
“O crime está em todo lugar, inclusive dentro dessa casa”. A declaração do sociólogo e ativista Thiago Torres, o Chavoso da USP, marcou a sessão da CPI dos Pancadões realizada nesta quinta-feira (28) na Câmara Municipal de São Paulo.
Convocado a depor, Chavoso representou as vozes das favelas e bateu de frente com a condução da comissão pelo vereador Rubinho Nunes (União Brasil), que teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral e foi condenado a oito anos de inelegibilidade por espalhar notícias falsas em 2024.
Durante a sessão, o presidente da CPI tentou enquadrar o funk como crime, associar os bailes de rua ao tráfico e chegou a ameaçar o ativista com voz de prisão.
“O crime está em todo lugar”
Em um dos momentos mais marcantes da CPI, Rubinho perguntou se Chavoso reconhecia a presença do crime nas periferias. O ativista respondeu que “Existe em todo lugar, inclusive dentro dessa casa”.
A fala provocou reação imediata do vereador, que cogitou dar voz de prisão caso ele não dissesse o nome de algum parlamentar envolvido com o crime organizado. Chavoso, então, esclareceu.
“Não afirmei isso. Sua pergunta foi sobre a existência de crime na periferia. Eu falei: ‘O crime está em todo lugar’. Quando a gente fala de crime, não falei de tráfico ou facção. Posso estar falando de qualquer tipo de crime”.
Ao ser questionado sobre o suposto envolvimento de facções nos bailes de rua, o ativista respondeu: “Nenhuma. Nenhuma facção criminosa participa da organização dos bailes”.
Diante da insistência de Rubinho, que ironizou dizendo tratar-se de “Alice no País das Maravilhas”, Chavoso rebateu: “Você está fazendo uma pergunta afirmativa, querendo me induzir a responder da forma como você quer. Isso aqui não é inquisição”.
“Isso aqui não é inquisição”
Em um outro momento, o presidente da Comissão tentou contrapor o direito ao pancadão ao “pai de família que acorda às 5 da manhã”. Chavoso respondeu citando a violência estrutural contra trabalhadores pobres e negros.
“O pai de família que acorda 5 horas para trabalhar tem que ser morto pela polícia, como trabalhador lá em Parelheiros que foi correr para pegar o ônibus e o policial meteu bala nele. Eu não vejo vocês falando do menino [Ryan] de 4 anos morto lá na Baixada Santista. (…) Por que só se fala do que é produzido na periferia, mas o que o Estado e as elites produzem para destruir as nossas vidas não é falado?”
Apropriação seletiva do funk
Outro ponto levantado por Chavoso foi a apropriação seletiva do funk. Ele lembrou que o próprio Rubinho já se utilizou do gênero em campanha eleitoral para vereador de São Paulo, em 2020.
“O senhor mesmo usou um funk como jingle para sua eleição em 2020. O funk é usado por elites, classes dominantes e médias em campanhas, em programas de TV, em festas e baladas de playboys. Esse funk não é reprimido. Ele passou por apropriação, embranquecimento e higienização. Já o funk produzido nas favelas continua sendo criminalizado”.
A potência da cultura periférica
Para o ativista, a CPI simbolizou a resistência da juventude negra e periférica diante de um Estado que insiste em criminalizá-la. Em sua avaliação, o funk e os bailes de rua representam uma expressão legítima das comunidades que historicamente foram silenciadas.
“A luta não é apenas contra o barulho do pancadão, mas contra o silêncio imposto sobre a violência policial, as desigualdades estruturais e a hipocrisia seletiva das elites”, resumiu.
Também participou da sessão o produtor Henrique Alexandre Barros Viana, o “Rato”, da produtora Love Funk, igualmente alvo de pressões durante a condução da CPI. As vereadoras Keit Lima e Amanda Paschoal (PSOL) saíram em defesa dos depoentes.
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