Em 2018, escrevi um texto com o seguinte título: Quem tem o direito de fazer teologia? Na época, um pastor progressista havia afirmado que nós, LGBTQIAPN+, não teríamos esse direito.

Ao redor do mundo, pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer e intersexo enfrentam altos índices de violência, muitas vezes desde a infância. Aqueles que vivem interseccionalidades como raça e etnia, identidade indígena, deficiência ou HIV são ainda mais vulneráveis. Quando analisamos os dados dessa violência no Brasil, o cenário se torna alarmante: entre 2021 e 2022, o número de agressões físicas e psicológicas contra a população LGBTQIAPN+ aumentou, especialmente entre jovens e pessoas negras, segundo o Atlas da Violência 2024, divulgado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Lidar com a ameaça da violência, da discriminação e da exclusão faz parte do cotidiano de pessoas LGBTQIAPN+. Atos simples, como segurar a mão da pessoa amada, comentar sobre a própria vida cotidiana, expressar sua identidade ou apenas ser quem se é na forma de vestir e falar, podem se tornar alvos de repressão. No campo religioso, essa exclusão se intensifica. Muitas vezes, não encontramos espaços para expressar nossa fé e sofremos inúmeras violências ao buscar uma espiritualidade que contemple nossas identidades.

Nesta semana, o grupo Evangélicxs pela Diversidade, organização que promove o diálogo entre pessoas LGBTI+ e comunidades de fé evangélicas, tem sido alvo de ataques e infiltrações. O movimento tem enfrentado discursos de ódio, assédio e ameaças aos seus participantes. O pastor Bob Luis Botelho, um dos líderes do grupo, denunciou o ocorrido nas redes sociais:

“Nos últimos dois dias, recebemos cerca de 400 comentários e mensagens dizendo que somos hereges, que vamos para o inferno […]. Estamos em contato com a Polícia Civil, investigando o caso e tentando identificar possíveis infiltrados. As pessoas identificadas serão notificadas judicialmente por suas condutas.”

Infelizmente, com o avanço da extrema-direita e do fundamentalismo religioso, os direitos e a segurança da população LGBTQIAPN+ estão cada vez mais ameaçados. Um novo relatório da Social Development Direct, produzido para o programa What Works to Prevent Violence do FCDO, sintetiza evidências globais sobre essa violência, confirmando que a perseguição baseada em orientação sexual, identidade e expressão de gênero e características sexuais está presente em todas as regiões do mundo e afeta toda a diversidade da comunidade queer.

No dia 15 de fevereiro, um tiro silenciou uma voz que, por décadas, ecoou coragem. Muhsin Hendricks, de 58 anos, o primeiro imã assumidamente gay do mundo, foi brutalmente assassinado na cidade costeira de Gqeberha, na África do Sul. Segundo a polícia do Cabo Oriental, “dois suspeitos desconhecidos, com os rostos cobertos, saíram de um veículo e começaram a disparar vários tiros contra ele.”

O crime está sob investigação, e movimentos e organizações LGBTQIAPN+ acreditam que se trata de um crime de ódio.

Hendricks foi uma ponte entre mundos, um farol para muçulmanos LGBTQIAPN+ que enxergavam na fé uma possibilidade de existir sem medo. Em 2018, fundou a Al-Ghurbaah Foundation, um espaço de acolhimento para aqueles que carregavam no corpo e na alma as marcas da exclusão.

Em novembro de 2024, Hendricks foi um dos palestrantes da 31ª Conferência Mundial da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo), realizada na Cidade do Cabo. Durante o evento, ele afirmou:

“Para mim, é essencial que paremos de enxergar a religião como inimiga. A religião provavelmente tem sido um dos principais fatores que geraram problemas de saúde mental e traumas dentro das nossas comunidades, mas, ao mesmo tempo, há narrativas de pessoas queer de fé que dizem que a religião, na verdade, as salvou e curou. Mas que tipo de religião é essa? É aquela onde nós, pessoas queer, podemos nos desconectar das partes extremistas que não promovem inclusão e compaixão.”

Muhsin Hendricks vive na memória de cada pessoa queer que ousa acreditar que fé e liberdade podem caminhar juntas. Seu legado nos ensina que não basta sobreviver: é preciso reivindicar a dignidade de existir plenamente, amar sem medo e construir comunidades onde a espiritualidade seja abrigo, não sentença de morte.

Aqui no Brasil, sua luta ressoa em grupos que, como ele, seguem sendo faróis de acolhimento e resistência a partir da fé – Evangélicxs pela Diversidade, Rainbow Sangha, Grupo de Ação Pastoral da Diversidade SP, MOPA, Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, Rede Juntes, Gaava Brasil, Anglicanxs+, Espíritas Plurais, entre tantos outros.

A pergunta que fiz em 2018 ainda ressoa em mim, e mantenho firme minha resposta: sim, todos os corpos podem e devem mexer na teologia, seja qual for a tradição – umidificando o solo, limpando tudo que mata, exclui e abusa dos corpos marginalizados e vulnerabilizados.

Muhsin Hendricks, presente, presente, presente.

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Last Update: 25/02/2025