Apesar dos bons resultados em sorvetes e cuidados pessoais, ações da Unilever acumulam queda no ano e refletem incertezas com a nova estratégia
A gigante multinacional de bens de consumo Unilever Plc anunciou nesta quinta-feira (31) um aumento nas vendas do segundo trimestre, impulsionado principalmente pelo desempenho robusto de sua divisão de sorvetes — que inclui marcas icônicas como Ben & Jerry’s — e pelo bom resultado de produtos de cuidados pessoais, como o sabonete Dove.
A empresa, que está passando por um processo de reestruturação estratégica sob a liderança do CEO Fernando Fernandez, divulgou que as vendas subjacentes cresceram 3,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado superou ligeiramente as expectativas dos analistas financeiros, que acompanhavam de perto o desempenho da companhia.
Leia também:
Quem sai ganhando no acordo comercial entre UE e EUA?
O Golfo troca petróleo por chips na corrida da IA
BBC: Tarifas de Trump sobre o Brasil é uma retaliação política
Fernandez, que assumiu o cargo em março, tem concentrado esforços em focar nas divisões com maior potencial de crescimento e tem optado por desfazer-se de marcas de alimentos que historicamente apresentaram desempenho aquém do esperado. Essa estratégia faz parte de uma reformulação mais ampla da carteira de produtos da empresa, que busca maior eficiência e rentabilidade.
Reestruturação inclui cisão de sorvetes
Um dos movimentos mais significativos da nova gestão é a decisão de separar a divisão de sorvetes em uma empresa independente. A operação, que será listada na Holanda, está prevista para ser concluída até meados de novembro. Após a cisão, a Unilever manterá uma participação acionária de 20% na nova companhia.
A decisão de desmembrar o setor de sorvetes reflete a aposta da empresa em valorizar unidades que apresentam forte performance e potencial de crescimento independente. A divisão tem mostrado resultados consistentes, especialmente em mercados internacionais, onde marcas como Ben & Jerry’s têm conquistado espaço junto aos consumidores.
Apesar do bom desempenho operacional, as ações da Unilever têm enfrentado pressão no mercado financeiro. No acumulado do ano até o fechamento desta quarta-feira, os papéis da companhia acumulam queda de aproximadamente 2%.
Estratégia de foco e desinvestimento
A abordagem de Fernandez tem sido clara: concentrar investimentos nas áreas mais promissoras e desinvestir de negócios que não agregam valor significativo à companhia. A saída de marcas de alimentos de baixo desempenho faz parte desse movimento de repositionamento estratégico, que visa preparar a Unilever para os desafios do mercado global de bens de consumo.
Analistas do setor destacam que a reestruturação pode gerar valor para os acionistas a longo prazo, embora possa causar alguma volatilidade nos resultados de curto prazo. A separação da divisão de sorvetes, em particular, é vista como uma oportunidade para que ambas as empresas — a Unilever reduzida e a nova companhia de sorvetes — possam se desenvolver com maior agilidade e foco específico.
Com a cisão programada para ocorrer nos próximos meses, os investidores estarão de olho nos próximos passos da multinacional, que continua a ajustar sua estratégia em um mercado cada vez mais competitivo e exigente.
Unilever é multada em R$ 1,5 milhão por publicidade enganosa em sabão Surf
A multinacional Unilever Brasil levou uma multa de R$ 1,5 milhão aplicada pelo Procon-MG, vinculado ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por supostamente veicular informação enganosa na embalagem do sabão em pó Surf. O produto em questão indicava que 1,6 kg do produto “rende igual a 2 kg” — afirmação que o órgão de defesa do consumidor considerou claramente equivocada.
A denúncia foi registrada em julho de 2024, quando fiscais do Procon identificaram a irregularidade nas embalagens do Surf 5 em 1 com óleos essenciais. Para os fiscais, não há hipótese em que 1,6 kg possa ter o mesmo rendimento de 2 kg. “Em conta simples e meramente exemplificativa, se 2kg renderiam 40 lavagens, 1,6 kg, pela proporção, renderiam 32 lavagens”, destacou o órgão em seu parecer técnico.
Apesar de a Unilever alegar que removeu a informação questionada das embalagens ainda no mesmo mês em que a denúncia foi feita, o Procon-MG entendeu que isso não anula a infração. Segundo o Ministério Público, o produto com a embalagem antiga ainda estava sendo comercializado nas prateleiras no momento da fiscalização, com validade estendendo-se até maio de 2026.
Decisão baseada no faturamento da empresa
A decisão da 14ª Promotoria de Justiça da Capital – Defesa do Consumidor foi assinada pelo promotor Fernando Ferreira Abreu no dia 8 de junho deste ano. No documento, o órgão apontou que o texto da embalagem poderia induzir o consumidor ao erro sobre a quantidade real do produto, violando o Código de Defesa do Consumidor.
“A empresa reclamada infringiu os preceitos legais previstos, em prejuízo da coletividade, por disponibilizar ao consumidor produto impróprio ao consumo consistente no vício de informação do produto”, consta do processo administrativo.
O valor da multa foi calculado com base no faturamento da Unilever em 2023, que ultrapassou a marca de R$ 6 bilhões. Caso a empresa não cumpra a penalidade, o valor será inscrito em dívida ativa e poderá ser cobrado judicialmente pela Advocacia-Geral do Estado de Minas Gerais (AGE-MG).
Posicionamento da Unilever
Em nota oficial, a Unilever Brasil defendeu sua posição, afirmando que a fórmula do Surf 5 em 1 com óleos essenciais foi desenvolvida especificamente para oferecer o mesmo rendimento da versão anterior de 2 kg, agora concentrada em 1,6 kg. A empresa destacou que a embalagem continha orientações claras sobre o ajuste da dosagem — meia xícara de chá para uma máquina cheia de roupa (até 11 kg) — e informava que o produto renderia até 20 lavagens.
“As informações foram validadas pelas autoridades competentes. A mudança seguiu integralmente a legislação vigente e foi comunicada de forma transparente ao consumidor por meio do rótulo, do SAC e dos canais oficiais da marca”, afirmou a companhia.
A Unilever ressaltou ainda que se trata de uma adaptação que reflete investimentos em tecnologia e formulações mais eficientes, com menor impacto ambiental. A empresa reforçou que deixou de usar a alegação de rendimento desde julho de 2024 e reafirmou seu compromisso com a transparência e o respeito ao consumidor.
Apesar da multa, a Unilever ainda pode recorrer da decisão, o que pode prolongar o caso nos próximos meses. Enquanto isso, o episódio serve como alerta para outras empresas sobre a importância de clareza e precisão nas informações oferecidas aos consumidores.