Associação dos Colaboradores do Ceitec (ACCEITEC)

O SETOR E A HISTÓRIA PIONEIRA DO BRASIL
Nos anos 1970, o Brasil deu um passo ousado ao fabricar o seu primeiro chip na Universidade de São Paulo. Foi um marco simbólico: mostrava que o país tinha capacidade intelectual e técnica para participar de um setor que viria a se tornar a espinha dorsal da economia mundial. Mais do que um avanço tecnológico, aquele feito representava uma visão de futuro — a ideia de que uma nação com as dimensões e a complexidade do Brasil não poderia ficar à margem da revolução digital que se anunciava.
Enquanto isso, países que estavam em situação econômica e tecnológica muito mais modesta — como Coreia do Sul, Taiwan e Malásia — decidiram apostar com determinação na indústria de semicondutores. Fizeram disso uma prioridade nacional, sustentada por políticas de longo prazo, incentivos e planejamento estratégico. Hoje, são referências globais. O Brasil, por outro lado, interrompeu esse caminho, como se tivesse desistido de competir em uma área que exige continuidade e paciência para gerar resultados.
Nos anos 2000, houve uma tentativa de recuperar parte dessa trajetória. Foram lançadas iniciativas como o programa CI-Brasil e criada a CEITEC, em Porto Alegre, para dar corpo a uma política de semicondutores no país. Essas ações demonstraram que ainda havia uma percepção, dentro do Estado brasileiro, da importância estratégica desse setor. A CEITEC surgiu como herdeira daquele pioneirismo dos anos 70, mas também como símbolo do que pode florescer quando o país decide investir em tecnologia com visão de futuro.
O CENÁRIO MUNDIAL E A POSIÇÃO DO BRASIL
A crise dos semicondutores, que estourou durante a pandemia, escancarou ao mundo a dependência absoluta que as nações têm desses pequenos componentes. Fábricas de automóveis pararam, linhas inteiras da indústria eletrônica ficaram sem produzir e até setores estratégicos como saúde e defesa foram impactados. Bastou a interrupção temporária da cadeia global de suprimentos para que países ricos percebessem que não ter domínio sobre semicondutores é abrir mão de parte significativa da sua soberania econômica.
Além disso, os semicondutores têm forte relação com a geopolítica, visto que cerca de 80% da produção mundial está concentrada no leste da Ásia. Os equipamentos utilizados nas fábricas de semicondutores também são fornecidos por um número limitado de países, o que torna toda a cadeia produtiva altamente dependente de poucos polos estratégicos. Para além dos efeitos da pandemia, a crescente tensão geopolítica evidencia os riscos dessa dependência tecnológica. Portanto, não se trata apenas de uma questão econômica, mas de uma união entre política industrial e geopolítica.
Nesse contexto, grandes potências se movimentaram rapidamente. Os Estados Unidos aprovaram o Chips Act, com investimentos bilionários. A União Europeia respondeu com o EU Chips Act. A China com seu Big Fund acelerou ainda mais seus aportes em pesquisa e infraestrutura, enquanto a Índia atraiu grandes fabricantes com subsídios. Até países menores, como Vietnã e Malásia, aproveitaram a crise para consolidar suas posições na cadeia de valor, mostrando que visão estratégica e continuidade de políticas fazem a diferença.
Dentro dos BRICS, o contraste é gritante. A China já é uma das maiores produtoras mundiais de semicondutores; a Índia avançou em design e montagem; a Rússia, mesmo sob sanções, mantém investimentos em eletrônica de defesa; a África do Sul explora nichos em pesquisa. O Brasil, por sua vez, tentou extinguir justamente a sua única empresa pública do setor, a CEITEC. Vale ressaltar que a CEITEC é a única fábrica na América Latina capaz de fabricar chips em escala comercial. Enquanto isso, os parceiros ampliavam sua presença nesse mercado, o Brasil quase eliminou a sua única semente de soberania digital.
Essa foi a grande oportunidade perdida. A crise mundial poderia ter servido como catalisador para o fortalecimento da CEITEC e para a criação de novas iniciativas nacionais. Em vez disso, prevaleceu a visão de curto prazo, que confundiu custo com investimento e tentou liquidar uma empresa estratégica no momento em que o mundo inteiro investia pesado em semicondutores. O resultado é que, hoje, seguimos dependentes de importações, enquanto outros países se preparam para liderar a próxima onda tecnológica.
AS DESINFORMAÇÕES SOBRE A CEITEC
Uma das maiores confusões em torno da CEITEC é não entender corretamente em que parte do setor de semicondutores ela atua. Para o público, a palavra “chip” geralmente remete a processadores ou memórias, como aqueles produzidos por gigantes globais como Intel, Samsung ou TSMC. Esses são os chips que fazem cálculos, armazenam dados e comandam sistemas. Esse é o universo chamado “More Moore”, onde cada avanço exige investimentos de dezenas de bilhões de dólares para reduzir tamanhos e aumentar a capacidade computacional.
Mas os semicondutores não se resumem a isso. Um celular, por exemplo, não funciona apenas com memória e processador. Ele depende de uma série de outros chips: o da câmera, que captura imagens; o do microfone, que converte som em sinais elétricos; o dos sensores de movimento e proximidade; os chips de carregamento e gerenciamento da bateria. Todos esses fazem parte do chamado “More than Moore”, que integra funções diversas aos sistemas digitais. São igualmente indispensáveis, mas exigem investimentos bem menores para seu desenvolvimento.
É justamente nesse campo que a CEITEC atua. A empresa foi criada para atender demandas específicas do Estado brasileiro, e atendeu todas elas. Desenvolveu chips para passaporte eletrônico, para o SINIAV (segurança no trânsito), para o SISBOV (rastreamento de gado) e sensores que poderiam ter sido usados pelo SUS em plena pandemia de COVID-19. Todos os projetos foram entregues, sempre dentro das encomendas recebidas. O problema não foi técnico, mas político: faltou coordenação de governos que não compreenderam que a CEITEC é parte de uma política de Estado, que deveria atravessar gestões de diferentes partidos.
Outra falácia recorrente é comparar a CEITEC a empresas gigantes ou mesmo a comércios simples, como padarias. Essa comparação é esdrúxula. A CEITEC nunca teve a missão de competir diretamente com Intel ou TSMC, que contam com centenas de milhares de funcionários e orçamentos anuais de dezenas de bilhões de dólares. A CEITEC é uma empresa de cerca de 100 pessoas, com uma sala limpa de 1.800 m² — mas que, dentro dessa escala, atingiu níveis técnicos reconhecidos mundialmente. O erro é esperar que uma estrutura desse porte entregue os mesmos resultados de gigantes globais, ou reduzi-la a uma visão meramente contábil, como se fosse apenas um “centro de custos”.
Esse olhar restrito ignora que a CEITEC teve papel fundamental em fomentar todo um ecossistema no Brasil. Empresas como a HT Micron (montagem avançada de semicondutores), a Impinj (RFID), a EnSilica (design de chips) e a Telescon (que está em fase de instalação no RS) surgiram ou se fortaleceram em grande medida pela existência da CEITEC. Ou seja, mais do que entregar produtos, a empresa ajudou a fomentar o setor industrial mais importante da atualidade no Brasil e no mundo. Isso é exatamente o que se espera de uma política de Estado: abrir caminhos, atrair investimentos, formar mão de obra e trazer melhores condições de vida para uma nação.
Por isso, a maior confusão não está apenas em comparar a CEITEC com gigantes globais, mas em não entender que semicondutores não são uma questão meramente de mercado. Eles são uma questão de soberania. Não se pode decidir o futuro de um setor estratégico como quem decide abrir ou fechar uma empresa comum. É preciso estabelecer compromissos de longo prazo, protegidos de disputas político-partidárias.
É nesse ponto que surge a proposta de uma Emenda Constitucional: tornar a indústria de semicondutores uma cláusula fundamental de desenvolvimento do Brasil. Assim como energia e petróleo são tratados como bens estratégicos, os chips também devem ser. O país não pode viver apenas de extrativismo, exportando matérias-primas e importando tecnologia pronta. Esse comportamento causa ano após ano um distanciamento maior entre a complexidade produtiva do Brasil em relação aos seus fornecedores de insumos para tecnologia da informação. Em outras palavras o Brasil financia o desenvolvimento científico e tecnológico de nações estrangeiras, inclusive através de compras públicas na área de TI. Sem semicondutores nacionais, não há soberania digital, não há segurança de dados e não há futuro industrial sustentável.
A NECESSIDADE DE UMA EMENDA CONSTITUCIONAL PARA SEMICONDUTORES E TI
A crise global de semicondutores deixou claro que a dependência externa pode colocar em risco não apenas a economia, mas também a democracia. Em 2023, uma reportagem trouxe um alerta: “A crise de semicondutores poderia ter custado a democracia brasileira” (UOL). O texto mostra como a falta de chips ameaçou o funcionamento de urnas eletrônicas. Esse é o tipo de vulnerabilidade inaceitável: um país não pode correr o risco de ver seu sistema eleitoral, seu Exército ou seus hospitais pararem porque depende de um fornecedor estrangeiro. Some-se a isso o histórico de espionagem contra a presidenta Dilma Rousseff e temos um quadro que mostra o quanto informação e soberania digital são inseparáveis.
Do ponto de vista econômico, semicondutores são um insumo básico que atravessa todas as cadeias produtivas. Sem chips não há indústria automotiva, de telecomunicações, de saúde, de energia ou de defesa. Do mesmo modo que energia elétrica ou petróleo são considerados pilares da soberania, os semicondutores precisam ser tratados como recurso estratégico. Não estamos falando apenas de produtos de consumo: estamos falando da base física que faz a economia girar e garante competitividade à indústria nacional. Sem domínio nesse setor, o Brasil continuará exportando commodities e importando tecnologia — uma equação que perpetua dependência e desigualdade.
Nesse sentido, a solução é clara: é preciso avançar para uma Emenda Constitucional que torne os semicondutores um tema de Estado. Países que entenderam isso estão blindando suas políticas industriais: os Estados Unidos aprovaram o Chips Act, a União Europeia o EU Chips Act, ambos com apoio multipartidário. Ao constitucionalizar a produção de semicondutores, o Brasil garantiria que nenhum governo futuro — seja de esquerda, direita ou centro — poderia simplesmente desmontar essa política estratégica por conveniência ou ideologia.
Esse é o alerta: sem chips nacionais, o Brasil seguirá vulnerável, dependente e sujeito a pressões externas. Mas também há saída. O futuro pode ser diferente se reconhecermos que soberania tecnológica é questão de sobrevivência. Com semicondutores tratados como política de Estado, o país terá condições de proteger suas informações, fortalecer sua democracia, desenvolver sua indústria e gerar empregos de alta qualificação. O recado é simples: ou fazemos isso agora, ou continuaremos à mercê de interesses ou caprichos estrangeiros. A boa notícia é que o Brasil tem talento, conhecimento e recursos naturais — precisamos apenas de decisão política para transformar esse potencial em soberania real.
O CONTRASTE POLÍTICO INTERNACIONAL E O ATRASO BRASILEIRO
As críticas que se levantaram contra a CEITEC nos últimos anos não foram fruto de uma análise séria de sua atuação e do seu impacto no setor, mas de uma visão enviesada e presunçosa. Houve quem comparasse a empresa a uma padaria ou a uma microempresa de bairro, como se a indústria de semicondutores pudesse ser avaliada apenas pela lógica contábil do curto prazo. Essa visão não só é incorreta, como é perigosa: ignora que semicondutores não são produtos comuns, mas insumos estratégicos para todas as indústrias modernas.
A retomada da CEITEC após a tentativa de liquidação representa uma vitória importante para quem entende os impactos da soberania tecnológica. Hoje, a empresa volta a respirar com novos projetos, como o programa em parceria com a Finep para desenvolver tecnologia em carbeto de silício (SiC), fundamental para energia limpa e mobilidade elétrica. Mas é preciso clareza: os recursos da Finep são dinheiro carimbado, destinados apenas a investimentos. Isso não resolve o problema central da empresa, que continua sofrendo com a falta de recursos para custeio — a parte do orçamento que mantém as luzes acesas, honra contratos e permite a produção do portfólio já existente.
Enquanto no Brasil ainda precisamos lutar pelo básico, outros países demonstram maturidade institucional. Nos Estados Unidos, republicanos e democratas, que mal conseguem concordar em temas elementares, uniram forças no Chips Act. Na Europa, conservadores e progressistas aprovaram juntos o EU Chips Act. No Reino Unido, governos de diferentes espectros vêm mantendo políticas de fortalecimento tecnológico contínuas. Esses exemplos mostram que, quando o tema é soberania, não há espaço para picuinhas eleitoreiras — é a segurança da nação que está em jogo. Talvez o maior problema do Brasil, na atualidade, seja não ter clareza sobre o real significado da palavra NAÇÃO.
É justamente aí que está o contraste mais intrigante: no Brasil, parte da classe política ridiculariza a ideia de soberania, como se fosse exagero falar em desenvolvimento. Essa miopia nos condena à dependência e nos coloca em posição de submissão diante das grandes potências. Mas há um outro caminho. Se o país decidir levar esse tema a sério, pode transformar o setor de semicondutores em um polo catalisador de desenvolvimento, atrair investimentos, gerar empregos de alta qualificação e inserir o Brasil no mapa global da tecnologia. O futuro pode ser de atraso ou de protagonismo — e a escolha depende apenas de como agiremos hoje.
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