Luis Fernando Veríssimo

por Jorge Alberto Benitz

    Um amigo perguntou se LFV era mais importante culturalmente que um também amigo acadêmico doutor. Não vacilei em responder que sim. Mais, acrescentei que ele dava de dez a zero nele neste quesito. Hoje se ele fizesse a mesma pergunta, responderia igual. Nada contra a academia que tem cabeças tale ntosas, a começar pelo amigo doutor acima referido. Tudo a ver com LFV que está acima da cotação dos normais que somos nós, o resto dos viventes.

    Sobre isso, ainda lembro de um episódio que presenciei nas escadas do Hotel Embaixador, aqui em Porto Alegre, quando um cartunista genial gaúcho – que me permito não citar o nome – cochichou alto o suficiente para permitir que eu ouvisse “O pessoal da academia não compareceu”. Referia- se ao evento que transcorria ou já tinha transcorrido, não me lembro bem, do primeiro “Encontro com o Professor”, criado pelo Ruy Carlos Ostermann, que tinha como convidado no ato inaugural, justamente, seu amigo – que aniversariava no mesmo dia com 2 anos de diferença. Ruy nasceu em 1934 e ele em 1936 – ,  LFV. Curiosamente, era um evento envolvendo 2 não acadêmicos. Vai lá que um ou outro acadêmico tivesse compromissos inadiáveis, mas nenhum aparecer no evento era sintomático.

    Todo este introito é para comentar a bela homenagem no artigo intitulado “Luis Fernando Verissimo é hoje muito maior que seu silêncio” de Martha Medeiros a LFV relata a importância dele para sua carreira de colunista.  Homenagear a ele, é o mínimo que podemos fazer em agradecimento aos bons momentos que ele nos proporcionou com seus textos maravilhosos. Textos capazes de conter em um curto espaço, uma mensagem cultural e intelectual superior a, muitas vezes, massudos e insossos livros. E também capaz de desmontar catedrais discursivas ideológicas que viram pó devido a força de seu argumento contido em uma exígua coluna jornalística. Argumento precedido de uma vasta e eclética cultura que bebe de várias fontes. Daí o seu poder porque dife rente do poder acadêmico, que, com rara e honrosas exceções, se pauta por um conhecimento especifico e restrito, espraia seu olhar além dos muros da matéria na qual o acadêmico se especializa. Neste particular, confesso que já me deparei com doutores das chamadas áreas humanas que são gigantes em sua especialização e analfabetos  funcionais típicos  fora dela.

    Não vai aqui nenhum canto antiacadêmico e anti-intelectual. Até porque sou um dos maiores entusiastas e consumidores do fazer deles. Não conseguiria articular meu pensamento da forma que faço, se não fosse um leitor de textos acadêmicos e não acadêmicos, como o de LFV. Enfim, sou o escoadouro desta mistura heterogênea. No entanto, reservo-me ao direito de criticar não os acadêmicos, mas os que entre eles, por puro corporativismo e/ou inveja, adotam este preconceito contra quem não é acadêmico.  Estou ciente que, felizmente, este tipo condenável de corporativismo está diminuindo no mundo acadêmico.

     Até o momento referi-me especificamente ao LFV colunista empenhado em defender a democracia e a civilidade. Comentar sobre o humorista LFV parece não ser papel de um escrevinhador de pouco folego, como eu. Ele já foi, merecidamente, tema de teses acadêmicas. O que dá para perceber é a influência do humor nova-iorquino de Woody Allen. Influência que funcionou como ponto de partida. Depois, no meu entender, ele foi além, transcendeu esta influência e criou um estilo próprio, ora inzoneiro, com uma levada carioca, ora tirador de sarro dos abagualados gaúchos, como cabe a um humorista que não renega suas origens. A diferença é que ele consegue manter um nível elevado que nunca cai no humor fácil e estereotipado, embora tenha criado tipos estereotipados. Eis o paradoxo por ele bem resolvido.

    Humor que vai desde as cobras e suas indagações existencialistas ruminando diante do céu estrelado, do detetive Ed Mort com uma levada noir, temperada pelo baixo mundo brasileiro e suas peculiaridades, o impagável Analista de Bagé e sua terapia do joelhaço com direito a divã forrado com pelego, a Velhinha de Taubaté, a Família Brasil, em tirinhas ou contos. Personagens criados por ele que, por sua força expressiva e repres entativa da nossa realidade, entraram no nosso imaginário de forma indelével.

    Mais, as suas irônicas, corajosas  e certeiras crônicas sobre a louca, desigual e cruel política brasileira dominada pela elite podre e branca.  Maria Conceição Tavares, explicita sua importância, como citei neste trecho, no artigo “A Ascensão do Humor de  Direita” publicado no Observatório da Imprensa vide link https://www.observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/ed742-a-ascensao-do- humor-de-direita/  “Para não ficar apenas um tom derrotista, neste mesmo artigo que cita a ascensão do humor de direita está registrado o juízo de valor de Maria da Conceição Tavares colocando Luiz Fernando Veríssimo como o melhor crítico de FHC. Como demonstração desta condição, ela cita uma charge memorável de LFV, aludindo ao estilo FHC, que, evocando o sucesso, na época, do filme Titanic, mostra o diálogo do comandante do navio sendo inquirido por um auxiliar sobre a necessidade de conseguir botes de salva-vidas para as pessoas que viajavam nas classes econômicas no momento em que estava afundando e obtendo como resposta esta pérola de frases que est&a acute; sempre na pon ta da língua dos velhos e novos conservadores: “Chega de paternalismo!”.

Jorge Alberto Benitz é engenheiro.

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Last Update: 31/08/2025