
O martírio francês
por Daniel Afonso da Silva
Na última segunda-feira, 25 de agosto de 2025, o primeiro-ministro francês, François Bayrou, declarou a sua intenção de mobilizar o artigo 49,1 da Constituição Francesa para requerer dos parlamentares um “voto de confiança” para aprovar o orçamento de 2026. A crise financeira francesa é imensa. A deformação política também. O mal-estar societal nem se fale. De modo que apenas uma manifestação desse tipo pode alçar alguma saída. Pois a situação é, de fato, gravíssima. Visto que as contas públicas francesas caminham para o colapso. Acumulando mais de 3,5 trilhões de euros em dívida pública. Impedindo a produção de riqueza no país. Drenando a sua capacidade de gerar liquidez. Fazendo que cada 50 bilhões de euros produzidos anualmente em riqueza líquida produzam 150 bilhões em endividamentos suplementares. Neutralizando todas as margens financeiras do governo. Gerando disfunções jamais notadas. Colocando em questão o próprio destino da França. Deixando todos em apreensão. Agudizando, ainda mais, o imenso o martírio francês.
A promessa do primeiro-ministro Bayrou é apresentar um état de lieux – leia-se, um diagnóstico geral e bem informado – no dia 8 de setembro de 2025. Indicando, sobretudo, a gravidade da situação. Para, em seguida, apresentar o orçamento para 2026 adicionado de sugestões para conter o mal-estar financeiro.
Em contraste, ainda na segunda-feira, 25 de agosto de 2025, tão logo lançada a proposta, parte majoritária dos parlamentares declararam a sua negativa ao encontro dos desígnios do primeiro-ministro. Dos 577 assentados na Assembleia Nacional, apenas 161 tendem a anuir. E tendem por tratar-se de membros do bloco central, presidencial e governamental. O restante dos parlamentares, em sua maioria, a priori, pretende, com certeza e convicção, bloquear a ação. Assim que, o Grupo da Esquerda Democrata e Republicana (GDR) de Stéphane Peu, a França Insubmissa (LFI) de Jean-Luc Mélenchon, os Ecologistas de Marine Tondelier, os Socialistas do presidente François Hollande, a União pelos Democratas da República (UDR) de Éric Ciotti e o Reagrupamento Nacional (RN) de Marine Le Pen já reuniram 287 votos contrários distribuídos em 17 da GDR, 71 do LFI, 38 dos Ecologistas, 66 dos Socialistas, 15 da UDR e 123 do RN.
Os Republicanos do presidente Nicolas Sarkozy seguem indecisos. Possuem 49 cadeiras no Parlamento e hesitam entre apoiar ou não o presidente Macron. E, por isso, vão aguardar até a manifestação do primeiro-ministro no dia 8 de setembro para se manifestar.
O que, no geral, desde agora, confere corpo à negação ao “voto de confiança”. Tornando o mal-estar francês em sinônimo de inferno, declínio ou mesmo – como muito se vaticinou – suicídio francês.
Pois, diante da denegação ao “voto de confiança”, restará ao primeiro-ministro apresentar a sua demissão que, conseguintemente, vai ampliar a crise política. Uma crise que, imediatamente, vai impor a substituição do primeiro-ministro e de todos os ministros. O que, em si, jamais vai tarefa trivial. Pois, para a entronização de um novo primeiro ministro, o presidente da República vai precisar de alguma maioria parlamentar. Mas, no caso presente, essa maioria, simplesmente, não existe. O que complica ainda mais a situação. Sugerindo como hipótese uma nova dissolução da Assembleia Nacional – como se fizera em junho de 2024. Mas uma nova dissolução da Assembleia Nacional – como toda dissolução – infere uma decisão arriscada. Para não dizer, arriscadíssima. Vez que o grupo político do presidente Macron não dispõe de garantias de vitória. Bem do contrário. Segundo todas as sondagens e estimativas, uma dissolução agora permitiria ao RN de Marine Le Pen compor maioria parlamentar.
Caso isso ocorra, restarão ao presidente Macron apenas duas opções: coabitar com coabitar com Marine Le Pen, fazendo dela primeiro-ministro e de seus correligionários, ministros de estado da França, ou demitir-se da função suprema do país.
Nenhuma dessas opções flana tranquila no imaginário dos franceses. O último presidente francês a demitir-se foi o general De Gaulle em 1969. A última coabitação entre linhagens políticas opostas ocorreu em 1997-2002 sob a presidência de Jacques Chirac.
Dois momentos sinceramente traumáticos. Que ninguém deseja reviver.
O presidente Macron de braços com Marine Le Pen ou fora do Élysée seguem hipóteses impensáveis para a maioria entre os franceses. E, caso uma delas venha a vingar, pode acelerar a entropia da Quinta República Francesa. Podendo gerar a sua crise terminal e a sua queda final.
Jean-Luc Mélenchon deseja insuspeitamente essa crise e essa queda para reviver um “momentum revolucionário” na França.
Entretanto, seguem incertos os benefícios de tal “momentum”. A ingovernabilidade total e até mesmo guerras civis podem ser decorrências mais prováveis e insuportáveis.
As próximas semanas na França prometem apreensão.
É o mínimo que se consegue antever.
Quem viver, vai ver.
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.
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