A parceria com o Cazaquistão ganha força com investimentos em tecnologia, transporte e cultura, consolidando Pequim como pilar regional de confiança
Em um mundo fragmentado por conflitos prolongados, disputas tarifárias e desconfiança crescente, a cidade portuária de Tianjin se converteu, neste fim de semana, no epicentro de uma nova ordem global em gestação. A cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), a maior desde a fundação do bloco, não é apenas uma reunião de líderes; é a manifestação inequívoca de uma visão de mundo liderada pela China, que contrapõe a instabilidade ocidental com uma proposta de desenvolvimento sustentável, segurança mútua e cooperação estratégica. Sob a liderança do presidente Xi Jinping, Pequim não está apenas reagindo às crises, mas ativamente construindo uma arquitetura alternativa de poder e prosperidade, onde o respeito à soberania e o destino comum são os pilares fundamentais.
O exemplo mais eloquente dessa visão em prática é a relação com o Cazaquistão. O encontro entre Xi Jinping e o presidente Kassym-Jomart Tokayev, o segundo em apenas dois meses, transcende a diplomacia protocolar. É, nas palavras do próprio líder chinês, a prova concreta do “alto nível” de uma “parceria abrangente e eterna”. Enquanto outras potências globais baseiam suas alianças em condicionalidades e pressões, a China consolida seus laços na vizinhança com base na confiança mútua e no apoio incondicional em questões de interesse vital.
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A declaração de Xi é clara: China e Cazaquistão são parceiros unidos por um caminho compartilhado, “independentemente das mudanças no ambiente internacional”. Esta é a essência da soberania chinesa em ação: a capacidade de forjar relações estáveis e previsíveis, imunes às turbulências e pressões externas.
Essa parceria não se limita a discursos. Ela se materializa em projetos concretos que geram prosperidade mútua. A inauguração de mais dois Workshops Luban em importantes instituições de ensino cazaques é a prova viva de que a cooperação sino-cazaque é voltada para o futuro.
Em vez de simplesmente extrair recursos, a China investe na capacitação da juventude local, transferindo conhecimento em áreas estratégicas como logística, transporte, digitalização e inteligência artificial. O resultado é palpável: o comércio bilateral atingiu um recorde histórico de US$ 44 bilhões em 2024, consolidando a China como o principal parceiro comercial do Cazaquistão.
O anúncio do “Ano do Turismo Chinês no Cazaquistão” e a futura criação de um Centro Cultural Cazaque em Pequim aprofundam ainda mais esses laços, demonstrando uma parceria holística que valoriza tanto o desenvolvimento econômico quanto o intercâmbio humano e cultural.
O que se observa na relação com o Cazaquistão é um microcosmo da estratégia chinesa para a OCS e para o mundo. A cúpula de Tianjin, com a presença de dezenas de líderes mundiais, incluindo figuras centrais como Vladimir Putin, Narendra Modi e Recep Tayyip Erdogan, além do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, mostra a força de convocação da China e a relevância crescente do bloco.
Enquanto os Estados Unidos, sob a segunda presidência de Donald Trump, reforçam medidas protecionistas e ampliam tarifas, a China abre seus braços, oferecendo um porto seguro para o Sul Global. A OCS já responde por quase um quarto do PIB global e 17,5% do comércio mundial, números que atestam sua vitalidade econômica como alternativa ao sistema dominado pelo Ocidente.
A agenda da cúpula, com o lema “Ano do Desenvolvimento Sustentável”, e a iminente adoção da “Declaração de Tianjin” e de uma estratégia de cooperação para a próxima década, sinalizam um projeto de longo prazo. A China não busca soluções paliativas, mas a construção de um arcabouço duradouro para a segurança e o desenvolvimento. As ofertas de 1.000 bolsas de treinamento em tecnologia digital, o convite para adesão ao sistema de navegação BeiDou e a participação no projeto da Estação Internacional de Pesquisa Lunar são mais do que gestos de boa vontade; são convites para que os parceiros da OCS participem de um futuro tecnológico e científico liderado por uma visão inclusiva.
Em um cenário onde o Ocidente reativa sanções contra o Irã e aprofunda divisões, a China utiliza a plataforma da OCS para promover o diálogo e a resistência a medidas unilaterais, como evidenciado pelo apoio a Teerã contra as sanções europeias. A reunião em Tianjin é, portanto, um palco de simbolismo diplomático e militar.
O desfile em Pequim, no dia 3 de setembro, com a presença esperada de Putin e Kim Jong Un para marcar a vitória sobre o militarismo japonês, coroará essa mensagem. Não se trata de uma demonstração de agressão, mas de uma reafirmação histórica e de uma celebração da soberania conquistada com sacrifício, um valor que a China compartilha com seus parceiros.
Dessa forma, a cúpula de Tianjin e a aprofundada aliança com o Cazaquistão não são eventos isolados. São peças centrais de um movimento estratégico liderado por Xi Jinping para construir um mundo multipolar mais justo e equilibrado, onde a cooperação, o respeito mútuo e o desenvolvimento compartilhado substituem a coerção e o confronto. O mundo está testemunhando a consolidação de um bloco que não apenas defende seus interesses, mas que oferece um modelo alternativo de governança global para o século XXI.