A reaproximação dos Estados Unidos com o Brasil em torno dos chamados minerais estratégicos reacendeu a discussão sobre o papel do país na corrida global por liderança científica e tecnológica. Em julho, o governo norte-americano manifestou oficialmente interesse nas reservas brasileiras de terras raras — grupo de elementos químicos essenciais para tecnologias de ponta, como turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas militares. A investida coloca o Brasil no centro de uma disputa geopolítica que vai além da mineração: está em jogo quem controlará o futuro da inovação.
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, com 23% do total global, atrás apenas da China, que concentra quase metade (49%). A demanda crescente por esses elementos reflete seu papel crucial na transição energética, reindustrialização e desenvolvimento tecnológico. Ainda assim, o país detém apenas 1% da produção global, revelando um descompasso entre potencial geológico e capacidade industrial.
Ciclo
O interesse norte-americano nos minerais brasileiros não é novidade. Durante a Guerra Fria, entre as décadas de 1950 e 1960, os Estados Unidos importaram grande quantidade de areia monazítica — rica em tório — da Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Na época, o insumo alimentava a corrida nuclear contra a União Soviética. Assim como no passado, o Brasil se vê novamente diante do dilema entre exportar matéria-prima bruta ou investir em agregação de valor e desenvolvimento tecnológico.
Hoje, embora apenas a mina Serra Verde, em Goiás, opere comercialmente na produção de terras raras, especialistas apontam que o país tem condições de ampliar sua atuação. A aposta está na formação de uma cadeia produtiva nacional, desde a pesquisa até a fabricação de componentes de alto valor agregado, como ímãs permanentes usados em equipamentos de alta tecnologia.
Ciência e inovação
Diversas instituições brasileiras estão empenhadas em ampliar o conhecimento sobre as terras raras. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) conduz projetos de mapeamento e análise, enquanto universidades e institutos de pesquisa — como a USP, UFAM e UFSC — lideram iniciativas voltadas à formação de especialistas e ao desenvolvimento de tecnologias de processamento e fabricação de ímãs.
Dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) são destaques nesse esforço: o INCT P.A.T.R.I.A., que iniciou em 2018 e resultou na criação da primeira fábrica nacional de ímãs de terras raras em 2024, e o INCT MATERIA, lançado recentemente com foco em extração sustentável, cerâmicas avançadas e ímãs de alto desempenho. A previsão é de investimentos de R$ 10,2 milhões ao longo de cinco anos.
Além disso, o laboratório LABFABITR, gerenciado pelo Instituto SENAI de Inovação em Belo Horizonte, deve iniciar a produção de ímãs em 2026, com capacidade de 10 toneladas por ano. O espaço recebeu R$ 73 milhões do Programa Mover, iniciativa do governo federal para fomentar a sustentabilidade no setor automotivo.
Disputa geopolítica
Com a crescente tensão global em torno do controle de cadeias produtivas estratégicas, os minerais críticos assumiram papel central. A China domina cerca de 70% da produção mundial e 90% do processamento de terras raras. A dependência ocidental desse suprimento motivou reações. Nos Estados Unidos, medidas como o Defense Production Act foram reativadas para estimular a produção doméstica, mesmo com o país detendo reservas próprias. Já na União Europeia, foi aprovado em 2024 um regulamento para garantir o abastecimento sustentável de matérias-primas essenciais.
O Brasil, por sua vez, tenta avançar com a nova política nacional para minerais críticos, coordenada pelo Ministério de Minas e Energia. A proposta, chamada Mineração para Energia Limpa (MEL), busca fortalecer a indústria nacional, ampliar o mapeamento geológico, facilitar financiamentos e fomentar pequenas empresas no setor.
No início de 2025, o governo lançou uma chamada pública para apoiar planos de negócios voltados à transformação de minerais estratégicos, com recursos da ordem de R$ 5 bilhões. Das 124 propostas recebidas, 56 foram aprovadas — 20 delas vindas de Minas Gerais.
Gargalos
O projeto MagBras – Da Mina ao Ímã, lançado em julho de 2025, simboliza o esforço coletivo para estruturar uma cadeia produtiva nacional de terras raras. A iniciativa reúne 28 empresas, 7 instituições de pesquisa e 3 fundações, com investimentos de R$ 73 milhões financiados pelo SENAI e FUNDEP.
Mesmo com avanços, desafios persistem. Ainda hoje, parte dos elementos extraídos no Brasil é exportada em forma bruta para países como a China, onde ocorre o refino e a produção dos ímãs. Segundo o físico nuclear Ricardo Galvão, presidente do CNPq, essa lógica impede que o Brasil alcance soberania tecnológica. “Temos todas as condições para dominar completamente o ciclo de produção, como fizemos com o ciclo nuclear”, afirma.
Para a pesquisadora Elaine Santos, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), em Portugal, o Brasil precisa romper com o modelo histórico de exportação de matérias-primas e adotar estratégias mais ambiciosas. “Outros países estão impondo restrições à exportação bruta, como o Zimbábue, que pretende proibir a exportação de lítio não processado a partir de 2027. O Brasil precisa seguir por esse caminho — para além do discurso”, afirma.
O professor Flávio Combat, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ, também alerta para os riscos de repetir erros do passado. “A disputa por minerais críticos hoje envolve a liderança da revolução tecnológica. Quem controla esses insumos, controla o ritmo da inovação. O Brasil tem a chance de entrar nessa corrida com protagonismo, mas precisa investir em agregação de valor e inovação dentro do país”, defende.
Dilema
No centro da disputa internacional por minerais estratégicos, o Brasil enfrenta uma encruzilhada histórica. Com reservas abundantes, instituições científicas capacitadas e demanda crescente por tecnologias sustentáveis, o país tem as ferramentas para se posicionar como potência tecnológica. Resta saber se fará a escolha certa.
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