A ilusão da trégua durou pouco. Na segunda-feira 18, após obter o aval da Casa Branca, Israel retomou o bombardeio da Faixa de Gaza. No primeiro ataque, mais de 430 palestinos morreram. A relutância do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em iniciar a segunda fase do acordo de cessar-fogo tem a ver com os movimentos da política doméstica. Horas depois do início dos ataques, o ultradireitista Itamar Ben Gvir, líder do partido Otzma Yehudit (Poder Judaico), anunciou o retorno à coalizão de governo que havia deixado no início do ano por se opor à interrupção das operações militares.
O argumento oficial para a quebra do acordo seria destruir o Hamas e resgatar os reféns israelenses ainda mantidos em Gaza (58 no total, dos quais 34 mortos). Na terça-feira 19, a ONG Defense for Children – Palestine contabilizou, no entanto, o assassinato de 174 crianças, no dia mais letal na história do território para menores de idade. Matar crianças não é exatamente uma estratégia para exterminar o grupo armado. Na verdade, não passa de uma desculpa que quase ninguém na diplomacia internacional se dispõe a acreditar. A organização “Banco de Dados de Localização e Evento de Conflitos Armados” (Acled, na sigla em inglês) lançou, em 6 de outubro do ano passado, quando a invasão de Gaza completava um ano, um relatório sobre o então estado das forças do Hamas. Segundo a estimativa, antes do 7 de outubro, o grupo tinha entre 25 mil e 30 mil combatentes. Um ano depois, a inteligência israelita alegava ter reduzido o efetivo inimigo a 8 mil, mas a Acled contestava e calculava a sobrevivência de ao menos 16 mil “soldados” ativos.
Mais recentemente, em 14 de fevereiro, Ameneh Navar, analista da mesma organização, disse que o cessar-fogo interessava ao Hamas porque a organização queria evitar novos confrontos e se reagrupar. À revista Newsweek, o especialista afirmou que a facção estava “longe de ser eliminada” e ainda manteria “alguma capacidade operacional por meio da guerra de guerrilha e se reagruparia em áreas no norte” do enclave. O grupo, acrescentou, “foi significativamente enfraquecido, perdendo grande parte de sua liderança, militantes treinados e capacidade de combate organizado”.
Mas o que dizem as ruas palestinas? Diante da agressão israelense – o avanço sobre o norte da Cisjordânia, na região de Jenin, com a Operação Muralha de Ferro, e a interrupção do cessar-fogo –, o horizonte político ganha novas formas. Nesse contexto, ainda há um lugar para o Hamas no campo político da resistência? Mouin Rabbani, pesquisador, analista e ex-diretor do Escritório do Enviado Especial da ONU para a Síria, afirma que “a ação do Hamas buscou mandar uma mensagem a Israel, à região e ao mundo. Ou seja, demonstrava que o padrão dos últimos anos, onde os governantes podiam ignorar os palestinos, não era mais uma posição sustentável”. Ou seja, esse é o quadro, 15 meses depois da operação, que ainda deve ser navegado politicamente. Completa, porém, o especialista: “Expor as vulnerabilidades da estrutura de ocupação de Israel sobre o povo palestino teve um preço”.
O cientista político e diretor do Instituto de Progresso Social e Econômico (Ipse), em Ramallah, Zayne Abudaka, diz que, segundo uma pesquisa lançada em janeiro último (foram 600 entrevistados na Cisjordânia e 380 em Gaza), os palestinos enxergam com bons olhos, em graus diferentes, três formas de atuação complementares para atingir a libertação. Os habitantes de Gaza responderam da seguinte forma: 85,7% apoiam em alguma medida o BDS (campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções), 58% defendem a luta armada e 59,6% preferem as negociações diplomáticas. Na Cisjordânia, os números foram 84% para o BDS, 51,1% para a luta armada e 92,9% para as negociações.
O apoio às negociações pode ser visto como surpreendente, mas, diz Abudaka, quando o ataque de outubro ocorreu, o desejo por uma solução negociada aumentou. “Isso acontece porque os palestinos sentiram que tinham mais agência, que pela primeira vez haviam escapado da prisão de Gaza. Na verdade, agora poderiam conseguir algo porque tinham mais poder na relação com Israel.”

Porta-voz. Anda difícil saber em nome de qual liderança fala Hazem Qassem – Imagem: Redes Sociais/Hamas
E qual a visão sobre o Hamas? O primeiro dado é que o grupo tem perdido popularidade em Gaza. A pesquisa do Ipse detectou que 17,6% dos habitantes da região gostariam que o grupo administrasse o território. A esmagadora maioria, 73,1%, prefere, no entanto, um governo da Autoridade Palestina. Na Cisjordânia, a preferência se inverte. No território ocupado, 18,2% apoiam a Autoridade Palestina, enquanto 54,5% estão com o Hamas. A diferença, avalia Abudaka, pode ser explicada por um velho ditado: a grama do vizinho é mais verde. “Cada lado vive sua própria realidade. Na Cisjordânia, eles sentem que a Autoridade não defende a população de Israel. Aí olham para Gaza, e lá o Hamas combate as forças israelenses. Já em Gaza, apesar da resistência, o Hamas tornou-se a força de governo em algumas áreas, o que o fez muito impopular, por conta da pobreza, da desigualdade e dos ataques à oposição. Os moradores de Gaza olham para a Cisjordânia e enxergam uma situação econômica melhor.”
Quando os palestinos da Cisjordânia são questionados sobre o atual governo da ANP, atualmente liderado pelo primeiro-ministro Mohamed Mustafa (o presidente é Mahmoud Abbas), 6% o consideram excelente, 23,2% regular e 42,2% ruim. Já a opinião em Gaza distribui-se entre 5,9% excelente, 34,8% regular e 14,8% ruim.
A legitimidade no campo palestino tem dois eixos, diz o cientista político. O primeiro é democracia e representatividade. “A maioria absoluta da opinião pública palestina acredita que democracia e eleições livres são os meios mais adequados de governo.” O segundo eixo é a resistência. “Então, para que qualquer partido ou movimento político ganhe legitimidade, ele deve equilibrar-se entre os dois.”
Para Rabbani, os palestinos pagam o preço da falta de uma “estrutura política unificada em um só movimento, tomando decisões por consenso, uma liderança coletiva que aborde as questões-chave”. O ponto central para o analista é o fato de a Autoridade Palestina ter perdido “qualquer legitimidade que tenha tido antes de 7 de outubro”, muito também pela imagem que o Hamas projetou. “Hoje, a Autoridade é vista virtualmente como uma extensão da ocupação israelense.” •
Publicado na edição n° 1354 de CartaCapital, em 26 de março de 2025.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Duplo desgaste’