O governo dos EUA está implementando um conjunto de medidas que visam aumentar a produção de petróleo dos EUA em até 3 milhões de barris por dia. Essas ações compõem o chamado “Plano 333”, que traz três objetivos principais: a) Crescimento anual do PIB em 3%; b) Aumento da produção de petróleo em mais de 3 milhões de barris por dia; c) Redução do déficit fiscal para 3% do PIB. Atualmente os Estados Unidos mantêm uma produção diária de petróleo, de aproximadamente 13,5 milhões de barris, figurando como o maior produtor mundial. Só que o país mantém um consumo diário aproximado de 20 milhões de barris, o que leva à importação de uma parte significativa do consumo. Esse dado objetivo explica a posição do governo em relação à exploração de petróleo, no país e no mundo, porque boa parte da geopolítica dos EUA se subordina a esse déficit estrutural, no que se refere a fontes de energia.
Para alcançar o aumento na produção em mais de 3 milhões de barris por dia, o governo Trump vem encaminhando as seguintes medidas:
- Declaração de Emergência Nacional de Energia: Em janeiro último, o presidente dos EUA declarou uma emergência nacional no setor energético para acelerar a emissão de licenças e permissões para projetos de petróleo e gás;
- Revogação de Regulamentações Ambientais: Reversão de políticas ambientais anteriores, facilitando a exploração de petróleo em áreas como o Alasca e regiões costeiras;
- Incentivo à Produção Doméstica: Promoção de políticas para aumentar a produção interna de petróleo e gás, visando reduzir os preços da energia e fortalecer a segurança energética nacional.
Os cerca de 13 milhões produzidos pelos EUA diariamente, dificilmente serão atingidos por outro país, no curto prazo. Os dois países que vem em seguida no ranking, Rússia e Arábia Saudita, estão bem abaixo em produção -respectivamente, 10 milhões de barris dia e 9,7 milhões de barris dia. Isso até por decisão de política econômica, para manter um equilíbrio entre a oferta e procura do produto ao nível mundial. A Rússia não é membro oficial da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), porém compõe a aliança chamada de OPEP+, formada em 2016 para coordenar políticas de produção de petróleo entre os países membros da OPEP e outros grandes produtores não membros. Juntos, EUA, e Arábia Saudita produzem cerca de um terço do petróleo produzido globalmente.
Há um dado objetivo, que explica o “senso de urgência”, de qualquer governo dos EUA, independentemente do partido que esteja no poder, em relação à produção de petróleo. As reservas provadas de petróleo no país são estimadas em aproximadamente 55 bilhões de barris. Considerando o consumo médio diário de cerca de 20,25 milhões de barris em 2023, o consumo anual totaliza aproximadamente 7,39 bilhões de barris. Dividindo as reservas pelo consumo anual, elas seriam suficientes para aproximadamente 7,5 anos de consumo, se não houver a descobertas de novas jazidas, ou mudanças significativas no padrão atual de consumo.
É muito conhecida a relação entre fontes de energia e as guerras, de uma forma geral. Deve ter completado já um século que o petróleo emergiu como um fator central nos conflitos internacionais, a partir do momento em que sua importância como fonte de energia cresceu exponencialmente, a partir do desenvolvimento da petroquímica. Especialmente a partir da década de 1920, quando empresas como Standard Oil e Union Carbide começaram a produzir compostos a partir de subprodutos do petróleo. Posteriormente, durante a Segunda Guerra Mundial, o setor decolou definitivamente, em função da necessidade de produtos essenciais, como tolueno e glicerina, utilizados na fabricação de explosivos. Entre 1940 e 1950, os EUA duplicaram sua produção de produtos petroquímicos, tornando definitiva a importância dessa indústria no globo.
Muita gente não compreende como os EUA, e os países imperialistas em geral, mantém um estado artificial como Israel no Oriente Médio, utilizando ferro e fogo. Acontece que, já no final do século XIX, quando começa a aparecer o Movimento Sionista, o imperialismo já conhecia o significado econômico do petróleo para a humanidade e o peso do Oriente Médio no mapa mundial do petróleo. Dos 10 países com as maiores reservas petrolíferas do planeta (pela ordem, Venezuela, Arábia Saudita, Canadá, Irã, Iraque, Rússia, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, EUA e Líbia), metade deles se localiza no Oriente médio. Ainda não havia surgido toda a cadeia petroquímica, como se conhece hoje, mas já se sabia da importância do produto para praticamente a fabricação de tudo.
A Palestina tem localização estratégica, é uma área fundamental de controle geopolítico e econômico. De um lado, o Egito e o canal de Suez, onde se movimenta, aproximadamente, de 12% a 15% do comércio mundial (percentual histórico, não no último ano, que caiu muito por causa da guerra em Gaza). De outro lado, uma série de países, com imensas reservas petrolíferas, e muito difíceis de controlar diretamente. O estado de Israel, sustentado principalmente pelos EUA, deveria funcionar como uma mola de controle fundamental da Região que detém mais de 63% das reservas de petróleo do mundo.
Enquanto isso, o Brasil continua discutindo se explora ou não petróleo na sua Margem Equatorial, região localizada ao largo dos estados do Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Para a Petrobrás essa região é considerada uma nova fronteira exploratória com potencial muito significativo, estimado em mais de 30 bilhões de barris de petróleo.
Especialistas têm considerado a Margem Equatorial brasileira como um potencial “novo pré-sal” devido às perspectivas promissoras de descobertas de petróleo em países próximos, como Guiana e Suriname, que recentemente realizaram descobertas muito importantes.
Já em 2023, a Petrobras solicitou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) licenças para perfuração na Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial, para fins de pesquisa. Mas o Ibama negou essas autorizações devido a alegações ambientais, especialmente relacionadas à proteção da fauna marinha. A Petrobras recorreu da decisão, mas até agora nada foi decidido, mesmo com o apoio expresso do presidente da república à exploração do petróleo na área.
Enquanto o Brasil patina em torno de um dilema único no mundo, ali ao lado, a ExxonMobil anunciou recentemente que irá aumentar a produção de petróleo em 650 mil ao dia na Guiana, para 900 mil barris diários e aumentar em 28,3 milhões de metros cúbicos de gás. O Acordo do Petróleo (PA), assinado entre a ExxonMobil e o governo da Guiana, em 2016, pode nos dar uma noção da importância de os países terem empresas públicas de petróleo, como ainda tem o Brasil (apesar de tudo). Pelo mencionado Acordo, a multinacional americana fica com 85,5% das receitas do negócio, enquanto o governo da Guiana tem direito a apenas 14,5%. A coisa é tão absurda, que o artigo 15.1 do contrato, prevê que o ministro do Petróleo da Guiana tem a autoridade para pagar os impostos de renda das empresas petrolíferas utilizando a parte dos lucros que seria destinado ao governo da Guiana.
No Brasil, como vimos, o governo vem enfrentando dificuldades para explorar novas fontes de petróleo. O país, que sofreu um golpe de Estado recentemente, no qual o principal interesse econômico foi o petróleo, e é presidido por um político que foi encarcerado diretamente pelo imperialismo norte-americano, deveria prestar muita atenção em formulações como: “Os Estados Unidos são dirigidos pelos interesses de corporações e as relações exteriores não são promovidas pela sua chancelaria, mas por esses grupos econômicos. São ditadas por essas empresas petroleiras transnacionais. Elas buscam o lucro e o dinheiro e relatam contratos que acabam levando a uma agenda de intromissão e de desequilíbrio que coloca em risco a paz e a estabilidade” (ver em https://www.brasildefato.com.br/2025/02/21/exxonmobil-aumenta-producao-de-petroleo-na-guiana-e-amplia-disputa-geopolitica-na-regiao/).