Com o debate sobre o ECA Digital, pesquisadora Bruna Camilo expõe modus operandi de como o campo conservador adota um discurso de preocupação com a infância, mas na realidade age de outra forma

Em agosto, o país assistiu ao choque ao vídeo “adultização” , do influenciador Felipe Bressanim, conhecido como Felca, onde ele denunciou uma rede bem articulada que promove a exploração sexual de crianças e adolescentes. 

A partir daí, o debate extrapolou para a arena digital e chegou aos corredores do Congresso Nacional, que aprovaram, nesta semana, Projeto de Lei (2628/2022), chamado de ECA Digital. E, com isso, suscitou uma agenda há muito tempo defendida e alertada pelas feministas: a exploração sexual de crianças nas redes sociais, sexualizando e promovendo um espaço de pedofilia.

O tema mobilizou a companheira Bruna Camilo, doutora em sociologia pela PUC Minas, pesquisadora de gênero, misoginia e violências, para produzir o artigo “Hipocrisia seletiva: o discurso da extrema direita contra a exploração infantil nas redes e a negligência diante das violências reais” 

O texto publicado no site Teoria e Debate, da Fundação Perseu Abramo, oferece um panorama sobre de que a forma a extrema direita procura se apropriar da pauta de proteção da infância como uma bandeira moralista, utilizando-se de casos de exploração sexual infantil redes como símbolo da decadência da sociedade moderna e da suposta ameaça de uma “ideologia de gênero”. 

“Me inquietou muito ver figuras da extrema direita indignadas com a exploração exposta recentemente sendo que houve casos em que a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) tentou impedir que uma menina de 10 anos fosse vítima de abuso sexual, realização ou aborto legal. Me inquietou porque a extrema direita não se preocupa com as crianças como deveriam. A extrema direita quer controlar os corpos, e quer começar a fazer isso desde a infância”, justifica a mineira.

O debate já era pauta na agenda progressista

A autora explica que mesmo não utilizando o termo “adultização” muitos grupos do campo progressista já estavam em alerta sobre a problemática. “Digo principalmente pelos movimentos feministas que há tempos expõem como meninas são exploradas nas redes sociais, como meninos são moldados para disseminarem discursos misóginos, envolvendo religião e moralismo. Mas é importante reconhecer que a recente exposição foi, e tem sido, fundamental para furar a bolha, e escancarar uma realidade que é exposta nas telas de celulares e computadores. Então que esse debate promova políticas públicas de proteção, e que o impacto não seja apenas uma onda passageira. Foi um impacto importantíssimo, mas ele não pode ser instrumentalizado por aqueles que querem a manutenção do patriarcado, da misoginia e do capitalismo”, defende a pesquisadora.

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Questionado sobre o que seria o discurso moralista sobre a proteção online, o autor explicou que a extrema direita o adota e apresenta como argumento de defesa da segurança digital, especialmente de crianças, adolescentes ou grupos considerados “vulneráveis”, mas se estrutura mais em termos de controle de condutas e valores do que em orientações práticas de cuidado. 

“Essas práticas deslocam a discussão da esfera técnica, como segurança de dados, uso de senhas, privacidade, educação digital, para a esfera moral (pureza, bons costumes, disciplina). Ou seja, o discurso moralista sobre proteção online se preocupa mais em comportamentos regulares e importantes normas de conduta do que em oferecer ferramentas críticas e educativas para navegação de modo seguro e consciente”, disse.

De acordo com Camilo, a extrema direita escolhe essa agenda por ser um campo vasto para explorar e articular medo, moralidade e controle social. Controlar a heteronormatividade que ainda é o padrão de sexualidade em nossa sociedade e a cisnormatividade que exclui corpos trans, por exemplo.

“O discurso de ‘proteção’, muitas vezes, não se refere à segurança digital real, mas à tentativa de controlar conteúdos ligados a gênero, sexualidade, diversidade e liberdade de expressão. A pauta da ‘proteção’ é usada como escudo para censurar debates sobre sexualidade, direitos LGBTQIA+ ou educação sexual online. Todas essas pautas são vistas como inimigas da família tradicional brasileira. São ações para promover a manutenção do patriarcado, ou seja, subalternização das mulheres e LGBTQIAPN+ principalmente. O controle dos corpos é um projeto político de extrema direita como uma categoria de poder. Como diz Joan Scott: ‘Se controlam o gênero e tudo que atravessa essa categoria, controlam o poder, a política’”, contextualiza.

Importância do ECA Digital

Com o apoio decisivo da bancada petista, o Plenário do Senado aprovou o projeto que trata da proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. O ECA Digital  é uma proposta legislativa que representa um passo fundamental para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital brasileiro. 

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“O ECA digital se mostra importante porque pode proteger diretamente os menores de conteúdos contratados, estabelece controles e limites técnicos claros, parece garantir transparência e responsabilização. Ela sendo bem direcionada e colocada em prática, pode constituir um verdadeiro marco regulatório para preservar a infância no mundo virtual. Além disso, um ponto que me importa é que, aponta apoio às famílias e educadores em uma era de sobrecarga e dificuldade de acompanhar as redes sociais dos jovens e crianças”, argumenta.

Extrema direita desvirtua a verdade

Não é de agora que o mundo assiste a uma verdadeira onda de fake news e conceitos que buscam relativizar a verdade. Desde a primeira eleição de Donald Trump (EUA), o termo “pós-verdade” ganhou adeptos entre aqueles que comungam da mentira como forma de se comunicar.

Ao ser questionado sobre por qual razão a extrema direita adota uma postura de desvirtuar o conceito de verdade, invalidando dados técnicos e científicos, a companhia detalha que a extrema direita prefere narrativas curtas, emocionais que afetam algo na emoção das pessoas. 

Isso, segundo ela, produz pertencimento, porque é mais fácil aderir a uma explicação binária do que lidar com incertezas ou com aquilo que determinado grupo não quer que seja verdade. Além do fato de os extremistas utilizarem a produção de inimigos para se fortalecerem, o tal do “Nós x Eles”. 

“Ao invalidar a ciência, crie-se ‘inimigos’ claros: jornalistas, professores, médicos, intelectuais. A verdade passa a ser uma disputa política, não um processo de verificação. Isso alimenta o ressentimento contra grupos sociais específicos. Não é simples enfrentar o negacionismo, porque respostas muitas vezes não funcionam contra narrativas científicas construídas no campo emocional”, explica.

Por isso, para buscar reverter este cenário e movimento, Camilo defende a importância da promoção da educação digital. Para ela, é preciso construir redes de confiança, como professores, médicos de família, comunicadores locais, que se aproximam da ciência da vida cotidiana. 

“Disputar as narrativas, fundamental! E fazer essas disputas de formas atrativas, traduzir descobertas científicas em histórias, metáforas e exemplos que geram identificação, em vez de apenas contrapor números. Temos visto muito isso nas redes sociais do governo federal e ministérios explicando através de gatinhos, capivaras, etc, não somente desmascarar as mentiras, mas, também, expor os divulgadores”, justifica.

Da Redação do Elas por Elas

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Last Update: 31/08/2025