Falando sério…, por Fausto Godoy

O site “Carta Capital” noticiou, no dia 28/07, que “o Governo da China quer ajudar o Brasil após o tarifaço de Trump”. Segundo o artigo, “o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que o seu país está disposto a “trabalhar com o Brasil” para lidar com o tarifaço de 50% anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump”.

Segundo a Chancelaria chinesa, ‘guerras tarifárias não têm vencedores’. Desta forma, “decisões unilaterais não atendem aos interesses de ninguém, e não têm vencedores’. Prosseguindo, o porta-voz da Chancelaria afirmou que “…estamos prontos para promover a cooperação relevante com base nos princípios de mercado”. Ele acrescentou que Pequim considera importante esta cooperação voltada para resultados… Conforme disse, “a China está pronta para trabalhar com o Brasil, com outros países da América Latina e do Caribe e com os países do Brics para, em conjunto, defender o sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio e na equidade, com base nos princípios de mercado”. Questionado sobre uma abertura mais significativa do mercado chinês a produtos que o Brasil exporta atualmente para os Estados Unidos, Guo citou entre os exemplos os aviões da Embraer.

Esta afirmação ganha maior relevo diante do acordo firmado ontem, domingo (27/7), após uma reunião de Donald Trump com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Edimburgo, na qual as tarifas europeias foram reduzidas dos 50% ameaçados para 15%, a exemplo do que já acontecera com o Japão e a própria China. Desta forma, após este acordo o Brasil vai ficando no final da fila, e com chances cada vez menores de escapar do “tarifaço”… uma decisão de cunho político insofismável, portanto!

Não quero entrar aqui nas razões/discussões políticas que mobilizam cada um, e todos nós, tão à flor da pele neste momento. Sou mais ambicioso…gostaria de abordar a mutação do eixo da globalização e da crescente influência da China no sistema político e econômico internacional e, com ela o que me parece ser a cristalização da transferência da hegemonia econômica – e por corolário política – para o Continente asiático, liderada pela República Popular…

Terrível?…Ameaçador?…Fantasia?…

Vamos aos fatos: segundo o Fundo Monetário Internacional, entre as dez maiores economias mundiais em termos de Produto Interno Bruto, três são asiáticas: China (2ª.); Japão (4ª.) e Índia (5ª.) – como sabemos, os EEUU são a primeira. Entretanto, se considerarmos o PIB “per capita”, ou seja, a medida da riqueza média produzida por cada pessoa em um determinado país, ou região, as economias asiáticas passam a liderar: China (1ª); Índia (3ª,); Japão (5ª.); e Indonésia (7ª.). Os Estados Unidos ocupam o 2º. lugar…

Em termos de propriedade intelectual, que define o status da pesquisa tecnológica, segundo a Organização Internacional da Propriedade Intelectual (OMPI) os países que mais registraram pedidos de patentes de propriedade intelectual no ano passado, foram China, Estados Unidos, Japão, República da Coreia e Alemanha, sendo que a China lidera em vários indicadores, incluindo desenhos industriais e marcas, acompanhada do Japão e da Coreia do Sul…entre os quatro países, apenas, que conseguiram pousar com sucesso seus artefatos na lua, dois são asiáticos: China e Índia. O Japão tornou-se o quinto ao realizar um pouso lunar em janeiro de 2024, embora tenha enfrentado desafios com a geração de energia após o pouso.

Obviamente estou falando em termos de sucessos tecnológicos. Em termos de comércio, a China é o principal parceiro de cerca de 130 dos 195 países do mundo, inclusive dos Estados Unidos. Isto significa que, para muitos, a República Popular é o maior destino das suas exportações, ou a maior fonte de suas importações.

Estes são dados consolidados que mostram o quanto o nosso tão maltratado planeta mudou desde o início deste século… Agora, é em termos geopolíticos que surge o X da questão…ainda vivemos os eflúvios das teorias políticas e econômicas que embalaram o século XX, para mim ultrapassadas, mas que ainda nos assustam… Chamar de “comunista”, com toda a ameaça abstrata que este termo significa, a China, o pais que possui o maior número de bilionários (privados) do planeta, ou de “subdesenvolvido” um dos países mais avançados em tecnologia da informação – a Índia -, com uma população jovem (mais da sua metade de seus 1,4 bilhão de habitantes tem menos de 25 anos de idade) e pujante, e apostar todas fichas no Ocidente central, cada vez mais envelhecido e confortável no seu “status quo”, me parece um lento suicídio civilizacional…estas minhas reflexões não derivam de ideologia resultante de leituras, estudos e pesquisas, apenas, mas de vivência em onze desses países asiáticos, inclusive na China e na Índia, ao longo de quase dezesseis anos…Portanto: ”meninos, eu vi…”

Talvez tenha chegado a hora – e a oportunidade – de nos revermos, a nós e ao nosso papel como país no mundo. Somos maiores do que muitos de nós imaginamos, e merecemos – assim como todos os outros países – o respeito que a nossa História e a nossa Civilização forjaram para nós…”as simple as that”…

To be continued…

Fausto Godoy, Serviu nas Embaixadas do Brasil em Bruxelas (1978); Buenos Aires, (1980); Nova Delhi (1984); Washington (1992) e Tóquio (2001). Foi designado Embaixador junto aos governos do Paquistão (2004) e Afeganistão (2005). Serviu posteriormente em Hanoi (2007); Consulado do Brasil em Tóquio; Escritório Comercial do Brasil em Taipé; e nas Embaixadas do Brasil em Bagdá (sediada em Amã), Daca, Astana e Yangon. Foi Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai (2009). Aposentou-se do Serviço Exterior Brasileiro em 2015. Doou sua coleção de arte e etnologia asiáticas (com cerca de 3.000 peças), ao Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba. Esta coleção constitui a primeira ala asiática em um museu brasileiro. É membro da Diretoria da Câmara de Comércio Brasil-Índia. É coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos na ESPM.

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Last Update: 30/07/2025