Joao Paulo da Silva, de Natal (RN)
Tímido, reservado e avesso a entrevistas, ele não se parecia, à primeira vista, com o criador de textos tão bem-humorados, capazes de revelar contradições humanas e expor o quanto nossos pequenos dilemas podem ser ridículos e, ao mesmo tempo, engraçados.
Filho do também escritor Érico Veríssimo e de Mafalda Volpe, Luís Fernando destacou-se pela inteligência afiada e pelo senso crítico refinado, sobretudo ao comentar as comédias públicas e privadas da vida. Com mais de 80 livros publicados e 5,6 milhões de exemplares vendidos, Verissimo ajudou a popularizar a crônica no Brasil e se consagrou como fenômeno de crítica e de público.
O escritor estava internado desde 11 de agosto e faleceu em decorrência de complicações de uma pneumonia. Sofria ainda de Parkinson e problemas cardíacos. Em 2021, um Acidente Vascular Cerebral (AVC) comprometeu sua mobilidade e comunicação. Veríssimo parte aos 88 anos, deixando a esposa, Lúcia Massa, três filhos, dois netos e uma obra que atravessa gerações.
Dos jornais aos livros
Luís Fernando Veríssimo nasceu em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, em 26 de setembro de 1936. Embora tenha iniciado os estudos na capital gaúcha, viveu boa parte da infância e adolescência em Washington (EUA), acompanhando o trabalho do pai na Universidade de Berkeley. Foi por lá que ele concluiu o ensino médio na Roosevelt High School.
O contato com a língua inglesa, mais sintética do que o português, marcou seu estilo. Frases curtas, diretas e cheias de profundidade. Também foi nos Estados Unidos que descobriu a paixão pelo jazz e aprendeu a tocar saxofone. Orgulhava-se de integrar o “menor sexteto do mundo”, com um grupo de cinco músicos.
O humor surgiu cedo. Logo aos 14 anos, produziu com a irmã Clarissa e um primo um jornal com notícias da própria família. Ficava fixado no banheiro e foi batizado de O Patentino (em referência à privada, chamada de “patente” no Rio Grande do Sul).
De volta ao Brasil, nos anos 1950 e 1960, trabalhou como tradutor, redator publicitário e jornalista. Em 1967, já em Porto Alegre, passou a atuar no jornal Zero Hora como copydesk (revisor de textos). Dois anos depois, ganhou uma coluna diária e a partir daí suas crônicas sobre cinema, literatura, esporte e política conquistaram a imprensa nacional. Entre os anos 1970 e 1990, consolidou-se como um dos cronistas mais lidos do país, escrevendo para o Zero Hora, O Estado de S. Paulo e inúmeros outros jornais.
Embora tenha começado cedo na imprensa, publicou o primeiro livro apenas em 1974, aos 38 anos, em plena ditadura militar. “O Popular” marcou sua estreia literária com humor refinado e uma autodescrição irônica na apresentação: “O autor começou do nada, mas desenvolveu-se rapidamente e em nove meses estava pronto para nascer. (…) Tem duas filhas, um filho e uma Variant, nenhum dos quais está pago. Torce pelo Internacional, o que é um consolo. Gosta de viajar e de comer. Sinais característicos: nenhum. Olhos: dois. Cabelos: raros. Sexo: com moderação. Estado civil: onde? onde?”.
Era o início da carreira de um escritor que sabia rir de si mesmo e, com igual genialidade, dos costumes e contradições da sociedade brasileira.
Um artista versátil
Depois da estreia, Veríssimo emendou sucessos e, a partir dos anos 2000, tornou-se o autor mais lido do país. Vieram livros marcantes, como “A grande mulher nua” (1975), “Amor brasileiro” (1977), “Ed Mort e outras histórias” (1979), “O analista de Bagé” (1981) e “A Velhinha de Taubaté” (1983).
Nos anos 1970, criou os cartuns de “As Cobras”, em que personagens debatiam futebol, política e filosofia sem moral alguma. Surgiram figuras inesquecíveis como Queromeu, o corrupião corrupto, uma sátira dos parlamentares, e Durex, o adesista, um sujeito que adere a qualquer governo, seja qual for, tipo como o MDB e o “Centrão”. Os personagens marcaram a crítica social com um humor ácido, mas foram aposentados em 1997 porque, segundo o próprio escritor, “não ficava bem um sexagenário desenhando cobrinhas”.
A versatilidade de Verissimo impressionava em diversos gêneros. Além das crônicas que fizeram história, a exemplo de “Comédias da vida privada” (1994), “Comédias da vida pública” (1995) e “As mentiras que os homens contam” (2000), o cronista escreveu romances, contos e até poesia, sempre mesclando inteligência, ironia e crítica social. Veríssimo exibiu grande capacidade narrativa nos seis romances que publicou, com destaque para “O Clube dos Anjos” (1998), “Borges e os orangotangos eternos” (2000) e “Os espiões” (2009).
Em “Poesia numa hora dessas?!”, publicado em 2002, Veríssimo sentenciava em versos curtos e irônicos: “O Brasil é um país verdadeiramente incomum / Enquanto parte vai pra Cucuia / Outra parte vai pra Cancun.”.
A obra do escritor também ganhou adaptações para teatro, cinema e televisão. O maior sucesso foi a série “Comédias da vida privada”, exibida pela Rede Globo entre 1995 e 1997.
Personagens e crítica política
Parte da genialidade de Veríssimo esteve na criação de personagens impagáveis, que satirizavam o cotidiano e ironizavam a realidade brasileira. Lançada em 1983, a Velhinha de Taubaté se transformou num marco da crítica política bem-humorada do autor. Criada no final da ditadura militar e tida como “a última pessoa no Brasil que acreditava no governo”, a Velhinha de Taubaté era monitorada de perto pelo Congresso Nacional para que seguisse confiando nos políticos. O personagem era uma metáfora sobre a credibilidade do povo nas instituições e foi usado muitas vezes para ridicularizar os governos Sarney, Collor e FHC. Até que, em 2005, no escândalo do mensalão, o autor decidiu “matá-la”. Foi demais para ela.
Outro personagem emblemático foi o Analista de Bagé, um psicanalista gaúcho rude e freudiano ortodoxo, que tratava pacientes “na base do joelhaço”. Já o pobre e engraçadíssimo detetive Ed Mort, que chegou a ser adaptado para o cinema, satirizava o estilo noir, enquanto os quadrinhos da Família Brasil parodiavam a classe média diante das crises econômicas.
Veríssimo nunca escondeu sua visão política. Em livros como “A versão dos afogados” (1997) e “Aquele estranho dia que nunca chega” (1999), criticou o neoliberalismo de FHC. Também se decepcionou com os rumos do governo Lula. Em 2008, na época do lançamento do livro “O mundo é bárbaro (E o que nós temos a ver com isso)”, comentou que “o PT é o PSDB de barba” e que “Lula foi uma decepção para quem esperava um governo de esquerda”.
A ascensão da extrema direita nos últimos anos também foi alvo do escritor. Sobre Bolsonaro, Verissimo foi direto: “Não é um presidente, é um cataclismo”, afirmou em uma entrevista de 2020. Perguntado sobre como o Analista de Bagé receberia Bolsonaro, disse ao jornal Folha de S. Paulo: “com um joelhaço, para inveja de muita gente”.
Para Verissimo, ser de esquerda não era uma opção, mas consequência da consciência social. “Talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda”, refletiu na ocasião.
O riso como como forma de resistir
Luís Fernando Veríssimo tornou-se um fenômeno raro. Foi um escritor ao mesmo tempo popular e refinado, capaz de transformar o cotidiano em literatura e o humor em crítica sagaz. Com irreverência, charme e concisão, o autor foi se consolidando, a cada livro de crônicas, como um atento observador da política nacional e um historiador da vida entre quatro paredes. Rir, mesmo que de nervoso, era uma forma de resistir. Até mesmo quando sabemos que nosso tempo está se esgotando.
Em 2013, depois de ficar internado numa UTI com um quadro de infecção generalizada, Verissimo falou sobre a ameaça da inevitabilidade da morte, sempre com graça e leveza. “A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra”. Eu também sou. Contra a morte do riso inteligente e da ironia fina deste cronista que soube, como poucos, desnudar a natureza humana.
Viva e leia Veríssimo! Ele vai fazer falta.