Após a perda de Américo, recebemos com enorme tristeza a notícia do falecimento, nesta segunda-feira, 24, de Maria José Lourenço, a Zezé, uma militante cuja trajetória se confunde com a história do trotskismo na América Latina e, em especial, no Brasil. Zezé, junto com outros três companheiros, fundou a Liga Operária, que deu origem à Convergência Socialista, principal corrente que formou o PSTU anos depois.
Zezé completaria 80 anos no próximo dia 18 de maio e, apesar da saúde frágil nos últimos anos e de já não militar nas fileiras da LIT desde os anos 1990, mantinha uma ótima relação de cumplicidade e camaradagem com seus antigos companheiros. Participou do ato em homenagem e memória dos 20 anos sem Moreno, em 2007; do documentário “A Convergência Socialista e a ditadura militar”, produzido pelo PSTU em 2012; e, um ano depois, foi uma das anistiadas durante a Caravana da Anistia dos perseguidos da Convergência Socialista.
Vanguarda na ida ao movimento operário
Egressa da guerrilha contra a ditadura no Brasil e exilada política no Chile, Zezé aderiu ao trotskismo e à luta pela construção de um partido que ganhasse a classe operária para a revolução socialista por intermédio de Nahuel Moreno, fundador da LIT-QI. Ainda no Chile, Zezé abandonou a concepção guerrilheirista e se lançou de corpo e alma no projeto da construção de um partido e uma internacional revolucionários, com profunda inserção no movimento de massas, principalmente no movimento operário.
Após uma rápida passagem por Buenos Aires após o golpe de Pinochet, Zezé, sob orientação de Moreno e junto com os outros três companheiros, fundou a Liga Operária e retornou ao Brasil, construindo na clandestinidade a corrente ainda sob a repressão da ditadura, em 1974. Como grande organizadora que era, Zezé é uma das responsáveis pelo rápido crescimento da Liga Operária, que de quatro militantes passou a 100 em menos de dois anos, graças a um árduo trabalho clandestino no movimento estudantil, setor mais dinâmico na época, que se levantava contra o regime militar.

Junto ao dirigente Nahuel Moreno
Zezé foi também vanguarda na inserção da corrente no seio do movimento operário, com a ida dos militantes às fábricas do ABC Paulista para construir o partido. Com essa localização, a Liga Operária empalmou o processo de ascenso grevista no final da década de 1970. Já com um significativo peso operário, a Liga deu origem ao movimento, e mais tarde à corrente, Convergência Socialista, que esteve à frente da construção da CUT e do PT quando estes cumpriam um papel progressivo de organizar a classe de forma independente dos patrões e da burguesia, enfrentando os pelegos nos sindicatos e os partidos que hegemonizavam a esquerda na época e defendiam a unidade com uma burguesia supostamente progressiva.
Zezé ainda teve destacada participação como jornalista no alternativo Versus, uma das principais publicações de oposição à ditadura militar, o qual reunia exilados e perseguidos políticos em sua redação.
Zezé presente!
Na direção da Convergência Socialista e da LIT-QI, Zezé construiu com afinco e paixão a corrente durante toda a turbulenta década de 1980. Após a crise da LIT no início dos anos 1990, nossos caminhos políticos se separaram. Mas a relação de camaradagem, carinho e amizade nunca se rompeu.
Zezé morre reivindicando o trotskismo e o papel de Moreno. É parte fundamental da nossa história. Ajudou a construir muitos dos nossos quadros e a consolidar nossa inserção no movimento operário e nosso internacionalismo. A ela, prestamos nossa homenagem e nunca a esqueceremos.
Zezé, presente! Até o socialismo, sempre!