Durante a campanha eleitoral, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, fez questão de se apresentar como ‘cria da periferia’, destacando suas origens no Parque Santo Antônio, na zona sul, para conquistar a confiança dos eleitores e demonstrar compreensão sobre suas dificuldades. Desde a eleição, no entanto, essa narrativa revela-se vazia diante da desconexão entre discurso e realidade. A negligência da prefeitura frente aos alagamentos nas zonas norte e leste, majoritariamente negras, expõe esse descompasso.
O abandono da gestão municipal à periferia se manifesta em duas frentes: falta de investimento em políticas preventivas contra eventos climáticos e ausência de assistência emergencial às vítimas das enchentes. Sem medidas eficazes, bairros como Iguatemi, Cidade Tiradentes, Parque do Carmo, Itaquera e Guaianazes permanecem desamparados, com moradias destruídas, transporte comprometido e vidas em risco. No Jardim Pantanal, segundo a agência Alma Preta, moradores afetados sequer receberam auxílio da prefeitura, reforçando o descaso do poder público.
Em entrevista ao Roda Viva, o secretário municipal de Mudanças Climáticas, José Renato Nalini, afirmou: “As emergências ambientais não são nem de direita nem de esquerda – elas são uma causa humanitária.” Mas essa “causa humanitária” parece ter limites geográficos e raciais bem definidos, já que a periferia paulistana segue invisibilizada. Enquanto isso, a identidade periférica é usada como marketing eleitoral, sem ações concretas para mudar a realidade. Essa exploração reforça a desconfiança nas instituições e expõe o compromisso superficial da gestão.
Sem medidas eficazes, bairros como Iguatemi, Cidade Tiradentes, Parque do Carmo, Itaquera e Guaianazes permanecem desamparados
Vale lembrar que 43,5% da população paulistana se identifica como negra e que, historicamente, as periferias foram ocupadas por pessoas pretas e pardas, deslocadas pela ausência de políticas habitacionais inclusivas. A gestão Nunes, portanto, não é um ponto fora da curva, mas a continuidade de um projeto de exclusão estruturalmente naturalizado desde o pós-abolição.
Nesse contexto, o conceito de racismo ambiental é essencial para compreender como a desigualdade na distribuição dos riscos urbanos reflete estruturas históricas de exclusão. A ausência de infraestrutura adequada, a ocupação de áreas de risco e a negligência estatal não são falhas isoladas, mas parte de um sistema que expõe sistematicamente comunidades negras e pobres a desastres sem planejamento para mitigá-los. A falta de políticas eficazes aprofunda desigualdades e define quais vidas são protegidas e quais são descartadas.
Essa hierarquia de vulnerabilidades se manifesta também no campo do pensamento. Em Crítica da Razão Pura, Kant propõe estruturas universais da razão. No entanto, essa universalidade se desfaz diante da realidade dos moradores negros das periferias paulistanas, que vivenciam os efeitos do racismo ambiental e estrutural. Movimentos periféricos desafiam essa centralidade da razão eurocêntrica ao reivindicar epistemologias enraizadas na vivência e na oralidade. Esses saberes, frequentemente marginalizados, não apenas denunciam, mas contestam as exclusões sistêmicas que moldam tanto a cidade quanto o conhecimento.
Romper esse ciclo exige que gestores públicos transcendam a retórica e promovam políticas que incorporem essas epistemologias no planejamento urbano. A participação ativa dos movimentos periféricos na formulação de políticas ambientais, habitacionais e de infraestrutura é fundamental para garantir respostas eficazes e representativas. Construir uma cidade mais inclusiva e justa passa por um compromisso real com a periferia, com políticas que enfrentem a exclusão e promovam equidade racial e social. Só assim será possível assegurar a todos o acesso aos mesmos direitos, oportunidades e ao reconhecimento de suas formas de saber e existência.