Após o sucesso das manobras que garantiram a vitória da esquerda na França, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, manifestou-se “muito feliz” com a vitória “contra o conservadorismo”. A declaração fora feita em seu perfil oficial no X, no último dia 7, acrescida ainda por comentários sobre a “vitória” do Partido Socialista na Grã-Bretanha, onde a composição mais progressista da história da agremiação conseguiu um milagre: aumentar sua votação desde as eleições gerais de 2019 e quase dobrar sua participação na Câmara dos Comuns (equivalente a Câmara de Deputados do Brasil):

“Muito feliz com a demonstração de grandeza e maturidade das forças políticas da França que se uniram contra o conservadorismo nas eleições legislativas de hoje. Esse resultado, assim como a vitória do partido socialista na Grã-Bretanha, reforça a importância do diálogo entre os segmentos progressistas em defesa da democracia e da justiça social. Devem servir de inspiração para a América do Sul.”

Outro que se aventurou a elogiar o resultado foi o Chanceler de facto: o assessor especial para a política externa do governo Lula, Celso Amorim. Destacando as vitórias da esquerda francesa e dos socialistas na Grã-Bretanha, Amorim considerou os eventos uma:

“Grande vitória. Juntamente com a vitória dos socialistas na Grã-Bretanha, abre-se o caminho da esquerda democrática na Europa. A conservadorismo ‘não passará’. Grande exemplo para a América Latina.”

Declarações desorientadoras seriam esperadas de pessoas que estão acompanhando a política de longe, o que naturalmente não é o caso de Amorim e muito menos de Lula. Os dois expoentes do nacionalismo brasileiro, no entanto, trataram de somar-se à massa de mal-informados que escamotearam completamente os fatos para celebrar, inadvertidamente, uma vitória que não pertence à esquerda ou aos trabalhadores, mas ao imperialismo.

Mais cínico, o vice-presidente e ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSB), destacou o que lhe interessava: “a coalizão de forças políticas com suas diferenças, mas que não questiona a democracia”. Concentrando-se na França, o vice-presidente disse ainda que o país “deu aula hoje” e aproveitou para bajular o jogador queridinho da esquerda pequeno-burguesa, o francês Mbappé, tratado como “craque” pelo vice-presidente.

“A França deu aula hoje. Uma coalizão de forças políticas com suas diferenças, mas que não questiona a democracia; a maior participação popular nas urnas em 40 anos; a força dos jovens, na figura de craques como Mbappé, que é o exemplo típico de um país diverso e que luta por mais oportunidades. Allez les bleus! Vive la France!”

Não é de se espantar que uma figura como Alckmin aprecie tanto os golpes realizados para favorecer o imperialismo na França, sendo ele próprio parte de um similar. As manobras criadas pelo imperialismo para favorecer seus candidatos, em especial o Partido Socialista Francês, são, de fato, um exemplo a seu PSB e ao próprio vice. Surfando no que resta de autoridade política ao partido, os demais partidos da Nova Frente Popular conseguiram aumentar enormemente suas votações, sem que o FI, por sua vez, conquistasse um número expressivo de assentos na Assembleia Nacional.

Outra declaração destacada pelo cinismo que apresenta é a do senador pelo Piauí Ciro Nogueira (PP). Ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Ciro expressou a aproximação do campo com o imperialismo para dizer que “mais do que convicção”, “a construção de uma maioria exige a capacidade de congregar em torno de um projeto nacional”, em comunicado publicado em seu perfil oficial no X também no dia 7, onde criticava “os setores da direita que não entenderam que “o povo brasileiro não é de extremos”. Abaixo, seu “textão”:

“As eleições para a França deixam uma lição pedagógica para todo o mundo e o Brasil.

“Os setores extremistas, que possuem tentações majoritárias e dominantes em ambos os polos, procuram o tempo todo desqualificar os que pensam diferente, mesmo que possuam inúmeros pontos de convergência com pontos centrais de sua agenda. No Brasil não é diferente. Os setores mais vigorosos da Direita ainda imaginam que podem, sozinhos, ser referendados pela vontade popular. Mas o povo brasileiro não é de extremismos.

“É por essa percepção deslocada que setores conservadores, identificados com premissas liberais clássicas, com princípios econômicos, mas que não enfatizam, por exemplo, questões de costumes, são muitas vezes estigmatizados pelas correntes mais fundamentalistas da Direita brasileira.

“Nada contra que cada corrente professe suas preferências e posturas. A democracia, afinal, é isso. Mas o que os acontecimentos da França demonstram é que a construção de uma maioria exige mais do que convicção. Exige a capacidade de congregar em torno de um projeto nacional, de uma nação que não possui um pensamento único, mas múltiplo, um projeto maior do que o de qualquer corrente.

“Caso contrário, mesmo setores que partilham valores comuns podem ser lançados pela dinâmica de rejeição da polarização a uma lógica plebiscitaria em que o extremismo se torne pior do que a união de forças contra ele.

“Para aqueles da Direita brasileira que entendem que ela é o começo, o meio e o fim, fica o alerta da França: a democracia não possui um único caminho quando o extremismo se apresenta como a direção inevitável.

“A esquerda também deve aprender com o dia de hoje. Ganhou, mas não é majoritária também. Foi a vitória da derrota. Ou a derrota da vitória. Quando os extremos se enfrentam, a fragmentação triunfa e as diferenças sobressaem. Como deve ser. Mas, para a Direita, tão crítica e impiedosa com os seus próprios, fica o recado.”

O senador expressa a orientação já evidenciada em outras ocasiões pela cúpula bolsonarista de conter as bases do movimento da extrema direita, que tem forte propensão a escapar do controle. Tal como no caso da mensagem de Alckmin, há um interesse político único que motiva tais declarações.

No caso de Lula e Amorim, pressionados de todos os lados pelo imperialismo, faria todo o sentido do mundo o otimismo para tolos caso o objetivo fossem mostrar-se dóceis ao imperialismo. Dado, porém, que a tática de contemporização com a ditadura dos monopólios, longe de arrefecer a crise interna, a acentuou, qual o ganho real com tal demonstração de fraqueza?

Seria um importante esclarecimento político e um mecanismo de defesa se as declarações de ambos orientassem a população, demonstrassem que em ambos os casos, o que houve foi um golpe e o grande vencedor foi o imperialismo, que usará agremiações de esquerda para impulsionar sua política, com ainda mais intensidade do que na era Tony Blair, que foi inclusive criticado por Lula por apoiar a criminosa invasão do Iraque em visita do mandatário brasileiro à Inglaterra. 

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Última Atualização: 09/07/2024