Comitiva de deputados e vereadores brasileiros ligados ao MST em visita à China. Foto: Divulgação/MST

Por Goura Nataraj*
Da Carta Capital

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) do Brasil possui um grupo de articulação com a China desde março de 2020 que atua na construção de pontes entre as lutas da agricultura familiar, da reforma agrária, da agroecologia e da cidadania no Brasil com as experiências bem-sucedidas do socialismo chinês que em 2021 conseguiu erradicar oficialmente a pobreza em todo seu território.

A convite do MST e de seus parceiros na China, em especial a East China Normal University (ECNU) e seu departamento de International Communication Research Institute (ICRI), estou completando uma jornada de dez dias no território chinês junto a outros parlamentares que o movimento elegeu nas últimas eleições ou são seus apoiadores. Nossa visita tem como objetivo explícito o fortalecimento das redes de integração entre o Sul Global na perspectiva de aprendizado mútuo entre os povos.

Mas para nós, mais especificamente, significa um contato direto com políticas públicas existentes na China que promovem o processo de revitalização rural como uma das grandes estratégias de eliminação da pobreza e modernização do país.

É o que se vê com as políticas de apoio das províncias mais desenvolvidas àquelas mais carentes e no investimento maciço em infraestrutura ferroviária, rodoviária e de serviços fundamentais como eletricidade, água, saneamento e internet.

Também fazem parte dessa transformação a digitalização, a tecnologia e o estímulo às novas mídias sociais; além do fortalecimento das identidades culturais locais e minoritárias presentes nas mais de 50 diferentes etnias espalhadas pelo país.

É impressionante todo o esforço de fomento a uma economia verde, pautada na gestão sustentável dos resíduos, na arborização urbana, na recuperação dos rios e na redução da poluição, no apoio que se dá à agricultura familiar e campesina e na valorização da produção regional.

Tudo isso na visão do socialismo com características chinesas – em que o governo central está presente em tudo, mas as estruturas políticas locais são respeitadas. É o lema da Revolução Popular Chinesa de 1949, “servir ao povo”, sendo repetido diariamente com orgulho por todos e todas na China atual.

As atividades do MST na China nestes últimos anos são impressionantes.

Dignas da mais alta diplomacia, estes embaixadores das mais de 500 mil famílias já assentadas no Brasil estabeleceram pontes de confiança com universidades, cooperativas, empresas e comunidades que compartilham da visão estratégica internacionalista de união entre os países do Sul Global.

Um dos projetos que está sendo debatido, por exemplo, envolve o MST e a China Agricultural University (CAU), uma das instituições de ensino e pesquisa mais prestigiadas da China na área de ciências agrárias e afins, e o MST numa sofisticada tecnologia de tratamento de resíduos orgânicos para geração de bioinsumos, visando uma agricultura livre de agrotóxicos.

O deputado Goura Nataraj (PDT-PR), a convite do MST, passou 10 dias na China. Foto: Divulgação/MST

As negociações que envolvem levar essa tecnologia inovadora para o Brasil, que tem capacidade de reduzir enormemente o tempo de compostagem, está avançando e pode significar uma verdadeira revolução em nossas cidades, que carecem de uma política pública urgente de compostagem urbana.

Uma tecnologia dessas significa economia de dinheiro público, efetividade ambiental, geração de biofertilizantes para cadeia agroecológica da agricultura familiar e benefícios múltiplos: ambientais, sociais e econômicos.

Essas parcerias com universidades também incluem colaborações com empresas estatais chinesas de maquinário agrícola, que desenvolvem equipamentos de pequena escala adaptados às necessidades de propriedades familiares e assentamentos como os do MST.

Outro ponto que vale destacar é a importância de termos na presidência do New Development Bank (NDB), com sede em Xangai, o Banco do Brics, a nossa presidenta Dilma Rousseff, que seguirá por mais uma gestão até 2028.

O Brics pode ser muito mais do que apenas uma entidade da economia. Esse grupo de países pode fortalecer em muito as trocas culturais e de conhecimentos, além da cooperação tecnológica e científica entre os seus integrantes e o mundo.

Ao sermos recebidos pela presidenta Dilma e sua equipe, ouvimos que existem possibilidades de financiamento de projetos para os municípios brasileiros pelo NDB.

Comitiva de políticos brasileiros ligados ao MST são recebidos por Dilma, a presidenta do Banco do Brics, na China. Foto: Divulgação/MST

Estas e outras portas estão sendo abertas pela articulação do MST aqui na China para benefício de todo povo brasileiro. É a diplomacia popular em prática.

Nossa caminhada na China iniciou no dia 18 de março na cidade de Shanghai e seguiu para região do lago de Taihu na antiga capital do império, Nanjing e depois Suzhou.

De lá, seguimos para o interior profundo e montanhoso da China na província de Guizhou, onde conhecemos a cidade de Rongjiang e a realidade de camponesas e camponeses de etnias minoritárias que estão envolvidos em projetos fascinantes de revitalização rural, conjugando esporte, turismo, infraestrutura, logística, digitalização e cultura, muita cultura.

Nesta etapa final, já em Beijing, capital da República Popular da China, ainda teremos reuniões com representantes do Partido Comunista Chinês, intelectuais e também seremos recebidos pela embaixada do Brasil.

São dez dias que parecem 10 meses, seja pela intensidade das experiências, seja pelo reconhecimento da ignorância que nós, no Brasil, mas talvez também no mundo, temos em relação à realidade sobre o que acontece na China atualmente.

Em tempos de bolsotrumpismo e avanços do fascismo e da extrema-direita, sugiro que olhemos com muita atenção para o experimento do socialismo chinês, que nos últimos 76 anos efetivou tremendas transformações sociais que podem servir de combustível para mudanças necessárias em nossa sociedade.

Quando tentamos explicar aqui na China que o Brasil tem um movimento social que luta pela justiça no campo e pelo direito de cultivar a terra para quem deseja, os chineses não entendem direito.

Isso porque, para eles, a reforma agrária já aconteceu há mais de três gerações e agora eles colhem os frutos de uma revolução socialista construída de baixo para cima através da organização popular.

Certamente existem contradições e paradoxos, como em todo processo histórico, mas é inegável que a aproximação do Brasil com a China (nosso maior parceiro comercial desde 2009) deve ir além das trocas econômicas.

Devemos aprofundar as relações possíveis na perspectiva da construção de uma unidade entre países que foram colonizados, explorados e violentados por séculos, e precisam se apoiar mutuamente para resistir ao avanço atual de estruturas de poder que se pretendem totalizadoras.

Num tempo de desesperança e ansiedades crescentes, minha admiração às companheiras e aos companheiros do MST só aumenta após testemunhar diretamente estas ações, fruto de muita reflexão crítica e construções coletivas que aspiram a uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária.

A China seguirá nos inspirando e ajudando nestas reflexões, mas cabe a nós, em nossa República do Brasil, seguirmos na luta para aumentar a consciência crítica do nosso povo e avançar nas políticas públicas tão urgentes e necessárias.

Estamos, certamente, algumas décadas atrasados, mas nossa visão deste horizonte possível ganhou, depois destes dias na terra de Confúcio e Mao Zedong, mais nitidez e entusiasmo!

*Goura Nataraj Jorge Gomes de Oliveira Brand, o Goura Nataraj, é deputado estadual pelo PDT do Paraná.

Categorized in:

Governo Lula,

Last Update: 27/03/2025