O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, concedeu entrevista ao UOL nesta quarta-feira (26) e fez uma defesa firme da agenda econômica do governo, centrada no Plano Brasil Soberano e na reforma da renda. Ao longo da conversa, destacou que o país está preparado para enfrentar o tarifaço imposto por Donald Trump, defendeu uma tributação justa sobre os mais ricos e voltou a cobrar um novo marco regulatório para a mineração, com o objetivo de agregar valor às reservas nacionais de terras raras. 

Reforma da renda e justiça tributária

Um dos pontos centrais da entrevista foi a defesa da reforma da renda, que pretende simplificar e tornar mais progressivo o sistema tributário. “Para o andar de cima, que reclama do Estado, o Estado está muito leve. Os que reclamam do Estado são os que menos contribuem. Então estão reclamando de quê?”, questionou.

Segundo o ministro, todos os presidenciáveis precisam se posicionar sobre esse tema “decisivo para o Brasil”. Ele avaliou que a eleição deve repetir o clima acirrado de 2022, com a necessidade de reconstruir uma frente ampla, unindo setores democráticos de centro e centro-direita, opostos ao golpismo bolsonarista.

Haddad reforçou que a proposta não abrirá mão das compensações, avaliadas em cerca de R$ 30 bilhões por ano, para manter a neutralidade fiscal. E demonstrou confiança de que a Câmara não desfigurará o projeto: “Seria uma bomba que explodiria no colo de todo o país, não apenas do presidente Lula”.

Leia mais: O novo Imposto de Renda: quem ganha e como a economia se fortalece

Ele também defendeu tratamento isonômico entre instituições financeiras: fintechs devem pagar os mesmos impostos e estar sujeitas à mesma fiscalização dos bancos, evitando brechas que favoreçam o crime organizado. Quanto às bets, reconhece que o setor movimenta bilhões, mas ressalta que representam um risco à saúde pública, com estimativa de que 300 mil brasileiros possam desenvolver problemas de vício. Por isso, defende tributação maior e destinação dos recursos para financiar o SUS.

Sucessão presidencial e cenário político

Haddad defendeu a candidatura de Lula à reeleição, em 2026. Quando questionado sobre uma possível disputa com Tarcísio de Freitas, relembrou que o governador de São Paulo e aliado de Bolsonaro representa o projeto da Faria Lima e da elite financeira, contrário a taxar super-ricos. 

Ao comentar o julgamento de Jair Bolsonaro, que pode levá-lo à condenação por tentativa de golpe, foi enfático: “Se há provas de que alguém comprometeu a democracia brasileira, sou a favor de penas rigorosas. Liberdade é acordar no dia seguinte para pensar, falar e lutar pelo Brasil que você quer”.

Leia mais:  Alckmin e Haddad reforçam importância de garantir a soberania nacional e proteger a economia

Contexto internacional e Trump

Haddad classificou a política econômica de Trump como fator de instabilidade global. O tarifaço contra o Brasil, somado ao uso do dólar como “arma de guerra”, expõe o país a retaliações injustificadas. E afirmou que o governo já contratou advogados nos EUA para contestar medidas como a lei Magnitsky, que atinge autoridades e empresas brasileiras, e que adota uma postura “proativa” para desobstruir canais diplomáticos. 

O ministro também apontou que a disputa por minerais críticos e pela energia limpa coloca o Brasil no centro do jogo geopolítico. Nesse contexto, defendeu urgência na aprovação de um novo marco regulatório da mineração, especialmente para as terras raras, das quais o país possui uma das maiores reservas do mundo. “Não podemos repetir com as terras raras o erro que cometemos com o minério de ferro, exportando sem agregar valor. É preciso desenvolver tecnologia em parceria e garantir que essa riqueza fique para os brasileiros”, esclareceu.

Leia mais: AGU contrata escritório de advocacia nos EUA e fortalece defesa da soberania

Plano Brasil Soberano

Ao longo da entrevista, Haddad ressaltou que o Plano Brasil Soberano é a resposta estruturante do governo para enfrentar a conjuntura internacional, especialmente a taxação dos EUA, e proteger empregos. A estratégia combina política industrial, transformação ecológica, regulação estratégica da mineração e justiça tributária, garantindo que o crescimento seja inclusivo. 

Segundo o ministro, o Brasil tem condições de superar turbulências externas e seguir no caminho do desenvolvimento. “Nós não temos dívida externa, temos reservas cambiais expressivas, nossa economia está crescendo e o desemprego está na mínima. Nós vamos cuidar [do país]”.

Leia mais: Lula: “Nós somos um país soberano, temos uma Constituição e uma legislação”

CPMI do INSS e ONU

O ministro também comentou a instalação da CPMI do INSS, que classificou como oportunidade de “punição exemplar” a fraudes contra aposentados. Sobre o peso das emendas parlamentares, admitiu que o Executivo está em uma “armadilha legal” e que apenas o Judiciário poderá resolver o impasse sobre a constitucionalidade do mecanismo.

Por fim, Haddad destacou a importância da participação de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, marcada para este mês. Segundo ele, o presidente deverá reforçar a defesa do multilateralismo e da democracia em um cenário internacional conturbado. “É uma tribuna que o Brasil sempre ocupou bem e que agora precisa ocupar com uma mensagem ainda mais forte”, concluiu.

Da Redação

Categorized in:

Governo Lula,

Last Update: 28/08/2025