“OLÁ, ESTAS SÃO AS NOTÍCIAS DO HOSPÍCIO!”, anunciava o efusivo apresentador, também conhecido como eu, aboletado numa bancada feita com dois cavaletes e uma prancha de surfe, referência à primeira entrevista concedida pelo Bozo recém-eleito, na qual uma prancha inacreditável já sinalizava o caldo que estaria por vir. “UM COMPÊNDIO DOS ACONTECIMENTOS MAIS SURREAIS DOS ÚLTIMOS DIAS, AQUI, NA TÁBUA DA BEIRADA DA TERRA PLANA!”
O NH, Notícias do Hospício, acontecia no YouTube de CartaCapital, e procurava registrar desde a cognição prejudicada dos bolsominions até o movimento dos peões – imprensa, políticos, juízes e empresários – na condução do gado para a braquiária mais oportuna. Em suma, um freak show que, olha o equívoco, julgava ter como data de validade o fim daquela sofrência moral e estética a que chamávamos governo.
NH já tinha ido para o saco quando Lula foi eleito e tomou posse o sentimento de que, retirado o Bozo do picadeiro, todos voltariam a tomar em dia seus remedinhos, restabelecendo a normalidade que em nada contribuía para as nossas pautas. Sem os bolsominions, era como o Balanço Geral sem homicídio, a Mesa-Redonda sem o pênalti roubado. O Gardenal, tomado direitinho, sepultava em definitivo as Notícias do Hospício.
Agora, senhores, olha a prova de que, no que tange à avaliação do cenário, todo mundo tem seu tempo de Demétrio Magnoli. Nem bem virou o ano e aquele pessoal se acercou dos quartéis a rezar para pneu e enviar mensagens a extraterrestres enquanto aguardavam as 72 horas para o desenlace final.
O atento leitor se lembrará de Vitor Belfort, o campeão de UFC, a exigir que um certo general “Benjamin Arrola” se erguesse ereto pela Pátria. Sem falar do Patriota do Caminhão, o loucaço em estado de arte.
Ficará para os anais e vaginais da história a Galoucura a avançar rumo a mais uma rodada do Brasileirão durante o bloqueio das estradas. A cada barreira ultrapassada pelos bandeirantes ao contrário, saídos de Minas rumo a São Paulo, Josias se regozijava: “É a Tropa do Fura-Bloqueio! B…! B…!”, dizia, em vídeo e in loco, a evocar a genitália feminina. O presidente da organizada do Galo fez mais pela democracia do que o presidente do Congresso, que fase.
Assim foi e continuou sendo, para o desafio das nossas faculdades mentais e o parco entendimento das esquerdas a respeito da ascensão daquela gente estranha. Com a eleição de Trump, foi como se o Hospital Psiquiátrico do Juqueri tivesse estendido suas fronteiras, partindo de Franco da Rocha para abraçar toda a Grande São Paulo, o Brasil e, finalmente, o mundo.
Coitado do roteirista de ficção perto do Elon Musk, esse Darth Vader completamente inverossímil de tão caricato, o bolha total que, de tão bolha, seria gongado em Hollywood. E o Bananinha lá, todo pimpão, a prova de que a chapa do hambúrguer pode realmente conduzir o sujeito a posições insuspeitadas.
Por aqui, tivemos a manifestação de domingo passado, o já conhecido showroom da nossa indigência intelectual, adornado pela cafonália completa, aquele misto de casa de bingo com templo da Universal.
Assim como o Fantasma do Rebaixamento em início de temporada, tava sumido o Fantasma do Comunismo, convocado agora pelo Chupetinha. Ainda mais fantasmagórico foi o público. Segundo pesquisadores da USP, pouco mais de 18 mil integrantes da seita. Para a PM do Rio de Janeiro, 216 anos de serviços prestados à criminalidade, ops, à comunidade, o rebanho contava 400 mil cabeças. O que leva a crer que havia ao menos 800 mil acompanhando a final do Carioca no Maracanã. O Sensacionalista, mais crível, noticiou a busca da PM por homens interessados em medir o tamanho de seus pênis.
Conferir à extrema-direita o diagnóstico da loucura carrega em si um risco, assumido por este escriba em prol da poesia de um Notícias do Hospício. A loucura é inimputável, e já está claro tratar-se menos disso e mais da estratégia neofascista que se aproveita da frustração com a democracia, além dos malditos algoritmos.
Tal estratégia, no entanto, não pode abdicar de radicais um tanto fora da caixinha, uma gente realmente dodói, vamos combinar, que compõe a linha de frente e retroalimenta o projeto fascista. De forma que o hospício segue necessário, e por isso é imperativo o engajamento na luta antimanicomial. Como travá-la, porém, segue um mistério.
Ao aderir à comunicação pela via do boné, citar a “mulher bonita” como atributo relevante ao trabalho de Gleisi Hoffmann, e por fim anunciar a caça ao “pilantra que aumentou o ovo”, Lula pulou para dentro do Juqueri e partiu para a disputa dos corações e mentes de seus internos. Na tentativa de se recuperar, vestiu a camisa… de força. Errado não está. •
Publicado na edição n° 1354 de CartaCapital, em 26 de março de 2025.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘De volta, Notícias do Hospício’