
Luis Fernando Verissimo, um dos maiores cronistas e escritores brasileiros, morreu em Porto Alegre aos 88 anos, após anos de complicações de saúde. Ele estava internado na UTI do Hospital Moinhos de Vento há cerca de três semanas com princípio de pneumonia. Desde 2021, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), sua comunicação ficou severamente comprometida, limitando-se a poucas palavras em inglês.
Ele também enfrentava a doença de Parkinson, problemas cardíacos e, em 2020, havia passado por uma cirurgia para retirar um câncer ósseo na mandíbula. Mesmo com as dificuldades, mantinha hábitos de leitura diária de jornais, acompanhava noticiários e seguia torcendo pelo Internacional, paixão que atravessou toda a sua vida.
Verissimo deixou de escrever após o AVC, mas sua presença no imaginário brasileiro já estava consolidada. Autor de mais de 80 livros, com mais de 5,6 milhões de exemplares vendidos, criou personagens que marcaram a literatura e o humor nacional, como o psicanalista Analista de Bagé, a irônica Velhinha de Taubaté, o detetive falido Ed Mort e a satírica Família Brasil.
Ao longo da carreira, transitou com naturalidade entre crônicas, romances, cartuns, roteiros de TV, textos teatrais e até composições musicais, construindo uma obra que aliava leveza e inteligência, sempre com humor fino e crítica social.
Nascido em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936, filho do consagrado escritor Érico Verissimo e de Mafalda Volpe, Luis Fernando cresceu em um ambiente literário, mas sua paixão inicial foi a música. Adolescente, viveu nos Estados Unidos, estudou saxofone e se tornou um amante do jazz, chegando a tocar em conjuntos e a se apresentar em bailes gaúchos com o grupo Renato e seu Sexteto.
De volta ao Brasil, começou sua trajetória no jornalismo nos anos 1960 como revisor e redator. Em 1969, já assinava uma coluna própria em Zero Hora e, pouco depois, expandiu sua influência para jornais de circulação nacional como O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil.
O reconhecimento literário veio cedo. Seu primeiro livro, “O Popular” (1973), abriu caminho para uma produção prolífica de coletâneas de crônicas e contos, que se tornaram best-sellers e ajudaram a consolidar um estilo acessível, bem-humorado e crítico.

Nos anos 1980, lançou “O Analista de Bagé”, fenômeno editorial que esgotou a primeira edição em dois dias e o transformou em um autor de alcance nacional. Pouco depois, surgiu “A Velhinha de Taubaté”, personagem que sintetizou o espírito crédulo e conformado diante dos governos militares e civis, em uma crítica política sempre envolta em ironia.
Em 1994, a coletânea “Comédias da Vida Privada” se transformou em série de televisão escrita por Jorge Furtado e dirigida por Guel Arraes, ampliando ainda mais sua popularidade. Na década seguinte, consolidou-se também como romancista, com obras como “Gula – O Clube dos Anjos” (1998) e “Borges e os Orangotangos Eternos” (2000), explorando novos registros literários sem perder a marca do humor.
Além da escrita, cultivou intensamente sua paixão pelo jazz. Tocou saxofone no grupo Jazz 6 e gravou discos, conciliando o prazer musical com a rotina de escritor. Essa ligação com a música atravessou sua obra, surgindo em crônicas, ensaios e no ritmo particular de sua prosa.
Sua trajetória foi marcada por reconhecimento público e prêmios importantes. Recebeu o título de Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato) em 1997, além de homenagens de instituições culturais e jornalísticas. Em 2003, foi capa da revista Veja como “o escritor que mais vende livros no Brasil” e teve o romance “Clube dos Anjos” eleito pela New York Public Library como um dos 25 melhores do ano. No exterior, conquistou o Prêmio Deux Océans no Festival de Culturas Latinas de Biarritz, na França, entre outros.
Na vida pessoal, foi casado por 61 anos com Lúcia Helena Massa, com quem teve três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro. O casal viveu em Porto Alegre, na casa da família no bairro Petrópolis, o mesmo imóvel onde moraram Erico Verissimo e Mafalda. Apesar das limitações dos últimos anos, Lúcia relatava episódios de lucidez e humor do escritor, como a gargalhada precisa ao ouvir uma frase espirituosa em um documentário sobre Pixinguinha — reação que, segundo ela, poderia ter saído de uma de suas próprias crônicas.
Luis Fernando Verissimo deixa como legado uma literatura que combina humor, ternura e crítica social, capaz de transitar entre a leveza cotidiana e a análise mordaz da política e dos costumes brasileiros. Sua morte encerra uma era da crônica nacional, mas sua obra permanece viva na memória de milhões de leitores, nas estantes de bibliotecas e nas páginas amareladas de jornais que ele ajudou a tornar mais inteligentes e divertidos.