A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) assinou um acordo de cooperação com a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), consolidando o envolvimento institucional do Brasil, por meio do Estado de São Paulo, nas atividades científicas do maior laboratório de física de partículas do mundo.
Localizado na fronteira entre a Suíça e a França, o Cern abriga o Grande Colisor de Hádrons (LHC), o mais potente acelerador de partículas já construído. A parceria permitirá ampliar e estruturar a participação de pesquisadores e estudantes de pós-graduação paulistas em projetos científicos estratégicos do centro europeu.
“A participação de pesquisadores paulistas no Cern era feita por meio de projetos individuais, submetidos à Fapesp. Por meio do acordo, a Fundação passa a ser a interlocutora direta. Isso coloca a Fundação em um outro patamar na relação com o Cern, que passa a ser mais institucional, e amplia o escopo de oportunidades de participação da comunidade científica do Estado de São Paulo em projetos colaborativos utilizando a fantástica infraestrutura de pesquisa do observatório”, afirmou o diretor científico da Fapesp, Marcio de Castro.
O novo acordo marca um avanço importante no processo de integração do Brasil ao sistema internacional de pesquisa de ponta. Desde que o país se tornou Estado-membro associado do Cern – o primeiro das Américas –, tem buscado consolidar sua presença em diversas frentes de investigação no laboratório europeu.
“Os primeiros passos na implementação deste acordo [com a FAPESP] já são extremamente positivos no que diz respeito ao compartilhamento dos custos de manutenção e operação das infraestruturas de pesquisa localizadas no Cern, que são utilizadas pela comunidade de pesquisadores do Estado de São Paulo em experimentos específicos realizados no acelerador LHC [Grande Colisor de Hádrons]”, destacou Salvatore Mele, conselheiro sênior de relações internacionais do Cern.
Mele também ressaltou que há conversas em curso sobre as atualizações tecnológicas nos detectores do LHC, planejadas para a próxima década, as quais pretendem acompanhar o aumento do potencial físico do equipamento.
Contribuição brasileira
Pesquisadores paulistas já participam de três das quatro grandes colaborações científicas do LHC: Atlas, Alice e CMS, todas voltadas à investigação das partículas geradas nas colisões de alta energia. Entre os destaques está o papel do Brasil na descoberta do bóson de Higgs, em 2012, por meio da colaboração CMS.
Um dos polos brasileiros de contribuição é o Centro de Pesquisa e Análise de São Paulo (SPRACE), sediado na Unesp, que opera uma rede de processamento de dados para o CMS. O centro integra o Worldwide LHC Computing Grid (WLCG), uma rede que conecta 100 mil processadores em 34 países para analisar os dados gerados pelas colisões do LHC.
Outro exemplo de protagonismo paulista é o desenvolvimento do chip Sampa, criado por pesquisadores da Escola Politécnica da USP e incorporado ao sistema de detecção do experimento Alice em 2020.
“A participação ao longo dos últimos anos das instituições de pesquisa paulistas em grandes colaborações de física de altas energias, em grande parte financiada pela FAPESP, tem apresentado resultados importantes para a ciência brasileira, como o próprio desenvolvimento do chip Sampa – um produto de alta tecnologia, empregado hoje em diversos experimentos similares pelo mundo -, bem como o estudo de aspectos fundamentais da natureza, como a origem da massa das partículas”, afirmou Marcelo Gameiro Munhoz, professor do Instituto de Física da USP.
Munhoz coordena um projeto financiado pela Fapesp que garante, pelos próximos cinco anos, a presença de cientistas paulistas nos experimentos Alice e Atlas, além do desenvolvimento de tecnologias em instrumentação nuclear nos projetos DRD1 e DRD3 do Cern.
Ciência de ponta
O experimento Alice, criado em 2010, tem como foco o estudo do plasma de quarks e glúons, estado da matéria que existia nos primeiros instantes do Universo. As análises permitem inferir propriedades da matéria em condições extremas, similares às do Big Bang.
Um dos objetivos da nova fase da colaboração é desenvolver detectores de alta tecnologia, como os do tipo MPGD (MicroPattern Gaseous Detectors) e sensores de silício ultrarrápidos, capazes de avançar o conhecimento sobre as partículas fundamentais da natureza.
“A proposta do projeto é permitir uma participação relevante no design, construção e operação de novos sistemas de detectores nas colaborações Alice e Atlas, além de contribuir para reduzir estrategicamente a dependência do país em relação à tecnologia de ponta para detecção de radiação e processamento de sinais”, explicou Munhoz.
Planejamento e futuro
Segundo Luiz Vitor de Souza Filho, coordenador-geral de Programas Estratégicos e Infraestrutura da Fapesp, o acordo institucionaliza o relacionamento com o Cern e abre novas possibilidades de planejamento conjunto para projetos científicos de longo prazo.
“O acordo permite não só institucionalizar a relação da Fapesp com o Cern, como também abre portas para que a concepção e gestão de projetos colaborativos futuros sejam mais bem planejadas”, concluiu.
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