silenciar por ela. E se isso incomoda, paciência. A revolução nunca foi sobre agradar.

E quem são, afinal, aqueles que nos cobram desempenho, assertividade e “resiliência emocional”? O heteropatriarcado branco, como aponta hooks, “estão congelados no tempo, incapazes de deixar-se amar por medo de que o objeto de seu amor vá abandoná-los”. Reencenam suas dores infantis em relações e espaços de militância, impondo às mulheres — sobretudo às negras — a tarefa impossível de curar feridas que não causamos. Em nome da coletividade, nos pedem que cuidemos, que ensinemos, que toleremos, mesmo quando somos nós quem mais precisamos de cuidado. Mas chega uma hora em que o corpo não aguenta, que a alma pede pausa. E não é fraqueza, é humanidade. Nós também somos humanas.

Ainda nas palavras de bell hooks, “no momento do meu nascimento, dois fatores determinaram o meu destino: ter nascido negra e ter nascido mulher”. Quando falamos do burnout que nos atravessa, não estamos falando apenas de excesso de tarefas. Estamos falando da desumanização sistemática de nossas existências. Do silêncio diante da nossa dor. Da solidão nos espaços que dizem lutar por justiça, mas falham em nos enxergar para além do papel que desempenhamos. Precisamos de um outro pacto. Um pacto de cuidado real, de escuta ativa e acolhimento honesto. Que nos permita existir com dignidade, sem precisar nos provar a todo instante. Ser vista como humana não pode ser luxo ou exceção. É urgência. É reparação. É o mínimo.

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Last Update: 25/03/2025