Indústria e Desenvolvimento: estratégias para romper com a condição periférica
por Adriana Marcolino
Não há dúvida sobre o papel central da indústria no desenvolvimento econômico de qualquer nação. Historicamente, os países que se tornaram potências econômicas investiram fortemente no setor industrial, promovendo inovação tecnológica, geração de empregos qualificados e crescimento sustentável. Destaco o caso braisleiro, que seguiu uma trajetória que comprometeu as possibilidades de desenvolvimento econômico e social pela via da industrialização.
Em 1956, o Brasil atingiu um marco importante no seu desenvolvimento econômico: a renda gerada pela indústria superou a da agricultura. No entanto, esse avanço não representou a transição para um país desenvolvido. Apesar do crescimento industrial e da criação de empregos mais qualificados, a agricultura continuou desempenhando um papel crucial na economia. Ela sustentava os centros urbanos, fornecendo mão de obra barata e bens excedentes, além de financiar a industrialização urbana. Assim, o setor agrícola, com suas características de superexploração do trabalho, permaneceu como base para o crescimento industrial e ainda permanece como setor de destaque para a economia e a política nacional.
Além disso, a transição de uma economia escravocrata para uma capitalista, após a abolição da escravatura, manteve relações de trabalho desiguais e exploratórias. As desigualdades sociais, originadas das estruturas coloniais, persistiram ao longo do processo de industrialização, sendo reforçadas pelo Estado e pela classe dominante. Essas desigualdades facilitaram a manutenção de uma estrutura econômica desigual nas zonas urbanas e rurais e tem suas marcas até os dias de hoje.
O Estado teve um papel significativo na industrialização do Brasil, assim como em qualquer outro país do centro do capitalismo, adotando políticas públicas que buscavam financiar o setor e estruturar cadeias produtivas. Atuou como mediador, garantindo que o capital industrial fosse o motor do crescimento econômico, promovendo a transferência de recursos do setor agrícola para a industrialização urbana. Embora essa estratégia tenha facilitado a modernização das indústrias, ela também perpetuou o modelo de exploração nas zonas rurais.
Desse modo, o processo de industrialização possibilitou o desenvolvimento de setores como o automobilístico, a construção naval, químico e metal-mecânico. Esse modelo teve seu financiamento complementado com capital estrangeiro, o que gerou uma dependência tecnológica e limitou a capacidade de inovação nacional. Além disso, a urbanização, resultante desse processo, não foi acompanhada por melhorias nos serviços essenciais como saúde, educação, habitação e mobilidade, promovendo condições de vida precárias. Apesar de alguns avanços, os problemas estruturais, como a desigualdade, permaneceram.
A partir dos anos 1980, a crise da dívida externa, os planos de estabilização monetária e a abertura comercial nos anos 1990 impactaram negativamente o setor industrial, levando ao fechamento de fábricas e à redução do emprego industrial. Nos anos 2000, tentativas de retomada da indústria, como a Política de Desenvolvimento Produtivo (2008) e o Plano Brasil Maior (2011), falharam em superar os desafios estruturais, ainda que promovessem ações importantes e estratégicas. A retração econômica, a falta de investimentos em inovação e a concorrência internacional resultaram na queda da participação da indústria no PIB, que caiu de 27,4%, em 2010, para 22%, em 2023, conforme dados do IBGE.
A indústria brasileira ainda não conseguiu cumprir plenamente o papel de superar a dependência e promover o desenvolvimento econômico e social esperados. As escolhas políticas cobraram seu preço. Como resultado, atualmente é uma indústria com baixa capacidade de gerar empregos de qualidade e de sustentar um processo de desenvolvimento econômico e social potente.
O processo de industrialização do Brasil aqui destacado revela as contradições e os desafios que marcaram o desenvolvimento no país. Mas a posição subordinada e dependente às economias centrais não é, contudo, uma particularidade brasileira. Outros países do Sul Global enfrentam dilemas semelhantes em relação aos seus parques industriais, ainda que marcados pelos seus contextos históricos, econômicos, sociais e culturais. Além disso, diversas nações periféricas sequer conseguiram estabelecer uma base industrial significativa, perpetuando sua inserção na economia mundial de forma primária e dependente.
No entanto, é importante destacar que nenhum país alcançou um desenvolvimento de longo prazo sem uma indústria dinâmica e relevante. Por isso, é essencial uma Política Industrial robusta, que supere os problemas históricos do desenvolvimento industrial em países periféricos, que reduza a dependência externa e garanta soberania nacional em setores estratégicos.
A reindustrialização/industrialização, a depender do país, também deve ser orientada para atender às demandas urgentes da população, assegurando bens e serviços essenciais para melhorar o padrão de vida da sociedade brasileira, tais como saúde, habitação, saneamento, mobilidade e acessibilidade, conectividade, segurança alimentar, difusão de energias renováveis, além promoção de infraestrutura adequada, entre outras demandas sociais de alto impacto. O desenvolvimento industrial deve ser visto como um meio para alcançar o desenvolvimento social e não um fim em si mesmo. Além disso, o processo deve estar alinhado com políticas de descarbonização da economia, preservação ambiental e investimento em energias renováveis e acessíveis. Também é fundamental que gere empregos de qualidade e contribua para a redução das desigualdades no mercado de trabalho e a pobreza.
Desse modo, o debate sobre como promover uma indústria orientada pelas demandas econômicas e sociais, de desenvolvimento soberano e ambientalmente sustentável, que promova distribuição de renda e redução das desigualdades é uma necessidade urgente dos países do Sul Global. Não à toa, este será um dos grandes temas a ser debatido na Conferência Dilemas da Humanidade: Perspectivas para a Transformação Social, que acontecerá no Sesc Pompéia, em São Paulo, entre os dias 7 e 10 de abril, onde estarão reunidos mais de 70 intelectuais e lideranças políticas de 20 países para debater saídas às diversas crises que a sociedade mundial enfrenta, seja ela social, ambiental, política ou econômica.
A indústria, como motor fundamental do crescimento econômico e social, continua sendo central para o futuro desse conjunto de países, mas em novas bases. Isso exige políticas consistentes e de longo prazo. O desafio é grande, mas não impossível.
Adriana Marcolino é Socióloga e Diretora Técnica do DIEESE.
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